
Meus caros,
É feliz quem tem parentes para chamar de seus. Sou feliz. Tenho parentes. O filho único de mãe solteira, deixada de lado pelo pai militar, conseguiu construir sua família e reunir parentes nessa trajetória. De minha parte, a família de minha tia me deu uma infância feliz, numa casa da Vila Jardim cheia de gente. Da parte de minha esposa, casa do Jardim Botânico, onde vivia com dois irmãos, aos quais, ao longo de trinta anos, se acrescentaram filhos e netos. Do pai com quem não convivi na infância, conheci um irmão recentemente, outra longa história. Depois do vizinho, para quem, na semana passada, escrevi uma carta, agora dedico algumas linhas a meus parentes.
Todos vocês sabem minha opção política pela esquerda. Nossas conversas sobre política aconteceram entre um churrasco e outro nessas três décadas, em que conversávamos e em que cada um expunha suas convicções. Entre nós há aqueles que já foram de esquerda e a abandonaram, como minha cunhada; há os que já valorizaram o que o PT fez pelo transporte coletivo da cidade, mas depois se desencantaram, como meu cunhado; há aqueles que nunca valorizaram a esquerda, como meu sobrinho, meu irmão ou minha prima espírita. Há, contudo, aqueles que, como eu e minha esposa, ainda veem na esquerda como a última esperança, como minha sogra, minha sobrinha e algumas das minhas primas.
Conversar sobre política com a família
Tivemos, ao longo desses trinta anos, algumas conversas sobre política, mas eu mesmo jamais cheguei a disparar qualquer post nas suas redes sociais. Hoje é uma segunda-feira, e estamos a sete dias para o segundo turno, e a semana passada foi a primeira em três décadas em que disparei para vocês posts nas redes sociais sobre política. Eu nunca fiz isso. É eu que tomei esta iniciativa e o que faço agora é sentar-me na frente do computador para escrever à parte da família que odeia Lula os meus motivos. E cada um deles tem a ver com a minha trajetória e a de vocês. É difícil, eu sei. Sei como essas conversas acabam. Lembro que, quando alguém dizia “Lula” ou “Bolsonaro” à mesa, conversávamos um pouco, mas, para não deixar o churrasco esfriar, fazíamos considerações breves e cada um voltava para sua casa com suas posições.
Na era das redes sociais, eu escolho escrever uma carta para vocês. Na era da emergência das bolhas, eu proponho expor o meu olhar. É melhor para todo mundo: numa carta ninguém me interrompe e eu consigo expor de forma organizada o que penso, o que, num churrasco, como o que ilustra este ensaio, entre cuidar da carne, atender as crianças no sofá com o celular e me preocupar com a nossa Border Collie Lola — ainda perneta depois de duas cirurgias, ali de costas para nós, vidrada na TV onde está escrito “ELEIÇÃO – SEGUNDO TURNO” — nem sempre é possível. É a imagem que guardei do nosso último encontro: cada um num canto, mas todos olhando, à sua maneira, para a mesma tela. E vocês não precisam ler se não quiserem ou podem ler no seu tempo. Talvez fiquem bravos e eu peça desculpa por isso; talvez fiquem em paz ou simplesmente desconsiderem, se quiserem. Mas eu precisava fazer isso.
É difícil encontrar o tom certo. Se com o vizinho eu precisava ser muito cuidadoso com as palavras, o mesmo acontece com vocês, é claro. Mas há uma diferença: como somos família, eu posso ser franco: vocês sabem que eu quero convencê-los a votar em Lula. Só isso já seria motivo para vocês pararem a leitura por aqui. Seria hipocrisia aqui dizer, como disse ao meu vizinho, que só estou “refletindo”. Eu estava, sim, mas também tinha o interesse oculto de que aquelas reflexões despertassem nele a possibilidade de reavaliar seu voto e votar em Lula. Nem sei se leu. Tanto lá como aqui eu prometo usar só argumentos e partir da única coisa de que posso dar testemunho: a minha vida. Essa vocês a conhecem, mas nunca cansa repetir. Se eu errar algum fato de vocês, me corrijam, que é assim que se conversa.
