
Tenho enormes dificuldades para escrever esta coluna semanal, e o motivo é o oposto do que você deve estar pensando. Não é falta de assunto e do que dizer, mas o excesso. Se as minhas colunas fossem diárias, eu ficaria muito mais confortável. Vou citar uma pessoa que logo voltará aqui: o meu irmão de vida e alma Benamy Sniadower. Era engraçado quando eu e o Bê caminhávamos do centro de Capão até a Plataforma de Atlântida, e eu aceitava o desafio de pescar um assunto e ir falando sobre ele até chegarmos ao destino, uma hora depois. Era como me sentar ao computador e escrever, porque eu estava ao lado de uma das pessoas com quem mais tenho intimidade. O texto, mesmo que na forma oral, fluía, e nós ríamos disso. Óbvio que eu me orgulhava, me sentia super! Porque essa é a minha vocação, a minha facilidade, e nisso não está nenhum exibicionismo. Se eu listar aqui as minhas dificuldades, precisaremos ir muito além da Plataforma de Atlântida.
Eu estava entre escrever sobre as minhas reflexões eleitorais, em especial sobre a falta de autocrítica da esquerda, e a reunião da minha turma/81 do Colégio Israelita que ocorrerá daqui a alguns dias pra marcar os 45 anos do fim de ciclo. Aí me veio um terceiro assunto, e vou começar por ele sem abrir mão dos outros, porque meu algoritmo emocional assim impôs. São três colunas numa só, como frequentemente ocorre comigo, e o Luiz Fernando Moraes é testemunha disso.
A minha turma do colégio é enorme e plural, na política, no futebol, em tudo. Mas percebo que aprendemos a lidar com isso, talvez na base do cansaço, e hoje conversamos com leveza sobre tudo e valorizamos o que nos une. Particularmente, digo, sem temer estar exagerando, que adoro todos os meus ex-coleguinhas e me sinto bem quisto por todos, literalmente, 100%. Sei que é difícil acreditar em algo assim, mas asseguro que é verdade.
Enfim, o assunto periférico que surgiu tem a ver com a foto que ilustra esta coluna. Ali, sou eu e o Bê (citado no primeiro parágrafo) com 10 anos, provavelmente até menos que isso. Eu tinha um problema com essa imagem, porque por uns três anos na minha vida (como a foto retrata) fui gordinho, e isso tolamente já me incomodou. Agora, o Bê pôs no grupo de Whatsapp da turma, e… eu deparei ali com duas crianças lindas, tanto eu quanto ele.
Não vejam aqui algo que possa ser nem remotamente definido como gordofobia. Os padrões de beleza são cruéis, e crescemos com eles. É justamente disso que falo. A triste verdade é que um menino com breve sobrepeso (“gorduchinho”) já tinha colado na testa um estigma, e eu sentia vergonha disso, a ponto de aumentar algo que nem de longe coincidia com meu próprio imaginário. Cruel? Crudelíssimo. E este texto pode e deve ser visto como manifestação contra essa crueldade.
Mas o que me levou a refletir sobre o assunto? É que esses 5% da minha vida em que fui rechonchudo me rendeu na época o apelido de “Leitão”, uma zoação que durou tão pouco quanto a minha breve fase fofa. Mas crianças se incomodam com aquilo que pra nós, adultos afirmados, parece pouco, e a imagem de gordinho foge ao padrão de estética, às convenções do belo. Evidentemente, eu queria ser atrativo pras gurias e bom jogador de futebol. E me incomodava.
Crianças e adolescentes compreensivelmente se incomodam com zoações e estereótipos, porque ninguém gosta de rótulo, ainda mais quando está na fase de crescimento (e afirmação) e o rótulo criado vai contra o padrão socialmente aceito. Você dirá: que bobagem! Nada disso, amigo, bobagem pra nós, à distância. E, se você é pai ou mãe, trate de ser empático, conversar com o seu filho e desidratar um incômodo às vezes até desproporcional.
