
O que aconteceu na escola municipal de São José dos Campos com uma professora, em que três alunos colocaram cacos de vidro em sua garrafa d’água, não é um caso isolado. Isso acende um alerta sobre como o acesso naturalizado a conteúdos violentos e a falta de observação das famílias por possível desvio de caráter e limites têm transformado adolescentes em jovens perversos que desprezam as normas sociais.
Há a questão das diretrizes atuais das escolas. Não se pode rodar alunos e expulsá-los, são apenas suspensos ou transferidos. Professores perderam totalmente a autoridade na sala de aula. Suspensão virou prêmio. Ficam em casa, com acesso à internet para continuarem fazendo o que querem. Na sala de aula ainda existem normas a serem cumpridas e alguns não foram educados em casa para isso.
Também temos uma retórica pejorativa e inimiga da educação. Invasão de universidades públicas pelo MBL, políticos e religiosos perseguindo professores e currículos escolares. Isso é a base do fascismo. O exemplo vem de cima e, consequentemente, esses jovens se sentem no direito de fazer o que bem entendem dentro das suas escolas. É a fidelidade na agressividade, a liberdade em transgredir através do universo do crime. São todos cúmplices das barbaridades contra o sistema educacional. É uma catarse permanentemente agressiva.
Edgar Morin já trazia no livro “A Cultura de Massa do Século XX” que a exteriorização maciça e permanente jorrada pelos meios de comunicação faz com que uma criança de 8 a 16 anos tenha acesso a mais de 18 mil imagens de golpes, ferimentos, estrangulamentos e torturas. Esse dado é da segunda metade do século passado. Imaginemos hoje com o acesso livre à internet.
Dá para fazer uma analogia com o filme “Precisamos falar sobre o Kelvin”, no qual o filho mais velho de um casal, desde pequeno, começa a ter traços de psicopatia. O termo até os 18 anos é chamado de transtorno de conduta. No filme, ele não respeita a mãe, sempre a confronta, há um olhar distante, faz pequenos delitos, como sumir com o animal de estimação da irmã mais nova. A mãe começa a se preocupar com a conduta do filho, observa, mas o pai acha que não há nada de anormal.
Os traços de psicopatia sempre estão lá, mas muitas famílias deixam passar, não enxergam. O filme é uma boa comparação, pois os responsáveis pelos envolvidos em colocarem caco de vidro no copo da professora pediram, apenas, para os seus filhos serem transferidos de escola. Isso é caso de expulsão e envio à Fundação Casa para cumprirem medidas socioeducativas, pois foi tentativa clara de homicídio.
Sobre a redução da maioridade penal, não sou a favor, mas acredito que o jovem infrator deve permanecer na Fundação Casa ou Fase e, conforme a gravidade do crime, após os 18 anos, cumprir em estabelecimentos penais ou unidade experimental de saúde. Hoje um jovem infrator fica preso apenas três anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente e as Leis de Execuções Penais, se fossem cumpridas como foram idealizadas, a situação seria bem diferente.
Professores viraram para-raios de perversos. Estamos diante de um combate no qual a dita “liberdade” do pode tudo invalida constantemente a lei, as normas sociais e os princípios civilizatórios. Como canta Tom Zé, “a liberdade é traiçoeira”. Receber um não é lidar com as frustrações, afinal ninguém pode tudo. Se não aprende em casa, vai aprender na rua, e as implicações podem se transformar em mais uma grande tragédia.
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Ana Paola de Oliveira é jornalista, produtora musical, mestre em comunicação e especialista em direito autoral. Produtora executiva, assessora de imprensa e curadora. Produz fonogramas e licenciamento de músicas para audiovisuais. Foi professora da ESPM nos cursos de jornalismo e publicidade e propaganda. Repórter e crítica musical do Correio do Povo. Trabalhou como diretora de produção e assessora de imprensa na Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Prefeitura Municipal de Porto Alegre na Usina do Gasômetro.