Tanto lá como aqui não posso prometer mais do que eu mesmo vejo: se com Lula será ruim – um Congresso totalmente hostil a suas iniciativas –, entendo que com Flávio será muito pior: a própria democracia está em risco. Eu vivi uma ditadura na infância; não gostaria de viver outra na velhice. A natureza desse Congresso importa, e eu a vi, como vocês, aqui no Rio Grande do Sul. Vocês viram a votação do senador Mourão sobre o fim da escala 6×1? Foi o único voto gaúcho contra a melhoria da vida dos trabalhadores. Tinha alternativa, o Olívio Dutra, com quem eu cheguei a conversar com vocês. Mas os gaúchos colocaram lá o Mourão e hoje colhemos seus efeitos. É da natureza da extrema-direita: ela luta para beneficiar os mais ricos, não os pobres como nós. Contarei uma fábula que inventei sobre isso para vocês ao final. E o pior ficaria para o Judiciário: com Flávio indicando juristas a ele alinhados, terminaria de uma vez por todas o sistema de freios e contrapesos, quando um poder limita o outro. Isso também é democracia. É o fim deste sistema que abre caminho para a ditadura.
Mas não estamos em Brasília, estamos em Porto Alegre e somos famílias como outras quaisquer. Vocês sabem que minha mãe estudou pouco e vendia livros e produtos de beleza de porta em porta. Se ela não vendesse, não entrava dinheiro; se adoecesse, parava. Sinto sua falta todos os dias. Meu pai foi uma ausência. Aprendi cedo, sem saber explicar, que o ponto de partida pesa. O que me tirou de onde tudo indicava que eu seria mais um pobre brasileiro foi uma biblioteca pública, uma escola pública, uma universidade pública e, depois, décadas de serviço público. Me esforcei, claro, como vocês. Mas nenhum esforço teria bastado sem essas portas. E, quando a gente se esforça, dependendo do lugar em que estamos, os resultados são diferentes. Não conto isso para me gabar. Conto porque vejo pedaços da minha história em cada um de vocês: gente que trabalhou muito, que enfrentou perdas, que desconfia da política e que, por razões que respeito, quer votar em Flávio Bolsonaro porque não suporta o Lula. Escrevi pensando em cada um de vocês.
Minha cunhada
Penso em você, minha cunhada. Você e eu temos em comum uma coisa que quase nunca mencionamos: a escola pública. Você, como seus irmãos, em escolas do Bairro Jardim Botânico; eu, em escolas do Bairro Centro e Rio Branco. E outra mais séria: passamos quase toda a vida dentro de instituições públicas, eu numa Câmara Municipal, você num hospital público. Meu trabalho era mais “fácil”, se podemos dizer: fazia exposições, escrevia e organizava ações educativas; você fazia, como minha esposa, o trabalho mais “difícil”; você segurava a mão de gente na pior hora da vida em seu hospital e minha esposa, sua irmã, acudia a população de rua pobre e sem recursos em um abrigo municipal. Vocês viveram diretamente em contato com a desigualdade. De nós três, vocês duas fizeram na vida o trabalho mais penoso.
Penoso a ponto de você, minha cunhada, sonhar nos últimos anos com a aposentadoria. Você se lembra que, quando ela se aproximava, a reforma da previdência de 2019, do governo Jair Bolsonaro, acabou com a aposentadoria só por tempo de contribuição e exigiu de você idade mínima, empurrando seu merecido descanso para mais longe. A aposentadoria é um direito há muito conquistado; basta olhar para sua mãe, que o mereceu depois de tantos anos de trabalho. Eu a recebi com 37 anos de trabalho. Se para mim foi um tempo e tanto, você sabe melhor do que eu o que foram esses anos a mais de plantão para você, de dor de coluna, de pé inchado. Fico feliz, de verdade, que a sua aposentadoria tenha saído.
