
Em algumas ocasiões, pego-me distraído com frases encontradas em para-choques de caminhão. A indagação que intitula nossa reflexão, eu a li em forma afirmativa. O aforismo parece indicar que não adianta acumular fortunas e títulos ou se deixar vencer pela vaidade, porque nada disso nos acompanha à sepultura. Túlio Dek afirmou que o que se leva da vida é a vida que se leva, em uma ode a uma postura um pouco menos, digamos assim, responsável em relação aos próprios rumos da existência. Não esqueçamos que o Zeca Pagodinho fez bastante sucesso replicando sua canção: “Deixa a vida me levar, vida leva eu”. Leva para onde? Se permanecermos eternamente deitados no regaço de nossa amada mãe gentil, chegaremos a algum lugar?
O filósofo Schopenhauer não concordaria com essa visão de que fazer a “coisa certa” implica em despreocupação teleológica com os destinos da existência. Dirá ele que a felicidade é tão somente um alívio — uma pausa — da lógica dolorosa da vida, e não a presença de um prazer positivo. De fato, nós nos deslocamos movidos por uma força irracional chamada vontade, porque a nossa mente não sabe parar de desejar. Para ele, a vida humana oscila basicamente entre dor e tédio. A ideia de que já atingimos nossas metas e, por isso, podemos descansar pode ser uma ilusão perigosa. A narrativa da vida não nos conduz a um final feliz. Contudo, parece que somos instados a buscar um grand finale, uma apoteose mágica que nos retire o sofrimento e as limitações da existência.
Ao serviço das maquinações do capitalismo, as mídias sociais fabricam para nós paradouros ensurdecedores de felicidade. Novelas em que heroínas vencem o mal e a vilania após prolongado sofrimento, que acompanhamos com profunda comoção. Realities nos quais a privação do confinamento gera shows emocionantes com final grandioso, promovendo prêmios que sinalizam para uma mudança radical de vida. Esportes, em modalidades e formatos programáticos diversos, têm o condão de transmutar atletas em celebridades num circo que envolve uma fortuna em patrocínio e premiações. Esse circo prioriza o entretenimento, o alto desempenho e altíssimos lucros em detrimento do aspecto educativo ou da mobilização popular. Desde o inocente álbum de figurinhas, que oferecia brindes após o difícil preenchimento de estampas que pareciam nunca se completar, até o popular jogo do bicho, sempre buscamos ganhar alguma coisa. E o quanto já choramos assistindo ao “Boa Noite Cinderela”? O tanto que esperamos do “Baú de Felicidade”? Agora nos mobilizamos no clube do “Familhão”. Não posso deixar de recordar o saudoso Raul Seixas com seu “ouro de tolo”.
Nos últimos anos, assistimos ao espetáculo que fez emergir as bets como uma nova e rápida possibilidade de ganho acessível. Embora o formato digital seja moderno, a promessa ilusória do enriquecimento simplório por meio de apostas assombra e destrói indivíduos e famílias há milênios, explorando a vulnerabilidade inerente à condição humana. No Brasil, essa tragédia contemporânea ganhou força a partir de 2015, com as primeiras aberturas legais ou brechas nas legislações para o setor, mas foi durante a pandemia de Covid-19 que a tempestade perfeita se formou. O isolamento social, o desespero financeiro de uma população precarizada e um marketing massivo, quase sempre validado pelo sorriso de ídolos populares, transformaram cada smartphone em um cassino de bolso, operando ininterruptamente na intimidade dos lares brasileiros. Em 2024, aproximadamente 25 milhões de brasileiros se aventuraram nas diversas plataformas que vendem essa moderna mágica online.
Hoje, acompanhamos o movimento de regulamentação dessas plataformas, um processo marcado por uma cruel contradição capitalista. Enquanto o discurso oficial foca na legalização e na geração de impostos, a dura realidade é que a esmagadora maioria dessas empresas possui sede em paraísos fiscais. Trata-se de uma colossal e perversa transferência de renda: o pouco dinheiro que restava à classe trabalhadora brasileira escoa para o exterior, enriquecendo conglomerados transnacionais, enquanto o rastro de adoecimento psíquico e ruína financeira fica para o Estado e para as famílias administrarem. Afinal, não lidamos com um simples mau hábito, mas com uma grave patologia já reconhecida pela Organização Mundial da Saúde: a ludopatia (ou transtorno do jogo compulsivo, classificado na CID-11 6C50), uma dependência tão severa quanto a química. O custo humano dessa engrenagem é um terror e tira qualquer resquício de autonomia do sujeito. O programa de recuperação da irmandade de Jogadores Anônimos (JA) ilustra a profundidade desse abismo logo em seu 1º Passo: “Admitimos que éramos impotentes perante o jogo, que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”. Essa dolorosa confissão de impotência resume a armadilha denunciada nesta reflexão. A máquina de moer do capital vende a fantasia do controle e da salvação financeira por meio da sorte. No entanto, entrega apenas a subjugação total do ser, roubando-lhe muito mais do que o “ouro de tolo”, roubando-lhe a própria dignidade de existir.
