Recorrendo à internet, encontram-se facilmente dados sobre o uso das redes sociais pelos mais de oito bilhões de terráqueos. No ranking mundial, o Brasil é apontado como o terceiro país que mais acessa e utiliza plataformas digitais como Instagram, Facebook e TikTok, entre outras. Nesse novo processo de colonização, internautas brasileiros gastam, em média, três horas e trinta e quatro minutos por dia navegando na rede, ficando atrás apenas do Quênia e da África do Sul (DATAREPORTAL, 2012).
Quem dera fosse esse um uso consciente e crítico, pautado na veracidade das informações e dos fatos, na busca por suas origens, teorias e fundamentos científicos. Ao contrário, o que se observa é o consumo e a replicação insensata de publicações e declarações pseudocientíficas, repetitivas e emocionalmente apelativas, capazes de provocar comoção e impactar diretamente o bem-estar e a saúde. A meu ver, o cenário retrata o vazio de uma sociedade adoecida e, por que não dizer, aparentemente destituída de sentido.
É certo que grande parte dos brasileiros não utiliza as redes sociais com vistas à formação pessoal ou à ampliação de conhecimentos, mas como falsa diversão – encarando-as, talvez, como espaços de lazer – o que tem contribuído para que futilidades e mentiras se consolidem como base da alienação de massa. Nesse aspecto, as redes sociais digitais mais parecem servir para “matar o tédio da vida cotidiana” ou para canalizar frustrações por meio da fuga da realidade.
No caos da vida moderna, surgem com frequência conteúdos explosivos que arregimentam milhões de comentaristas, analistas e críticos utópicos. No Brasil, todos se tornaram especialistas – e o pior: sem educação ou qualificação formal para tal. Nos tempos atuais, todos falam sobre tudo, constroem análises generalistas e superficiais, “sem lastro”, como diria Odete Roitman. Não afirmo que opinar seja errado. O erro consiste em tentar propagar e validar tais opiniões como verdades absolutas. Essa conduta inconsequente tem produzido postagens carregadas de convicções pessoais, desprovidas de aprofundamento ou propriedade sobre as temáticas abordadas. Nesse caminhar, todos se tornam também juízes: comentam, arbitram, absolvem ou condenam. Vivemos, assim, o mundo do imediatismo e do espetáculo, das percepções precipitadas e dos achismos que sentenciam e penalizam.
Exemplo disso é a sequência de imagens – ou vídeo curto – que passou a circular intensamente nas redes sociais. Um pinguim abandona o grupo e caminha sozinho em direção às congeladas montanhas. A cena do pequeno animal se afastando do trajeto coletivo, um movimento aparentemente simples, desencadeou fortes sensações e sentimentos em milhares de internautas, levando-os não apenas aos comentários, mas também a interpretações e análises carregadas unicamente de sentimentalismo e projeções emocionais. Espiritualistas se agitaram, esotéricos propuseram aprendizagens, profissionais da saúde forçaram correlações teóricas, e os “adoráveis” coaches aproveitaram o momento para propagar narrativas de cunho motivacional.
Ocorre que poucos se deram ao trabalho de pesquisar a origem das imagens, extraídas do documentário Encontros no Fim do Mundo, dirigido pelo cineasta alemão Werner Herzog e lançado em 2007. E pasme-se: quase vinte anos depois, as cenas voltam a circular na internet, agora ressignificadas como representação máxima de estados humanos de desorientação, alienação ou exaustão. Em questão de segundos, o pinguim foi transformado em símbolo de atitude heroica por supostamente romper com o comportamento de manada e seguir um caminho não convencional. “Resistência”, gritaram alguns. “Loucura” ou “distúrbio”, proclamaram outros tantos. Era como se o animal rompesse com os reguladores produzidos incessantemente pelas poderosas instituições que norteiam as ações humanas – Estado, religião, cultura, educação, saúde, família, entre tantas outras – e que, muitas vezes, conduzem à não reflexão crítica e à reprodução de crueldades travestidas de tradição.