Quero lembrar a pandemia, mas não para trazer à tona uma memória difícil, mas porque você viveu por dentro o que eu só vi de fora, privilegiado pelo trabalho remoto. Enquanto você estava no hospital, na frente de batalha, como sua irmã, minha esposa estava no abrigo municipal; eu fazia meu trabalho à distância, como muitos privilegiados. Eu era o chamado “trabalhador não essencial”. De fato, o trabalho de vocês duas é que era essencial: vocês viram o hospital lotado, o medo de levar o vírus para casa, a falta de insumos. O relatório da CPI da Covid, no Senado, tentou reconstruir depois o que você enxergou na hora de uma posição muito próxima que não posso imaginar e sustentou que a Pfizer fez ofertas insistentes de vacina que o governo Bolsonaro não respondeu. Você sabe o quanto elas foram importantes. Sei que há quem diga que a CPI foi eleitoral. Então não fique com o relatório. Fique com o que você viu e sentiu.
Não estou dizendo que Flávio repetiria isso. Estou perguntando o que ele fará com o serviço público de saúde que você ajudou a segurar. Seu plano traz ideias que merecem exame: digitalização, prevenção e redução de filas, e a correção da tabela do SUS, que ajudaria hospitais filantrópicos e Santas Casas. Ele também prometeu levar ao SUS um atendimento “padrão Einstein” e chamar um diretor desse hospital para o Ministério da Saúde. Só que há uma contradição em suas propostas: ao mesmo tempo em que ele promete mil maravilhas, ele também promete um ajuste fiscal, e sabemos que isso significa cortes na saúde e educação. O Conselho Nacional de Saúde estima que foram entre 60 e 64 bilhões de reais da saúde cortados pelo governo Jair Bolsonaro, que só foram recompostos com a transição de governos. Observe o problema: Flávio Bolsonaro não apresentou os valores, as fontes de recursos nem cronograma de execução para suas promessas; ao contrário, prometeu um tesouraço. Tudo isso são recursos que deixam de ir para a saúde. Não há como cortar recursos sem fazer vítimas. Você tem certeza de que ele cumprirá suas promessas?
Aqui está o que me preocupa especialmente quanto à sua aposentadoria. A Folha de São Paulo revelou que a equipe econômica dele estuda desvincular reajustes de aposentadorias do ganho real do salário-mínimo e acabar com os pisos constitucionais de saúde e educação. Por um lado, temos as falas de Flávio em projetos de interesse geral, fazendo mil e uma promessas, e, por outro, temos as notícias de bastidores da sua equipe econômica e a experiência de seu pai no governo. Ele chama essas notícias de fake news e garantiu que manterá os reajustes das aposentadorias acima da inflação. Eu quero acreditar. Mas o coordenador da campanha, Rogério Marinho, defende a revisão das reformas trabalhista e da Previdência, e diz que as mudanças principais iriam ao Congresso já na transição, se ele vencesse. Essa informação não preocupa você? A mim preocupa.
Você sabe que o piso de 15% da receita para a saúde é o que impede que o dinheiro do SUS seja a primeira coisa cortada quando o governo diz que vai apertar o cinto. Você conhece o episódio do piso da enfermagem? A Confederação Nacional de Saúde, Hospitais e Estabelecimentos e Serviços (CNSaúde) entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 7222) e obteve uma liminar do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele suspendeu temporariamente a aplicação do piso salarial da enfermagem em setembro de 2022. Por quê? Porque Jair Bolsonaro concedeu o aumento sem uma fonte de recursos, e as entidades apontaram riscos de demissões em massa e o fechamento de leitos em hospitais públicos, Santas Casas e redes privadas. Reconheço o mérito de ter sancionado, mas isso é a prova de que promessas sem previsão de recursos são promessas da boca para fora.
Você sabe do acidente que vitimou Lola, a Border Collie minha e de minha esposa. Você gosta muito dela e ela de você. Nas últimas semanas, você sabe que troquei o curativo da pata dela, depois de duas cirurgias. Você a conhece e sabe quanto ela é uma paciente especial. Com ela aprendi que ferida só fecha com tempo e cuidado, e que ninguém acelera cicatrização economizando gaze. Com saúde pública é a mesma coisa. O cuidado precisa de investimentos, qualificação, dedicação, conhecimento que você levou uma vida inteira para aprender. Você cuidou de tantas pessoas ao longo de sua vida profissional, cuidou de tanta gente, sabe de como esse trabalho é importante na sociedade que não preciso explicar mais.
