Aquilo que já era uma ironia agora se torna também uma metáfora. Vejo nos jornais argentinos o sinal de alerta: no último dia 15 (certamente o índice aumentou de lá pra cá), mais de 10.649 casos de gastroenterite haviam sido registrados neste ano nas “praias prediletas” da turma em Florianópolis (o critério de predileção é deles), ou seja, mais de 10 mil casos só na primeira quinzena. E eu aqui, escrevendo calmamente e olhando o mar em Capão da Canoa, penso numa solução pros argentinos. Um mar de traçado reto, em que a abertura ao oceano possibilita praias perfeitamente balneáveis, com ótima infraestrutura e o charme de gerações que frequentaram suas ruas, histórias delineadas com amor e muita memória possibilitando o afeto e a simplicidade. E me dou conta: isso é Capão!
(Tem aquela piada bobinha que talvez você conheça: Deus desenhou esmeradamente o litoral brasileiro, cheio de curvas e enseadas, até que se cansou quando chegou ao sul e traçou uma linha reta pra se livrar da tarefa)
É bem sério. O La Nación pediu que “se evitem as praias prediletas”. “Em pleno pico da temporada, o Estado de Santa Catarina – que abarca Florianópolis – atravessa um aumento nos quadros de diarreias agudas, o que inclui a gastroenterocolite.” (…) “A informação se torna chave para prevenir quadros que, mesmo que muitas vezes sejam leves, podem opacar suas férias e, em relação a grupos vulneráveis, pode resultar em complicações”.
Pois é, queridos amigos argentinos e uruguaios, levantem-se da privada e venham curtir a praia em Capão. Só na Sepé e na Paraguaçu tem dezenas de farmácias, sem contar o atendimento hospitalar de primeira. E, ah, vocês não sabem o que temos de memória e afeto não só sob as dunas preservadas, mas nas histórias que contamos sobre o Aymoré, o Baronda, o Boliche, o Minigolfe, o ainda firme e maravilhoso Maquiné. E tem a parte financeira, importante. Estamos aqui ao lado de vocês, com sotaque espanholado.
Por que isso é uma divertida ironia? Por que amo Capão e sempre torci o nariz pros amigos que abandonaram o berço onde fomos tão felizes – vocês não imaginam como éramos felizes. Lembro dos primeiros a vazar: os irmãos Cláudio e Flávio se bandearam pra Bombinhas. Foi uma bomba! Uma deserção incompreensível, que nunca assimilei. “Pô, Baratas!” Depois foi o Maurinho, o Gordo, o Celinho… “Ah, para”, eu dizia, “vão catar tatuíra”! Até hoje acho que foi uma onda (esses trocadilhos são involuntários, juro) de achar chique ir pra Santa e chinelagem ficar por aqui comendo puxa-puxa.
Até as gurias! A saudosa Clarice (que se foi deste mundo repentinamente há poucos meses e nos deixou numa tristeza absurda), a Lilian, a Flávia, a Lu.
Acho que tenho trauma com isso. Pelo menos o Rodolfo é fiel. Sempre foi! A gente se metia no quarto dele, no térreo do Aymoré, e ficava olhando o mar limpo e ecológico no oceano reto, perguntando com os olhos fixos no horizonte por que as gurias eram tão lindas e tão difíceis, pergunta que continuamos nos fazendo. E dê-lhe ouvir Kiss a todo volume na vitrola e consumir aquele conteúdo da lata (quando a gente não tinha “aquele” conteúdo da lata, perguntava “e aquele?!”, e o outro já entendia). Ali eu aprendi o que é rock’n roll de verdade. O Rodolfo ainda fica puto comigo quando ouço outro som, porque sou dado a pieguices, mas aí faço o seguinte (“O Seguinte” era a banda do querido Marcello, que amava a Soraia e fez uma linda balada pra ela): mostro que, sim, curto pra caramba a cafonice da Gilda cantando cumbia, mas em seguida saco a versão punk da mesma música feita pela irada banda Attaque 77, que amo com devoção, e o Rodolfo se acalma, vê que jamais o abandonaria e volta a reconhecer o amigo..