A Transparência Internacional postou que o caso Banco Master “envolve uma suposta fraude financeira bilionária e liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025. Liderado por Daniel Vorcaro, o banco é investigado por inflar ativos, simular lucros, lavagem de dinheiro e uso de CDBs de alto risco, gerando uma crise de liquidez e suspeitas de desvios. O escândalo gerou conexões com PCC e investigações na política”. Infelizmente, é somente mais um caso de fabricação de sonhos fantásticos que transforma boa vontade em idiotice e torna o dinheiro em arma mortal.
O que leva a pessoa a querer ganhar dinheiro descomplicado a qualquer preço? Por que essa ganância sem limites, esse desejo de estar acima dos mortais comuns? Seria o eco da pregação enganosa que seduz insinuando a homens e mulheres que “sereis como deuses”? A riqueza, a exorbitância do lucro, o consumo excessivo, teria esse poder de nos elevar a um patamar perene de felicidade? Que brother teríamos que aniquilar para tanto? Que ciladas devem ser afastadas no dia seguinte ao anúncio da vitória individual no jogo da casa lotérica? Que parentes serão alijados? Em qual mundo distante nos alojaríamos para curtir o paraíso decorrente da fortuna?
Já mencionamos a necessidade visceral do capitalismo de manter o lucro, o mercado e o capital alinhados à alienação das pessoas. Tenho refletido que alienação nada mais é que a cauterização do sujeito, sua radical negação, sua coisificação, numa palavra, sua redução à natureza animal. Mas essa não é uma condição natural; as pessoas não buscam e nem desejam ser alienadas. Na verdade, nem exatamente sabem que o são. Há uma estratégia perspicaz, pensada, planejada, arquitetada, que atua como força motriz e induz à espera passiva de que algo externo a si tem a força e o poder de mudar magicamente a vida. Trata-se da ilusão de um amanhã esplendoroso, muito melhor e mais feliz, e da geração e disseminação de uma cultura, a cultura do ter, do poder, do consumo. Trata-se da inferioridade intersubjetiva que alcança o seu melhor num mundo mágico ou numa dádiva poderosa graciosamente “conquistada”.
Segundo o IBGE, em 2025 a renda per capita do Brasil ficou em R$ 2.316. O Instituto informou que “a renda domiciliar per capita foi calculada como a razão entre o total dos rendimentos domiciliares (nominais) e o total dos moradores. Nesse cálculo, são considerados os rendimentos de trabalho e de outras fontes. Todos os moradores são considerados no cálculo, inclusive os moradores classificados como pensionistas, empregados domésticos e parentes dos empregados domésticos”. Considere-se a inflação internacional e o nosso alto empobrecimento. Em suma, parece possível admitir que a combinação entre necessidade econômica, ganância emocional e falta de conhecimento cria o ambiente perfeito para que a pessoa desconsidere as consequências e tente atalhos perigosos.
Contudo, a indagação é pertinente. Como vamos superar esse cenário? Como vamos conseguir trabalhar na contramão de lógicas que seduzem e enganam nosso povo? Quando vamos conseguir fazer uma crítica dos fenômenos da mídia social que priorizam altos índices de audiência e vendem mentiras que parecem verdades? São espetáculos cotidianos que fazem confundir ilusão com esperança e entregam angústia e frustração. Jacques Rancière, em “O espectador emancipado” (2017), explica que “olhar é o contrário de conhecer”, deduzindo que “o espectador se mantém diante de uma aparência, ignorando seu processo de produção ou a realidade por ela encoberta. Em segundo lugar, é o contrário de agir. O espectador fica imóvel em seu lugar, passivo. “Ser espectador é estar separado ao mesmo tempo da capacidade de conhecer e do poder de agir” (p. 8).
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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