Por isso, peço uma coisa só: antes de votar, pense em qual canto do SUS um corte de recursos de Flávio Bolsonaro vai doer, e quem estará de plantão naquele dia quando isso doer. Para você, que acaba de se aposentar, com todo o direito que todos esses anos de trabalho outorgaram, o risco está na possibilidade de alteração da regra de correção do seu benefício. Para as enfermeiras que entram hoje no seu lugar, ou as colegas que você deixou lá quando se aposentou, o problema está no dinheiro que sustentará o hospital em que você trabalhou e de que tantos precisam. Se Flávio quer padrão Einstein no SUS, ótimo. Mas eu prefiro ver primeiro o piso de 15% da saúde garantido em lei. A promessa de tesouraço é uma ameaça real.
Meu cunhado
Eu tenho na parede de meu apartamento, em destaque, uma foto que gosto muito de meu casamento com sua irmã. Ali está você, meu cunhado, no seu papel, fiscalizando que eu assinasse corretamente os termos do casamento. Na sua mão, uma cerveja denuncia que você também gosta das alegrias da vida. Você passou mais de vinte anos de sua vida como cobrador numa grande empresa de transporte público da cidade. Quando vieram as políticas neoliberais, e com elas os cortes de custo, os primeiros atingidos foram os cobradores. A catraca eletrônica chegou e a empresa começou a demiti-los, e você era um deles. Você aceitou a proposta de demissão voluntária, como muitos fizeram, não apenas na sua empresa, mas em outras em nossos tempos neoliberais, atravessaram processo similar. Eu fui um dos vários que foram à imprensa denunciar essa estratégia: o valor humano importa (veja aqui). Você sempre foi um excelente cobrador. Não havia, é claro, nada errado na sua decisão. Mas, antes disso, você pediu ao poder público para ser reaproveitado, porque tinha família para sustentar, e ninguém o ouviu. Por isso entendo o seu desgosto com a política. Passei décadas dentro de uma Câmara Municipal e vi de perto como a porta do poder abre fácil para quem tem padrinho e emperra para quem só tem razão. E eu também fiquei frustrado por não conseguir ajudá-lo.
Mas eu queria lembrar uma coisa. Quando você bateu naquela porta, quem governava era o MDB, tanto ontem como hoje alinhado aos Bolsonaros: é a surdez das políticas neoliberais, a surdez do poder não tem partido. O que muda é se existe regra obrigando alguém a ouvir: uma política de transição séria com requalificação e reaproveitamento, num contexto em que sindicato tem voz e os órgãos de proteção ao trabalho exercem sua capacidade de fiscalização. Nada disto está previsto na proposta de Flávio, ao contrário. É por aí que quero conversar. Depois você saiu, você se arrependeu de ter saído, porque a decisão ameaçou sua aposentadoria, e você tem de correr para recuperar tempo de contribuição e hoje dirige por aplicativo para sobreviver. É muita luta para uma vida só. Eu sei que o discurso de empreendedor tem força, mas veja como a história se repete. Ontem foi a catraca; hoje são as regras dos aplicativos e a inteligência artificial que o limitam em seu trabalho. A tecnologia tira o chão de quem trabalha e o discurso neoliberal é “se vire”.
Não vou vender milagre. O projeto do governo Lula para regulamentar o trabalho dos motoristas, com valor mínimo por hora e contribuição ao INSS, travou na Câmara e foi criticado por entidades da categoria. De fato, a regulamentação geral para motoristas por aplicativo perdeu força e foi engavetada pelo Congresso Nacional diante da falta de consenso e da pressão dos próprios trabalhadores, que buscavam mais direitos. Mas veja como lidou o governo com isso: o governo federal redirecionou os esforços para medidas práticas de apoio financeiro. A principal delas é o recém-sancionado programa Move Brasil, que disponibiliza uma linha de crédito facilitada de até R$ 200 mil para a compra de carros, motos e veículos elétricos novos com taxas de juros especiais de 11,5% ao ano para mulheres e 12,6% para homens, pagáveis em até 84 parcelas. Muitos motoristas começaram a aproveitar esse benefício. A questão é que não achei no plano de Flávio nenhuma proposta específica para motorista de aplicativo. Pergunte a ele o que fará por você.
