
Quando Alan e eu nos conhecemos, logo descobrimos várias coisas em comum. Entre elas, um amor absoluto pela série de TV dos anos 60, Star Trek. Foram centenas de horas assistindo e reassistindo a todos os episódios.
Pouco depois surgiu um interesse ainda mais incomum: colecionar absolutamente todo o material impresso que já tivesse sido publicado sobre a série.
Isso era 2004, uma época em que a internet ainda não fazia parte da nossa vida como faz hoje. Nossa incrível missão, portanto, se limitava aos sebos de Porto Alegre. Felizmente, encontramos uma variedade enorme de coisas e fomos comprando tudo aos poucos, um item de cada vez.
Acontece que dois jovens pobres e sem trabalho não têm exatamente um grande poder de compra e, mesmo um punhado de livros usados, para nós, naquela época, já era muita coisa. Até que descobrimos para que os sebos realmente serviam: trocas.
Primeiro, pegamos todos os livros sem uso que tínhamos em casa. Depois, começamos a recorrer aos pais, tios e outros parentes. Com isso, conseguimos dar um salto considerável na nossa coleção. Foi nessa época que o conhecemos: Peter.
Peter era o dono das quatro lojas do Beco dos Livros de Porto Alegre e tinha um conhecimento absurdo sobre absolutamente todos os livros que levávamos até ele. Dois jovenzinhos simpáticos conseguiam, muitas vezes, supervalorizar seus livros diante de alguns vendedores. Mas nunca diante de Peter. Peter sempre nos pegava no pulo e frustrava nossos planos com um sonoro:
— Não.
Com o tempo, nossas idas aos sebos viraram uma espécie de caça ao Peter ao contrário.
Como eram quatro lojas, todas dele, se entrávamos em uma e Peter estava lá, simplesmente seguíamos para outra. Nosso objetivo não era encontrar Peter.
Era descobrir onde Peter não estava.
Quando chegávamos a uma das lojas e ele não estava, começávamos a negociação o mais rápido possível. Separávamos os livros, fazíamos as contas e tentávamos fechar a troca antes que ele surgisse.
Às vezes dava certo. Às vezes, não.
Em algumas ocasiões, Peter aparecia no meio da negociação. Bastava Peter olhar para os livros e para o que estávamos tentando fazer.
— Não.
E lá se ia nosso grande negócio.
Depois, dentro do ônibus, passávamos boa parte do caminho para casa comentando a operação: em qual loja Peter estava, de qual tínhamos fugido, quanto havíamos conseguido pelos livros e, principalmente, comemorando quando conseguíamos vencer o jogo e sair de lá com uma boa troca.
O tempo passou.
Os dois jovenzinhos colecionadores de Star Trek já não tinham tardes inteiras para gastar batendo perna pelo centro de Porto Alegre. Algumas vezes voltamos aos sebos nos fins de semana. Em algumas dessas visitas, encontramos Peter.
Ele não nos reconheceu, mas também nunca imaginamos que reconheceria.
Essa semana, levamos nossa filha ao centro pela primeira vez.
Mais de vinte e dois anos depois, ela caminhava entre nós, segurando nossas mãos com entusiasmo, enquanto contávamos a história daquele senhor que conhecia todos os livros do mundo só de olhar para eles.
Até que chegamos ao Beco dos Livros.
E encontramos uma placa na porta.
Peter havia morrido.
Nossa filha não entendeu nossas caras.
Acho que nem nós mesmos entendemos.
Peter não era nosso parente. Não era nosso amigo. Ele nem sequer sabia nossos nomes.
Talvez nunca tenha feito ideia de quantas tardes passamos falando sobre ele dentro do ônibus. Nunca soube o quanto comemorávamos quando conseguíamos vencer aquele pequeno jogo. Nunca soube que suas aparições inesperadas em uma das lojas nos renderiam tantas histórias e tantas risadas.
Nunca soube que, mais de vinte anos depois, estaríamos falando sobre ele para nossa filha.
E nós nunca dissemos.
Peter estava lá. Sempre esteve. Até que não estava mais.
Aquela placa marcou o fim de uma era. Uma parte da nossa juventude tinha ido embora junto com Peter e, numa rápida troca de olhares, nós dois soubemos disso.
Tirei algumas fotos da fachada e seguimos caminhando em silêncio — mesmo com uma pequena segurando nossas mãos e falando sem parar.
Até que ela perguntou:
— Para onde estamos indo? Por que a loja de livros não estava aberta?
Nós nos olhamos, sem saber muito bem o que responder.
Então eu disse:
— Porque o tempo passa, meu amor.
No mesmo instante percebi que aquela resposta tinha sido filosófica demais para uma menina de três anos e já me preparava para tentar explicar de um jeito melhor.
Mas ela não estava mais prestando atenção em mim.
Estava completamente encantada com uma pomba que tentava levantar voo.
Sheisa Amaral é escritora, roteirista e doutora em Diversidade Cultural e Inclusão Social, com livros e trabalhos publicados no Brasil e no exterior.