Perceberam, queridos argentinos? Falei na Gilda e na Attaque 77 (me refiro à linda canção “No me arrepiento de este amor”, nas versões de cumbia da Gilda e de punk do A77aque, ambas lindas, cada uma do seu jeito, o que também acho lindo, porque as diferenças nos enriquecem). Sou um de vocês! Digo isso de coração. Até morei aí um tempo, no fim do século passado. Venham! Venham! E o puxa-puxa que citei antes é de “dulce de leche o mani”. Venham!
Mas, enfim, a minha família só saiu do Aymoré, sem sair da Capão raiz, por causa do barulho no Centrinho (do qual fui resoluto frequentador e contribuía com a algazarra regada a vinho, cerveja, batida com cachaça e muito baura queimado), daqueles caras (como eu) chutando latinha de cerveja às 5h da matina porque a guria dos sonhos não deu mole. Como a gente chutava latinha! Era um festival de fossa misturada com algumas conquistas e muita amizade. E o meu pai, que saudades!, era dos nossos. Não chutava latinha, era muito bem casado e jamais consumiu o conteúdo da lata (nem entenderia a piada), mas nunca cedeu aos modismos, nem quando surgiram os condomínios chiques (ui!) longe da praia, lá na Estrada do Mar. A gente se olhava e perguntava: se é pra ter uma casa assim, melhor comprar um sítio em Viamão.
Venham, argentinos e uruguaios!
Voltem, deslumbrados de Santa!
E aqui vai uma nota que tem a sua graça: estávamos, lá por 2003 ou 2004, em Varadero, a deslubrante praia de Cuba com aquele mar azul caribenho, areias claras, coqueiros verdes, um paraíso tropical estonteante. E eis que o Pedrinho, lá com seus 2 aninhos de idade e a pureza de quem diz o que pensa sem filtros, soltou um incrível “que saudade de Capão”. É engraçado, mas traz algo sobre o insuperável aconchego do nosso lugar.
…
Mas comecei este texto falando que o assunto trazia ironia e metáfora.
A ironia está clara como este sol lindo que vejo aqui em Capão.
A metáfora? Buenas, pense na linha reta e na simplicidade.
Nada como o jogo da salada de frutas em que a fruta escolhida determinava o beijo (geralmente, uva era na boca, e por isso até hoje amo vinho, sagu e até grapa). Nada como chutar latinha com os amigos. Nada como se pintar de Kiss pra pular o Carnaval na SACC. Nada como fazer corrida de bicicletas. Nada como descobrir a vida com amigos maravilhosos e eternos. Nada como ouvir Peter Frampton, Clara Nunes e Benito di Paula no autofalante do Baronda. Nada como jogar totó e fliper no Boliche. Nada como descobrir a beleza da vida nas coisas mais simples, como a de comprar pão quentinho pra vó na padaria da Sepé, pegar o jornal com as notícias do futebol na Praiana. Nada como olhar os planetas de telescópio na beira da praia. Nada como o primeiro beijo. Nada como o cineminha projetado na parede do térreo, com todos sentados em suas cadeiras de praia. Nada como os Beatles, forever. Nada como lembrar de tudo isso.
E tudo isso está resguardado bem limpinho pelas linhas retas de Capão.
E aí entra a metáfora: precisamos de linha reta e retidão. Precisamos de mais papo reto e sincero e menos cinismos e contorcionismos retóricos. Seja em Capão ou no vasto mundão. Porque verdadeiramente humanista, Tolstoi (e não uns bobalhões metidos a intelectuais que andam por aí) já ensinava que falar sobre a aldeia é falar sobre o universo, e a metáfora é aberta como o mar de Capão e profunda como o horizonte que dali se descortina. Papo reto, sinceridade, olho no olho, simplicidade. Em meio a tanto cinismo, tanta maldade, tanto preconceito, tanta caretice, tanta falta de empatia, tanta comunicação virtual cheia de ruídos, olhe no olho. Veja e diga a verdade, respeite o outro, olhe o outro, sorva a doçura do puxa-puxa, deixando-o uns minutos na boca pra absorver todo seu sabor e não estragar os dentes.
O puxa-puxa, do leite calmante e do amendoim energético.