O que encontrei foi uma visão geral de trabalho que vai atingir seus colegas motoristas que ficaram na empresa de transporte. A PEC 12, defendida por Flávio, permite regime por hora negociado por acordo individual entre empregado e empregador, e na prática permite reduzir salário à medida que se trabalham menos horas. Seu autor, Rogério Marinho, foi relator da reforma trabalhista de 2017. Acordo individual funciona entre iguais. A catraca não negociou com você. Uma empresa que quer cortar gente também não negocia: diz “assina ou sai”. É o tom que começará a valer no país, entendo, se Flávio for eleito. Mas isso é apenas minha opinião.
Uma tarefa prática: entre no Meu INSS e confira quanto tempo de contribuição você tem. Você sabe que ainda pode contribuir e receber aposentadoria, mas lembre-se de que qualquer mexida na correção dos benefícios, como a que a equipe econômica de Flávio estudou e ele negou, atinge quem se aposentará perto do piso. Meu medo é que você, que já foi ignorado uma vez, vote em quem tratará o trabalhador como alguém que “negocia” sozinho contra a empresa e que, se voltar a contribuir, receberá menos do que merece. Não é seu presente como motorista de plataforma que ele está ameaçando, é o futuro de aposentadoria, se vier a lutar por ela, exatamente como o de sua irmã.
Minha concunhada
Sei que você não gosta de política, assim como meu cunhado. Eu mesmo, às vezes, também desgosto. Mas a política gosta de você: ela está no seu contracheque. Você já batalhou muito nesta vida para criar seus três filhos: foi contadora de uma floricultura, trabalhou num mini supermercado, numa estética, voltou à floricultura por mérito e hoje trabalha de carteira assinada. Minha mãe lutou pela vida por meio do trabalho, como você: vendia de porta em porta, mas o que entrava num dia era tudo o que havia. Ela pagava INSS por fora, o que lhe garantiu um mínimo de aposentadoria. Então você sabe o valor de um FGTS, de um 13º, de umas férias remuneradas, de um INSS recolhido. Poucas pessoas na família entendem tão bem como você as contas que é preciso fazer para chegar a estes números e o que eles significam.
Por isso vou lhe pedir um favor de contadora. Leia o texto da PEC 12, a proposta apoiada por Flávio. Nela, salário, FGTS, férias e 13º seriam proporcionais às horas trabalhadas. A proposta não acaba com a escala 6×1 nem reduz o limite de 44 horas, recém aprovados, ainda que haja notícias do encontro de Flávio Bolsonaro com elites empresariais, a quem teria afirmado que voltaria atrás. Segundo a Agência Senado, Marinho indicou que ela não teria limite de horas. Faça a conta: quanto sobra do seu salário se tudo passar a depender de quantas horas o patrão resolver “contratar” você no mês?
Se na escala do trabalho você tem folga, adicional ou hora extra garantidos por lei, pense em quem os garantiria num acordo individual. O argumento da campanha é que haverá liberdade e que direitos serão mantidos. Pode ser. Mas liberdade para quem depende do salário para pagar o aluguel costuma ser a de dizer sim.
Há uma outra proposta de Flávio que merece atenção: a de vouchers para famílias que não conseguirem creche pública. Não é o seu caso, mas quem tem filho pequeno sabe como falta vaga. Eu agora tenho um neto que vai precisar, e você passou pela experiência de criar três crianças. Três! Só que o plano de Flávio não informou valores, e voucher menor que a mensalidade deixa a diferença no bolso da mãe. Essas propostas que não fecham com o programa me incomodam, essa contradição dos discursos de Flávio com os de sua equipe econômica também. Lula aposta em creches pelo Novo PAC e escola em tempo integral. Compare as duas e pergunte qual se sustenta nas contas. Você, que sempre cuidou dos números dos outros, merece que cuidem dos seus.
Meu sobrinho
Você é o mais novo aqui e já carrega duas famílias: o filho do primeiro relacionamento e a linda menina do segundo. Você é um batalhador, assumiu integralmente ambas as responsabilidades, ao contrário de meu pai, que me negou o convívio durante toda a infância. Sei o peso disso. Cresci com um pai ausente e sei o que a falta de um pai pode custar a uma criança. Também sei o que me segurou: uma mãe dedicada, uma rede à minha volta com escola, biblioteca e gente. Quando falta rede, qualquer tombo vira queda.
