
Nem todas as famílias são violentas, mas é praticamente impossível viver sob o patriarcado e não se identificar, pelo menos um pouquinho, com “O Aniversário”, do italiano Andrea Bajani (Companhia das Letras). Começamos a leitura sabendo que faz dez anos que o narrador mudou de telefone, endereço e continente para se afastar do pai e da mãe. E não se arrepende, avisa que sua vida melhorou muito.
Bajani subverte a famosa frase de Tostoi — “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” — ao mostrar como a violência doméstica pode tornar igualmente infelizes todos os membros de uma família, cada um à sua maneira. Em seu relato, o qual não sabemos o quanto é ficção, ninguém tem nome, apenas um lugar na rede de relações: meu pai, minha mãe, minha irmã, a mãe da minha mãe, a mãe do meu pai, a amiga da minha mãe.
Na linha dos romances sociológicos, ao modo Annie Ernaux e Édouard Louis, Bajani expõe como cada personagem assume seu papel na estrutura familiar: o pai provedor e controlador, que conduz a família na base do terror psicológico; a mãe dona de casa submissa e sem voz; a filha contestadora e o filho cúmplice, levado pelo medo e comodidade. A violência, mesmo sem ser física na maior parte das vezes nem estar presente a todo momento, é o fator determinante na vida dos personagens. Todos são algozes e vítimas. Mesmo com doses diferentes de culpa, não existe absolvição para ninguém.
Em vários momentos, vi minha própria família sendo descrita e me enxerguei em mais de um papel. Fiquei me perguntando quantas vezes tive vontade de fazer como o narrador do livro e fugir de tudo, mas acabei capitulando, como o personagem faz diversas vezes antes do rompimento radical, ao passar por cima, digerir cobranças, mudar de assunto, fingir que o acontecido não aconteceu.
Durante a leitura, me perguntei várias vezes, ainda, se, mesmo tentando ser diferente, em algum momento não reproduzi a mesma estrutura da família em que cresci, na que construí. Afinal, fazemos todos parte de uma engrenagem fabricada ao longo de muitas gerações. E, se há muita gente buscando modos alternativos de conviver, existe um exército à espreita, montado para manter e recuperar seu poder.