Todo esse raciocínio surgiu porque mostrei pros meus filhos a foto compartilhada pelo Tio Bê, e eles, que nunca me viram obeso na vida, nem em foto, riram, dizendo “pai, eu pensei que tu fosse muito gordo nessa época”, “pai, tu nem era gordo”, “que decepção, pai” (essa conteve mordacidade). Claro, eu contava pra eles que tive uma fase na vida em que fui gordinho e alimentei um imaginário errado, infantil.
A minha cabeça aumentou o problema. Literalmente!
Percebem a importância disso?
Só me pus a refletir e a me dar conta agora. Era um assunto aparentemente desimportante pra mim, esquecido, 100% superado. Mas, pra minha surpresa, puxa, fiquei feliz ao me ver e me gostar. Me senti resolvendo algo íntimo de forma pretérita, retroativa, resgatando um assunto que talvez estivesse adormecidamente mal resolvido. E isso não é desimportante. Resgatei aquele guri lindo e injustiçado. Até vejo a foto e percebo um sorriso nos lábios dele.
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Detalhe da foto: pela camiseta que uso, você percebe que sou coerente com os meus princípios. Mas esse é outro assunto. Se você viu os meus depoimentos no documentário sobre os Gre-Nais, tem uma parte na qual digo que ser gremista nos anos 1970 afetava a autoestima de uma criança. No cinema, adorei ter ouvido risos com a minha fala sincericida. Mas isso prova que aquele guri fofo era um baita guerreiro.
Em breve, será o nosso encontro. Somos dezenas. O Bê, a Cláudia, a Lisi, a Nádia, o Rufs e o Serjão estão se esforçando tanto que a emoção já começou, e me sinto já abraçando cada um dos meus amados coleguinhas, amigos, irmãos da vida inteira. Também isso diz muito do Colégio Israelita e do nosso povo. Temos laços de valores, cultura, pertencimento, identidade e união que nos permitem um amor tão sólido e perene.
Em frenéticas trocas de mensagens no grupo de Whatsapp, a festa até já começou. Aí a Dani, que era uma bonequinha morena, postou uma foto e disse que estava se exibindo. Façam todos! Façam mais! Feio não é se exibir. Feio é não gostar disso, é ter inveja. Adoro ver as fotos dos meus coleguinhas em todas as fases da vida. Quero o bem deles, torço por eles, vibro por eles. Cada conquista de um de nós é uma conquista de todos.
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Antes de esgotar esse assunto inesgotável, devo fazer considerações sobre a palavra “Leitão”, que um dia me atormentou (logo eu, que na maior parte da minha vida fui magro e que costumo ser chamado pelo diminutivo afetivo “Leozinho”). Você sabe o que é “Leitão”? É o bebê do porco, que recebe esse nome porque bebe muito leite. Eu até tinha ressignificado essa alcunha, porque sou viciado em leite, queijos e iogurtes.
Vejam só como a vida pode ter um olhar carinhoso que ignoramos, com ou sem lactose.
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Sobre as eleições e a esquerda
A vida toda fui um cara de notório posicionamento progressista, que classifico como de centro-esquerda, porque sou um convicto social democrata. Só que, claro, a questão identitária (sou judeu e orgulhosamente “sionista”) está acima, como acho pertinente estar acima para negros diante do racismo pela cor da pele e para os homossexuais diante da homofobia. Aliás, estou também ao lado dessas minorias.
Vamos à crítica que na verdade é autocrítica. É essencial as chamadas forças progressistas (descarto liminarmente quem empunha a bandeira do Hamas, apoia aiatolás e nega ao povo judeu o direito à autodeterminação, porque são fascistas e genocidas em pele de cordeiro humanista) começarem a pensar no que elas próprias fazem de errado pra termos chegado a essa avalanche atual da extrema direita.
É essencial uma reflexão.
Mas um dos defeitos do campo progressista sempre foi o da impermeabilidade. Sempre fui “progre”, mas, no meu íntimo, também sempre vi com tristeza vários preconceitos derivados do sectarismo. Na minha juventude, até um guri que usasse camiseta polo e tivesse que trabalhar enquanto nós fumávamos nossos baseados (sou o dos baseados, tá? É uma autocrítica) era “quadrado”, “careta”, “engomadinho”, “mauricinho”.