Você sofreu uma queda de moto e está de licença-saúde. É a prova de que direito não é abstração: o salário dos primeiros dias, o benefício do INSS, o FGTS, a CLT inteira trabalhando por você. Há trabalhadores que não valorizam isso, mas a lei garante que o acidente no trajeto de casa ao trabalho vale como acidente de trabalho. Estou lembrando-o disso para você ver a importância da função de solidariedade social, que está lá nas primeiras cláusulas da Constituição. É o fundamento básico da nação. A sociedade precisa ser solidária aos que mais necessitam. Todos trabalhamos, mas há momentos em que isso se torna impossível. É neste momento em que a legislação pró-trabalhador tem seu valor.
Agora, o que você não me pediu, mas eu faço questão de mostrar, é como seria sua situação num governo Bolsonaro. Olhando o que aconteceu com quem estava na sua posição, aconteceu isto no passado. Em 2019, o governo Jair criou, pela Lei 13.846, um pente-fino permanente nos benefícios por incapacidade, com bônus para peritos que fizessem atendimentos extras. Em 2022, a fila do INSS chegava a 1,4 milhão de pessoas. E a reforma da Previdência de 2019 passou a calcular os benefícios pela média de todos os salários, o que tende a reduzir o valor. Para quem tem duas famílias dependendo do mesmo contracheque, um benefício cortado ou atrasado vira pensão alimentícia em atraso e prestação não paga.
Eu preciso ser justo com você, porque a fila existe também hoje: os pedidos de benefício por incapacidade passam de 1,2 milhão em 2025. Você obteve um deles. Então a pergunta não é quem tem fila, e sim quem tem vontade e dinheiro para atacá-la. A equipe econômica de Flávio estudou limitar a correção de benefícios e acabar com os pisos de saúde e educação. Ele nega. Ele também negou que teve relações com Vorcaro, e depois foi pego na mentira. É minha opinião: se ele pode mentir uma vez, pode mentir outras. Se eu estiver errado e ele cumprir, ótimo. Se não cumprir, você descobrirá do pior jeito, esperando numa fila quaisquer benefícios que precise no futuro. Você está disposto a correr esse risco?
Seus filhos também entram na conta. O mesmo estudo incluía o fim do piso da educação, que sustenta o Fundeb. Escola pública é a rede dos filhos de quem trabalha, de seus filhos. Antes de votar, pense não apenas em você, mas em suas crianças também.
Meu irmão
Descobri um irmão há pouco tempo e começamos a conversar. Cresci com a ausência de um irmão em casa, talvez por isso tenha tido a curiosidade em contactar meu. A família de minha tia era cheia de irmãos, a de minha esposa também, menos eu, filho único de mãe solteira. Ele é servidor público aposentado, militar, maçom, casado, pai e escritor. É bolsonarista convicto. Pensamos diferente. Não quero que isso nos custe a conversa. Uma vez nos encontramos e comentei que, numa futura ditadura da direita, eu ia precisar de que me tirasse da prisão, mas que faria o mesmo por ele numa ditadura da esquerda. Rimos disso. Não sei se hoje seria uma boa piada de se fazer.
Como eu, ele escreve, e quem escreve sabe que palavra pesa. Sei também que o maçom, pelo que estudei, jura liberdade, igualdade e fraternidade, a busca da verdade e a obediência às leis do país. É nesses princípios que quero tocar. Quero lembrá-lo, caso ele venha a ler este texto, que em setembro de 2025, o STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe e outros crimes, junto com os generais Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Braga Netto e o almirante Garnier, a primeira vez que o Brasil condena militares de alta patente por golpe. A Primeira Turma decidiu por 4 votos a 1. Flávio chamou aquilo de “suprema perseguição”. Ele pode achar que o julgamento foi injusto. Mas peço que pense como alguém que vestiu a farda: o que isso significa para as Forças Armadas que você serviu?
