
Não havia névoa nas cenas; pelo contrário: estava tudo colorido, com cada prédio colocado em seu lugar real. Por isso, era como se fosse verdadeiro, apesar de datado, ou seja, com a geografia dos anos 70.
Eu chegava sozinho, mas, naquela época, mesmo aos 10 anos, eram naturais aqueles deslocamentos desacompanhados. Tínhamos o kit para nos defender de ruas bem mais seguras.
Cheguei na frente do Jardim América, o primeiro prédio classudo do Bonfim, com direito a um inédito salão de festas. Não vi o porteiro eletrônico, outra novidade da época, mas o seu Kaplan tomava um sol no jardim e me abriu a porta com um sorriso acolhedor.
Ali eu devia ter desconfiado, pois, fora dali, o seu Kaplan não estava mais entre nós. A sua partida havia sido recente, mas certos sonhos são mesmo convidativos e, quando ouvi um comentário que ele fez sobre nossos cabelos, do qual não lembro, eu entrei.
Subi as escadas do prédio cada vez mais ingenuamente. Afinal, o pé direito enorme não era compatível com a época. Lustres, balaústres e esculturas correspondiam mais à prefeitura do quinto distrito de Paris, onde, vinte anos depois, eu fui resolver algo burocrático. Mas quem liga para verossimilhança quando o sonho é promissor?
Eu parecia decidido ao tocar na porta do 201 e até sabia por que estava ali. A amiga Helena havia me convidado para brincar com ela, porém, ao abrir a porta, logo percebi que não se tratava disso.
Era mesmo uma festa com muito mais gente, e a minha inocência onírica continuava. Todas as festas da Helena foram nos anos 70 e sempre no salão de festas, no térreo, enquanto ali havia um Garden. Naquele tempo, nem se falava Garden.
Muitos amigos, entre vivos e mortos, estavam presentes. O Benami, o Jorge, duas Suzanas, dois Ricardos, o Lico, o Salomão, o Eduardo. O ponto alto se deu quando vi meu pai. Ele estava corado, robusto e ainda vivo de tão sorridente. Mas estava de saída e não captei o sentido da mórbida metáfora. Se o captasse, não perderia a oportunidade de abraçá-lo, embora ele estivesse mais atento a seu amigo Max, o pai de Helena. Este, sim, estava cansado e recebia alguma ajuda para levantar-se, enquanto meu pai chamava a atenção do quanto o amigo aproveitava a vida que ainda lhe restava.
Nessa hora, vi dois rabinos e fiquei ansioso. Ignorava se havia extrema unção no Judaísmo, mas temi. O quadro do sonho era agora mais agitado, mas logo veio a Liana, a minha primeira namorada, distensionando o ambiente.
Juntou-nos numa roda e mandou a gente se preparar para a surpresa. Foi quando a Helena chegou mostrando muitas fotos, mas, de forma estranha, todas elas revelavam imagens em movimento. Super 8 — ela anunciou, e foi quando me vi criança em uma dessas imagens.
Não havia dúvida de que era eu o menino que corria atrás de uma bola, entre o Jorge e o Benami. Eu estava, incontestavelmente, feliz. Sem camisa, as costelas apareciam, e a Liana repetia a pergunta, viu? Viu? Viu?
Isso era estranho para os outros, mas não para mim. Eu sabia que ela estava dizendo que eu tinha sido feliz. Ali comecei a desconfiar, invadido pela ideia de que, quando fosse embora, voltaria a duvidar daquela felicidade anunciada, retomando questões e lacunas do passado.
Foi quando vi que o tal do Garden foi se enchendo de heras, de mato, tal qual a casa vazia da rua Casemiro de Abreu, por onde eu havia passado, voltando do consultório, algumas horas antes de dormir.
Outra mudança na cena foram os prédios ao lado, com muito concreto e cimento, que começaram a invadir a festa, em uma espécie de derretimento, à la Salvador Dalí. Não chegava a ser um pesadelo, mas entendi, não sem alguma tristeza, que estava na hora de partir. Seu Max, o pai da Helena, acenou-me e disse-me: “Até breve”.
Na hora, eu não entendi a retomada do meu bem-estar, mesmo em meio a tantas despedidas. Só quando acordei em definitivo percebi que, em um até breve, pode caber um só dia, e, se tivesse alguma sorte, eu poderia voltar para aquela festa, no sono da noite seguinte. Infelizmente, não voltei. Ainda.