O pinguim para, olha à frente, percebe o grupo se afastar e aparenta firmeza diante da incompreensão dos pares. Foi o suficiente para a identificação de milhares de brasileiros. E, mais uma vez, ressalto que tal processo catártico não é indigno ou ilegítimo. A questão central, contudo, é o que se faz depois (Heidegger, 2012). Ao que tudo indica, não é o pinguim que causa o incômodo coletivo, mas a ausência de reflexões originais sobre a própria existência (Kierkegaard, 2008). Em tempos de conflitos intensos, ameaças de guerras, divisões políticas, lutas por poder, reorganizações geopolíticas, desastres ambientais e consumo cotidiano da violência – em todas as suas formas e expressões – não é difícil compreender o impacto emocional dessas cenas.
Movido não apenas pelo vídeo, mas sobretudo pelo fenômeno social em análise, fiz uma breve consulta na internet – afinal, é para isso que tal ferramenta se destina – e constatei que a cena ganhou notoriedade pela própria condução narrativa do diretor, que não se limitou a descrever o comportamento do animal, mas promoveu reflexões de cunho filosófico sobre sua decisão. Mas estamos, de fato, falando em consciência animal? Qual é o respaldo científico para tal conjectura? Sem base empírica, criou-se a ideia de que o pequeno e desolado pinguim questionava o sentido de sua própria existência ou de sua vivência no mundo. Vai saber. O fato é que rapidamente a internet construiu a imagem “metafórica” do pinguim niilista. O animal passou a representar a angústia humana, simbolizando o instante em que alguém – este sim dotado de consciência, ainda que nem sempre plena – se opõe às normas socialmente estabelecidas para seguir um caminho próprio, ainda que desconhecido e perigoso. No entanto, o próprio documentário sugere que uma das explicações possíveis para o comportamento do animal seria um estado de desorientação (Herzog, 2007). Isso está registrado. Mas, evidentemente, tal explicação não seria suficientemente poética ou comovente para narrativas produzidas em busca de ibope – ou melhor, de likes e seguidores. Era preciso uma linguagem mais adequada à comoção coletiva. E, assim, nada mais oportuno do que interpretações existencialistas.
Embora eu não seja especialista na corrente filosófica niilista, sabe-se que essa perspectiva defende a ausência de sentido, propósito ou valor intrínseco na existência, na moral e no conhecimento. Nietzsche (2008; 2009) descreveu o niilismo – do latim nihil, “nada” – como o processo pelo qual os valores e crenças mais elevados se desvalorizam, abrindo espaço para a chamada “morte de Deus”, metáfora da perda da autoridade da religião e da metafísica na cultura ocidental (Heidegger, 2014; Sartre, 2015).
Diante disso, é pertinente refletir sobre como e por que a metáfora do “pinguim niilista” – que caminha para o fim de sua existência – tornou-se tão potente no contexto brasileiro. Não seria pelo fato de nossa população ter sido historicamente treinada a suportar o insuportável? Não seria porque somos condicionados a nos adaptar ao precário, a resistir ao sofrimento em nome da moral? Não seria porque, desde a infância, seja pela educação formal ou doméstica, somos desestimulados à reflexão crítica, à curiosidade e à desobediência saudável?
Em uma leitura mais atenta, não poderíamos compreender essa metáfora como a revelação de que o sofrimento social não é acidental, mas estrutural – e que sua manutenção depende da naturalização do desajuste? Sob essa ótica, o pinguim não representaria o sujeito comum inserido em sistemas econômicos, políticos e culturais que não foram concebidos para seu bem-estar, mas que exigem dele adaptação constante? Talvez seja essa percepção tardia que tanto nos tenha tocado. Em termos simples, a força da metáfora reside em sua clareza: o pinguim não é inadequado em si; ele é inadequado ao ambiente. Ainda assim, esperamos que ele suporte o sofrimento, a escassez e o desgaste, sem jamais questionar o contexto. Esperamos que ele retorne ao grupo e siga a jornada em manada. Não é isso que aprendemos a fazer?