E, puxa, venham, argentinos e uruguaios, levantem de suas privadas em Floripa. E voltem, tolos desgarrados pelo canto das sereias catarinenses.
O tesouro está aqui. E é bem pertinho. E bem limpinho.
Uma vez escrevi este texto em Zero Hora:
O maior pior litoral do mundo. O melhor pior litoral. Já ouvi de tudo a respeito da costa gaúcha. Até piada: Deus se esmerou ao desenhar o Brasil, perfilando-o de norte a sul. Quando ia chegando ao final, cansou-se e fez logo uma reta… Outro dia, um querido colega catarinense, o Piangers, fez troça do nosso Litoral, num texto divertido. Muita gente caiu de pau, alguns seguindo a triste tendência atual de intransigência e agressividade. Pois bem. Vou tentar aqui mostrar o porquê de nosotros gaúchos, mesmo sabendo das limitações naturais abençoadas pelo traço divino, defendermos nossas praias. Tem, aí, um forte elemento emocional. Sendo assim, parto da aldeia para alcançar o mundo. Sabe o edifício Aymoré, um caixotão muito bem preservado que ocupa quadra inteira à beira-mar e que já abrigou a rodoviária e o clube de Capão? Foi lá que a civilização se insinuou na nossa orla. E aquilo, para mim, era sonho em vigília, nos anos 1970 e 80. Posso assegurar que eu e minha turma, cujos vínculos de amizade se perpetuaram, descobrimos algo como 80% dos mistérios da vida naquele lugar. Exemplo: no início dos amargos anos 70, vivi lá minha primeira experiência política. O síndico queria proibir as bicicletas no entorno do prédio. O que fizemos? Lobby, ora. Argumentamos com nossos pais, com os amigos deles, pedimos voto contra o “arbítrio” e nos imiscuímos entre os carros para espiar a reunião de condomínio, que ocorria na garagem. Ao final da “plenária”, vitoriosos, deixamos os esconderijos e saímos, por entre os adultos sentados e pasmos, pedalando ao redor da mesa e gritando “vivam as bicis!”. Era em Capão que eu comprava pãozinho pra a minha avó, na Sepé, dando os passos inaugurais de pequeno homem, e buscava o jornal ansioso por notícias do Grêmio. Foi lá o primeiro beijo, numa morena com gosto de hortelã. Tínhamos o pomposo Atlântico Sul Futebol Clube, rival do Destreinados Colors – o tempo me deixou mais simpático ao “Destreinados”. Houve as primeiras desilusões amorosas. Olhávamos Marte no telescópio comendo xixo. Pescávamos de tarrafa. Víamos cineminha projetado no pátio. Sacaneávamos. Fazíamos reuniões dançantes, o jogo da salada de frutas com as gurias – aqueles beijinhos eram o céu. Ganhávamos torneios de futebol no Farol. Depois, “bebemorávamos”. Os cabelos cresciam. Pintávamos o rosto com as máscaras da banda Kiss para pular o Carnaval sem perder a identidade. Descobri Sargent Peppers. E voei até aqui. Citei, acima, três vezes a palavra “beijo” – uma em inglês. Pois deixo beijos ao Pedrinho, ao Rodolfo, ao Cláudio, ao Flávio, ao Maurinho, ao Gordo, ao Paulinho, ao Caco, ao Felipe, ao Beto, à Clarice, à Lilian, à Flávia, à Luciana, à Cláudia, ao Marcello… E ponho o ponto final neste texto, sem jamais pô-lo nas melhores recordações da vida.
Shabat shalom!
PS: depois de tamanha declaração de amor, venho aqui com uma crítica e um pedido. A ciclovia de Capão é como celular. Assim como no celular até tem também o telefone, na ciclovia até também andam bicicletas. Por favor, prefeitura, adote alguma medida educativa, porque muita gente ainda não entendeu a proposta. E eu já andei me esfolando ao desviar de uma família bem faceira que atravessou a minha frente sem olhar o entorno, como se estivesse caminhando na beira do mar com bandeira amarela. Era atropelar as pessoas ou desviar e me esborrachar. Até moto entra na nossa ciclovia. A via é pra ser das bicis -em espanhol, é bicisenda.
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Foto: Tarsis Silveira / Divulgação