Estudante de exatas? Alienado. De Engenharia?! Céus! “Reaça”!
Todos tinham que ter a mesma vocação pra serem aceitos? Ah, tá.
Uau! Que lindos o pensamento e o raciocínio únicos!
Há aqui uma completa e arrogante inversão de conceitos.
E falta de real empatia, de verdadeiro humanismo.
Juro que muitas vezes eu sentia desconforto. E acho que esse tipo de preconceito derivado do sectarismo transbordou. Pra mim, essa é a urgente volta às raízes mais profundas e comportamentais para entendermos o que ocorre. Podemos concentrar tudo numa única palavra: arrogância. Não gosto de dizer o que vou dizer agora (lembro de novo que é uma autocrítica), mas, sim, essa polarização tem como principais origens a intolerância, o preconceito e a simplificação de setores da esquerda. São muitos exemplos possíveis. Imagina se você defendesse o Muro da Mauá antes da enchente que pôs água abaixo um dos mais tradicionais dogmas porto-alegrenses! Seria “burguês”, inimigo do rio. E a antes detestada “Constituição Cidadã” de 1988, que hoje todos amam por proteger direitos?
A onda atual é o “repúdio” ao “sionismo” (convenhamos que não é uma onda, é um tsunami devastador, de uma gravidade de que muitos talvez nem se deem conta, mas surfam nela igual), o que me atinge em cheio, e talvez seja por isso que faço essa reflexão tão dura. Acabou a brincadeira, pessoal!
E essa é só a parte mais aguda e perigosa. A verdade é que os partidos de esquerda estão com uma enorme dificuldade de interlocução quando nos referimos ao povo real, e não a um povo imaginário. Falam sobre o povo, mas não para o povo, subestimam a crescente maioria dos evangélicos, por exemplo. Parece que essa esquerda com seus dogmas e sectarismos se congelou no fim da ditadura, há 40 anos. Perceba: chamávamos policial militar de “pé de porco” e policial civil de “rato”. Hoje, a segurança é um apelo, e esses caras são valorizados. A Libelu dizia “me bate / me chuta / sou liberdade e luta”, e isso era levado a sério. Hoje soa ridículo. Na parte trabalhista, as mudanças no mercado de trabalho são radicais, por diversos motivos, e as lutas continuam as mesmas, como se nada tivesse mudado. E a defesa identitária? É uma urgência essencial, sem dúvida, mas precisa ser tratada com bom senso – aliás, incluindo nela a demonizada minoria dos judeus.
Vida real, entende?
Enxerguem seus desatinos se quiserem entender por que o progressismo fica quatro anos no poder, no Brasil, nos EUA e em outros lugares, e cede fácil o espaço aos oponentes. Vocês não param pra pensar que tem algo muito errado com quem não aproveita a oportunidade de permanecer no poder? É muita impermeabilidade!
Repito: me dói o que estou dizendo, porque já fui um abobado que tendia ao sectarismo. Mas cresci. E sinto isso com muita força: transbordou! Sempre foi muito “nós bons e eles maus”. Conheci um cara de esquerda, muito querido, que achava as pessoas de lábios finos essencialmente más. Juro! Bem lombrosiano, pra dizer o mínimo. Enfim, é um desabafo de alguém que tem repulsa à extrema direita, mas que, ao mesmo tempo, crê ter captado qual é o verdadeiro recado das urnas.
Cresçam, nem que seja como leitõezinhos famélicos, e nunca se esqueçam da inspirada e sábia frase que diz jocosamente, numa rima deliciosa como a ambrosia: “Enquanto a direita olha pra esquina, a esquerda mira a Palestina.” E, aliás, mira mal. Esquece ou ignora deliberadamente (por antissemitismo) que o que hoje conhecemos como Palestina um dia já foi Judeia. Que existam ambas, lado a lado, com segurança, paz e mútuo reconhecimento. É a solução incontornável e adulta.
Shabat shalom!