Ao pensarmos nos fatores brasileiros que conduzem à exaustão – ou mesmo à morte física, emocional e social -, é impossível ignorar a desigualdade profunda, a promessa permanente de ascensão e a responsabilização individual pelo fracasso como lógica do desajuste normalizado. Ainda assim, insiste-se no mantra: é preciso seguir em frente. Mas seguir para onde? Seguir por quê? Quem define esse percurso coletivo?
Sob uma perspectiva niilista, não seria o próprio capitalismo que propõe um “seguir em frente” pautado no trabalho incessante, na produtividade, no falso mérito e na exaustão? Nesse cenário, o pinguim niilista seria o trabalhador celebrado por suportar longas jornadas, baixos salários e instabilidade constante. Afinal, no modelo capitalista, a precariedade é sempre narrada – por quem detém o poder – como fase, nunca como estrutura. O que se vivencia no Brasil é, portanto, uma pedagogia da resistência voluntária, do “ser forte”, que, na prática, significa manter-se produtivo. Aprende-se que suportar condições indignas, violações de direitos e sofrimento é virtude. Afinal, “o trabalho dignifica o homem”, independentemente de sua insalubridade. Não é essa a mesma lógica do “é preciso sofrer para herdar o paraíso”?
Talvez a metáfora do pinguim niilista tenha impactado tanto por revelar o quanto a exaustão foi normalizada em nossa cultura e por expor a violência simbólica que transformou o sofrimento em identidade. Um de seus efeitos mais profundos se dá no plano subjetivo: o problema deixa de ser estrutural e passa a ser vivido como falha pessoal. Como apontam teóricos e especialistas, o triunfo do niilismo não é econômico, mas emocional. O sujeito sente culpa por estar cansado, vergonha por não prosperar e medo de parecer fraco ao questionar o sistema.
Nas redes sociais, esses impactos se intensificam. “Pinguins internautas”, carregados de vazio, passam a se comparar: quem suporta mais pressão, quem produz mais, quem se mostra mais resiliente diante da precariedade? Esse se torna o novo critério de sucesso, fragmentando a experiência coletiva do sofrimento e impedindo seu reconhecimento como estrutural.
Por que, então, não pensarmos em um pinguim – ainda que internauta – consciente? Reconhecer que, muitas vezes, o problema não está na incapacidade individual, mas no ambiente, não gera ação coletiva imediata, mas rompe o isolamento moral. No Brasil, essa consciência emerge nos movimentos sociais por direitos básicos, nas críticas à meritocracia abstrata e nas tentativas de reconstrução do sentido coletivo.
Em síntese, a metáfora do pinguim niilista impacta por oferecer linguagem a algo amplamente vivido, mas raramente nomeado: a sensação de adaptação constante a um mundo que exige demais e devolve pouco. O niilismo expõe como o sofrimento é individualizado, a exaustão normalizada e a esperança continuamente adiada. Ainda assim, a metáfora abre uma fresta crítica: se o pinguim já não suporta o ambiente que o oprime, talvez seja esse ambiente que deva ser questionado.
O maior mérito do niilismo não está em prometer saídas fáceis, mas em deslocar a pergunta fundamental. Ou seja, não se trata mais de saber como os pinguins internautas devem mudar seu comportamento, mas de questionar por que insistem em se manter e se adequar a habitats tão tóxicos, perversos e reguladores de nossas subjetividades e desejos.
E, no Brasil, essa pergunta permanece perigosamente insistente e latejante. Não é mesmo?
Referências:
DATAREPORTAL. Digital 2024: Brazil. Londres: Kepios, 2024.
HERZOG, Werner (Dir.). Encontros no Fim do Mundo (Encounters at the End of the World). Documentário. Estados Unidos/Alemanha: Discovery Films, 2007.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Fausto Castilho. Campinas: Editora da UNICAMP; Petrópolis: Vozes, 2012.
HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014. 2 v.
KIERKEGAARD, Søren. O desespero humano. Tradução de Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Martin Claret, 2008.
NIETZSCHE, Friedrich. A vontade de poder. Tradução de Marcos Sinésio Pereira Fernandes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. Petrópolis: Vozes, 2015.
Epitacio Nunes de Souza Neto é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. Possui doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Psicologia pela Universidad del Salvador (USAL) de Buenos Aires, Argentina. Possui também mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
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