Flávio promete anistia aos condenados do 8 de janeiro e ao próprio pai. Se um presidente apaga uma condenação por tentativa de golpe, o recado que fica para a caserna e para o país é que dá para tentar sem pagar o preço. Isso é bom para a instituição? Para a sua honra de militar? E, para um maçom, que jura respeitar a lei, o que significa um perdão que antecipa o julgamento da História? Reconheço que ele também propõe mandatos para ministros do STF e restrições a decisões monocráticas. Esse debate é legítimo e podemos fazê-lo. Mas ele não precisa passar por apagar o que um tribunal julgou.
Penso também no seu filho, como penso nos de meu enteado, meu sobrinho e meu neto. Eles herdarão o país que decidirmos agora, as escolas, as universidades, as instituições. A mesma equipe econômica estudou o fim do piso constitucional de gasto em educação. Flávio nega que isso seja plano, mas peço que você cobre dele um compromisso por escrito. Que texto você gostaria de deixar para seus filhos: um “eu tolerei”? Ou um “eu exigi”?
A prima espírita
Tenho uma prima espírita. Ela é bolsonarista. Sei da sua perda: a COVID levou seu marido. Minha cunhada sabe o que é isso: ela viu familiares lamentarem as mortes de seus. Não tenho palavras que sirvam, só respeito. Quero ser cuidadoso. Não vou usar a sua dor como argumento, porque ninguém é dono da dor dos outros. Não sei quando e como ele adoeceu e não vou dizer que um voto teria mudado o destino dele.
Você é espírita, kardecista, e eu, que passei a vida entre livros, admiro uma doutrina que pediu aos fiéis que estudassem. Que lessem livros. Kardec falava de uma fé raciocinada, a que olha a razão de frente. E repetia que, fora da caridade, não há salvação. Se a caridade pede de nós o cuidado com os outros, ela pede também cuidado com o voto, que é um dos poucos atos pelos quais cuidamos de quem nem conhecemos.
Você me diz que vota em Bolsonaro porque odeia o Lula. É o que sentem meus demais parentes, como falo aqui. Eu entendo que há ódios que doem de verdade. Mas o ódio é péssimo conselheiro, e a doutrina que você segue sabe disso: ensina a não alimentar rancor. Votar contra alguém é diferente de votar a favor de algo. A pergunta que eu faria é: o que o seu voto vai construir?
Quando perguntaram ao então presidente Jair Bolsonaro sobre o número de mortos, ele respondeu: “E daí?”. Seu filho, Flávio, endossou o sentimento do pai. E o relatório da CPI atribuiu ao governo a omissão diante das ofertas de vacina da Pfizer, do Butantan e da OMS. Os aliados dele contestam. Você pode rejeitar o relatório, mas não o tom daquela resposta.
Sobre o que vem pela frente, sejamos justos. Flávio propõe corrigir a tabela do SUS, o que beneficiaria hospitais filantrópicos, muitos deles espíritas. Reconheço o ponto. Mas essas casas e obras assistenciais dependem do SUS e dos programas sociais para atender quem não tem nada, e reportagens sobre a equipe econômica falam que ela quer acabar com o piso de gasto em saúde. Se você recebe pensão por morte, lembre-se de que a reforma de 2019 de Jair Bolsonaro reduziu o valor desse benefício, e qualquer mexida na regra de correção chegaria ao seu bolso. Não peço que você goste do Lula. Peço que seu voto seja resultado de estudo e caridade, não de ódio.
O que está em jogo
Resumindo o que escrevi, e com todo o cuidado de quem sabe que Flávio, na campanha de televisão, nega parte das propostas que citei, mas que sua equipe econômica discute e aprofunda, digo o seguinte. À minha cunhada, uma eleição de Flávio pode significar o risco de ver mexerem no piso da saúde e na correção da aposentadoria que você acabou de conquistar. Ao meu cunhado, a possibilidade de um mundo de trabalho em que o acordo individual substitui a proteção coletiva pode afetar sua esposa, e uma Previdência mais difícil de alcançar pode afetar quem vive de dirigir por aplicativo. À minha concunhada, que um contracheque proporcional às horas, sem garantia de folga, é um futuro possível e desolador. Ao meu sobrinho, poderá assistir ao nascimento de um sistema de benefícios apertado quando mais precisar, e de escolas sem previsão de piso. Ao meu irmão, uma anistia que apaga o julgamento de uma tentativa de golpe e o risco de seu filho herdar instituições mais frágeis. À minha prima, a possibilidade de que a dor dela vire um voto sem destino, e uma pensão e hospitais assistenciais mais vulneráveis.
