
Na Física, a lei da inércia, ou Primeira Lei de Newton, como aprendemos na escola, é a tendência de um corpo permanecer como está, seja em repouso ou em movimento. Se fizermos uma relação com a massa, ou seja, o peso desse corpo, quanto maior ela for, maior será a sua inércia. Cruel, né? Vai bem além daquela história de ficar atirada no sofá, entorpecendo a mente num streaming no final de semana.
Minha vida sempre foi puro suco de “pão e circo”. Tu lembras, lá das aulas de História da Roma Antiga e tal.
Trabalhar, estudar, empreender, cuidar do filho, pagar as contas e comer um churras com um pagodinho no domingo, com a família em volta da mesa, feliz e contente. Assim como tanta gente preta e periférica que se espreme no ônibus lotado, faz conta no mercado e chega em casa torcendo para o dinheiro durar até o fim do mês. Acreditando piamente na meritocracia (#EmojiCarinhacomOlhosArregalados). Só que não!
E a política? Ah, a política para mim era “não gosto”, “tudo ladrão”, “bem capaz que vou me meter com isso”. Agi assim até que minha griô, Maria Cristina Ferreira dos Santos, me sacudiu — metaforicamente, porque griô também sabe dar “canelada” sem nem encostar na gente — e disse em alto e bom som: “Onilia: TUDO É POLÍTICA.”
Que força! Ou melhor, que soco na boca do estômago para quebrar a minha inércia.
E eu pensando que estava vivendo bem, me sentindo uma gatona porque tinha “tudo”, hahaha. Como se existir em um corpo preto na nossa sociedade não fosse, também, uma questão política. Comendo sem pensar quem, como ou por que essa comida chega à minha boca: com esse preço, esses impostos, esse mix específico de arroz e feijão.
Como sou exagerada e dramática, depois desse “despertar”, decidi: “Vou ser prefeita da minha cidade!” Hahahaha. #Exagerada&DramáticaGrauMil
Mas como é que a gente “vira” política assim, do nada?
Como sou #vidaloka mesmo, pensei: preciso começar votando direito e vivenciando a política com profundidade. E foi assim que nasceu o Café Preto com Política, no pleito municipal de 2024, para conhecer as candidaturas negras à vereança de Viamão (RS), cidade onde nasci, com 31% da população negra (somados pretos e pardos, conforme o Censo 2022, do IBGE).
A iniciativa não era um evento. Era um desconforto em movimento. Eu não queria mais jogar por jogar o meu voto na urna. Queria ver, ouvir, sentir de perto as candidaturas negras. Saber quem eram, onde viviam, do que se alimentavam… — tá, essa última parte é brincadeira. #sqn
Precisava conhecer suas histórias, ideias e compromissos. Comecei gravando podcasts, promovendo conversas diretas e encontros. Logo entendi que não queria só ouvir o que as candidaturas tinham a dizer: queria saber com o que estavam dispostas a se comprometer se eleitas, ocupando espaços de poder e decisão, onde ainda poucas pessoas negras estão.
Nesse caminho, cheio de perguntas e com uma baita sede de respostas, o Café Preto cresceu — e eu também. O que começou como uma vontade de conhecer as candidaturas negras virou um espaço de trocas e reconhecimentos, porque, antes de decidir quem vai ocupar a cadeira no Executivo ou Legislativo, a gente precisa se aproximar de quem quer sentar nela.
Naquele ano, foram cinco podcasts e cinco encontros com candidaturas, em Viamão. Já em Porto Alegre, onde eu moro e mantenho meus negócios, realizamos dois grandes encontros com cinco candidaturas femininas e cinco masculinas.
Agora, em 2026, gravamos sete episódios de podcast com candidaturas para a Assembleia Legislativa e para a Câmara Federal. E, no último sábado, 26 de setembro, colocamos tudo isso na mesma mesa, num evento acompanhado de café, música, comida, conversa aberta e uma potência que não cabe em métricas. #Axé!
Foi um aquilombamento, uma catarse preta coletiva! Foi olhar em volta e pensar: “Guria, olha quanta gente preta fazendo acontecer!” O Café Preto já vinha se consolidando, mas, nesse encontro, a gente se reconheceu e fortaleceu os laços. Isso é Política!
Posso até ter começado esse movimento querendo ser prefeita, mas o que me move não é uma cadeira. É o propósito.
Como diria Arquimedes: “Me dê uma alavanca e um ponto de apoio que eu movo o mundo”. Pois bem, a minha alavanca é o propósito. E o meu ponto de apoio chama-se Quilombo.
Agradecimentos especiais às parcerias que fizeram acontecer a nova edição do Café Preto: Frente Negra Gaúcha, Odabá – Associação de Afroempreendedorismo, Instituto Caminho e à Área 51. #EuNãoAndoSó
Bora tomar um Café Preto?
Entra no link, ouve os episódios do podcast, entende a força desse movimento e define o teu voto.
Segue: @cafepretocdi.
#VoteEmPreto.
Agô.
Onília Araújo é contadora, empreendedora social e fundadora da ESFERA Afrocentricidades e da ICON Contábil. Escreve sob a assinatura Femina Economicus, um projeto de pensamento que traduz a economia para a linguagem da vida, explorando as relações entre dinheiro, cuidado, trabalho, amor, raça, gênero e prosperidade. Instagram: @oniliaaraujo