
Estamos enfiados na lama. É um país sujo, onde os urubus conseguem casas e nós não temos asas. Mas persisto aqui em meu lugar.
Onde os urubus têm asas, sigo colorindo e segurando a parede do meu quintal, que dá pra torrente de lama que vem do mangue. Mundo mangue, cidade mangue: Manguetown.
Andando por entre os becos, andando em coletivos, ninguém foge ao cheiro sujo da lama da Manguetown. Becos velhos, becos seculares: Bairro de São José, Caminito, Alfama, Paraisópolis, Beiru, Rocinha. De metrô, bondinho, minhocão ou ônibus elétrico, não se foge da vida sujada pelos tempos da Manguetown.
Porém, à noite eu sairei, vou me embriagar com meus amigos e, com as asas que recebi dos urubus debaixo da luz do sol, escaparemos por cima de toda exclusão. Sonho que outros e outras se juntarão a nós, que encontraremos um amor que também vai encarar a lama que dá no quintal. E, conversando com urubus, pegaremos caranguejo e cataremos do lixo.
Manguetown.
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Domingo passado, em Olinda, a edição do festival MIMO apresentou o espetáculo Nação Zumbi Sinfônico – Afrociberdelia 30 Anos, reverenciando as três décadas do álbum que, além de Manguetown, traz a interpretação de Chico Science para o clássico Maracatu Atômico, composta por Jorge Mautner e Nelson Jacobina, interpretada por Gilberto Gil. Que, no Abril Pro Rock de 1996, em Recife, subia ao palco com Chico em show memorável.
“Andando por entre os becos
Andando em coletivos
Ninguém foge ao cheiro sujo
Da lama da Manguetown
Andando por entre os becos
Andando em coletivos
Ninguém foge à vida suja dos dias da Manguetown”.
Dengue e Lúcio Maia.