Não escrevo para exigir que vocês abandonem suas convicções, nem que vocês deixem de criticar e até mesmo odiar Lula. Escrevo porque o voto é uma das poucas coisas que fazemos sem ninguém olhando, e merece o cuidado que damos a uma decisão importante da família. Pensem no hospital, no emprego, no benefício, na escola, na Constituição. Como disse ao meu vizinho, pensem com a razão e não com a raiva. Perguntem a quem pede o voto de vocês o que vai fazer e peçam que escreva. Talvez, se votarmos no Lula, a catástrofe demore um pouco mais, mas ela virá de alguma forma, mesmo parcial; com Flávio, eu tenho certeza de que ela virá a galope e total. Não estou olhando seus programas somente, mas as forças sociais que eles representam. Mais uma vez: talvez algum de vocês tenha preferido votar em Mourão em vez de Olívio na última eleição para senador, talvez não, o mesmo que agora votou contra direitos do trabalho. Agora reelaboro uma fábula sobre este ponto para encerrar.
O escorpião voltou
O caso de Mourão é emblemático. É da natureza da extrema direita, votar contra os direitos do trabalhador. Logo que soube do voto do Mourão, pensei na fábula da tartaruga e do escorpião. Lembram da fábula? Vou fazer minha livre adaptação à política aqui. Imagine um trabalhador humilde que vivia em um país envolvido em crises econômicas quando encontra um político de extrema-direita. O político, que não tinha como se eleger sem o voto popular, lhe pediu: “Deixe-me subir nos seus ombros. Se você votar em mim e eleger, eu farei a economia crescer e salvarei você.” O trabalhador, desconfiado, respondeu: “Mas as suas propostas e o seu partido sempre atacaram os direitos dos trabalhadores, criticando as leis que nos protegem e as chamando de privilégios. Se eu votar em você, você vai destruir meus direitos e minha segurança.”
O político, com um sorriso persuasivo, argumentou com aparente lógica: “Não seja tolo! Eu preciso do seu voto e do seu apoio para governar. Se eu destruir a sua subsistência e tirar os seus direitos, o país entra em colapso, o povo se revolta e eu perco o poder. Seria contra o meu próprio interesse prejudicar quem me elegeu.” O trabalhador achou o argumento muito razoável. Seduzido pelo discurso e acreditando que a lógica do poder garantiria sua proteção, deu o seu voto e carregou o político até a vitória.
No entanto, logo após assumir o mandato, o político aprovou uma reforma severa que extinguiu garantias trabalhistas, cortou benefícios sociais e precarizou as condições de emprego. Sentindo o impacto amargo da perda de suas proteções e vendo sua vida piorar drasticamente, o trabalhador, indignado e sem direitos, questionou o governante: “Por que você fez isso?! Você prometeu nos salvar, mas agora destruiu a nossa segurança e nós, os pobres, vamos sofrer com a crise!”
O político, já seguro em sua cadeira de poder, apenas deu de ombros e respondeu: “Eu não pude evitar. Criticar e desmontar os direitos dos trabalhadores sempre foi a minha natureza.” É isso que quero dizer: promessas de campanha baseadas em conveniência não mudam a verdadeira agenda ideológica de um candidato. Quando uma população vota em lideranças que historicamente atacam as redes de proteção social, confiar na ilusão de que “com eles será diferente” ou de que “eles não teriam coragem” ignora a essência de suas próprias plataformas políticas, que acabam sendo aplicadas assim que o topo é alcançado.
No dia 25, cada um de vocês fará o que a consciência mandar. É isso que deve acontecer. Eu continuarei gostando de vocês do mesmo jeito, continuaremos com nossos churrascos, confraternizaremos, continuaremos sendo a mesma família que somos há trinta anos. Só gostaria que a gente pudesse dizer, depois, que votamos não seguindo a nossa raiva, mas porque pensamos muito e escolhemos olhando para os fatos.
Com carinho e respeito,
Jorge Barcellos