
A vida real nos dá inesgotáveis assuntos que merecem se tornar livro, filme ou uma modesta coluna de jornalista curioso na plataforma SLER. Lembro quando anos atrás localizei o neto do León Trotsky na Cidade do México, o mesmíssimo menino que era como filho do revolucionário judeu e socialista no exílio e, ao chegar da escola num abafado 20 de agosto de 1940, viu o corpo do avô estendido no chão (morreria no dia seguinte) com uma picareta enfiada na nuca. A entrevista rendeu duas páginas em Zero Hora e repercutiu tanto que o PSTU (partido de linha trotskista) mandou carta elogiando o jornal, mesmo o vendo como representante da “mídia burguesa”. Provavelmente tenha sido caso único em toda a história dessa agremiação, que deixou o PT porque a sua tendência, a Convergência Socialista, bateu de frente com aquilo que via como excesso de moderação petista e com a sua adesão ao jogo político democrático. Na verdade, foi expulsa do PT.
Agora, a família de Lev Davidovich Bronstein (“León Trotsky”) nos dá material para outro texto a partir de conteúdo que me parece muito curioso. Um bisneto do socialista que queria revolucionar o mundo sem se limitar às fronteiras soviéticas é ferrenho nacionalista judeu instalado numa colônia da Cisjordânia. Um sionista de extrema direita dentro da pluralidade desse movimento de autodeterminação do povo judeu, que vai da direita à esquerda e é ardilosamente simplificado por quem não admite o lar judaico em nenhuma hipótese. Trotsky, internacionalista, era ateu; o neto, nacionalista ao extremo, é religioso ortodoxo.
Bisavô e bisneto são, de forma muito extrema, o oposto um do outro.
O nome do bisneto ortodoxo que vive em uma colônia vista por grande parte da comunidade internacional como terra ocupada da futura Palestina, caso se consiga o tão almejado estabelecimento de dois Estados — o judeu e o árabe —, é David Axelrod. David é filho de Yulia Akselrod, que vem a ser filha de Sergei Sedov (o filho mais novo de Trotsky). David nasceu na então União Soviética em 1961 e, de acordo com a revista The Forward, não sabia que era bisneto do revolucionário nem que era judeu até os seus 15 anos. Tudo, claro, por questões de segurança. Sempre é bom lembrar que Trotsky foi assassinado no México a mando do inimigo Stalin, e seus descendentes foram perseguidos.
David é muito linha-dura. Opõe-se à democracia israelense. Quer um Estado judeu teocrático e uma Israel bíblica no espaço físico e também na orientação jurídica coincidente com a Torá de forma literal e radical. Dois dos seus filhos levam os nomes de ícones do extremismo judaico: os polêmicos Meir Kahane e Baruch Goldstein. O próprio David, que se instalou inicialmente no assentamento de Kiryat Arba e depois esteve em outros, sempre na Cisjordânia, já foi preso três vezes em cárceres israelenses devido a suas atividades extremistas. Já teria inclusive agredido palestinos, conforme a imprensa israelense.
O mais insólito nas diferenças ideológicas entre Trotsky e seu bisneto David é isso de elas se distanciarem da forma extrema mais intensa possível. Perceba: os inimigos Trotsky e Stalin divergiam especialmente pela visão de como desenvolver e expandir o socialismo depois da morte de Lenin em 1924. Stalin defendia um nacionalismo ferrenho e triunfou numa URSS que, enfim, tornou-se, por isso, “stalinista”. A divergência era entre a revolução permanente, sendo exportada a outras nações, defendida por Trotsky, e o socialismo nacionalista, num país fechado. Trotsky queria se abrir ao mundo e era contra a concentração do poder; Stalin queria uma URSS voltada para si mesma e com seus recursos, que julgava suficientes, num regime de partido único ultra-centralizado. Com alguma liberdade interpretativa e certa mordacidade, dá pra se dizer que David estaria mais próximo de Stalin do que do seu bisavô por ele assassinado.
Mas talvez ainda a maior de todas as ironias seja a de que, caso a URSS não fosse tomada de uma intolerância visceral ao pensamento diverso e não perseguisse tão implacavelmente os judeus no direito a exercer seus hábitos e professar sua fé, talvez o menino David tivesse ficado em paz com a sua mãe na Moscou onde nasceu, sem ter o pesadelo permanente de uma picareta a fustigá-los. E essa história é uma entre as inumeráveis que mostram como a autodeterminação do povo judeu no seu lar ancestral é a única e incontornável solução para o povo mais excluído, perseguido e violentamente segregado da história da humanidade. Jamais julguem. Só entendam. Israel não existe como decorrência do Holocausto, da Inquisição, dos pogroms e demais violências; existe APESAR de tudo isso.
Shabat shalom!
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