
As memórias da infância têm ampla soma de sentimentos, e todos passam pela diretriz de saudades, seja com leveza, com tristeza, com vontade de repetir e aquelas que fazem sorrir só pela lembrança da expressão do pai ao falar em pastel de rodoviária. Essa iguaria, cujo aroma grudava nos cabelos distantes a 500 metros da fritura, era coisa a ser evitada, ou a viagem era certeira ao banheiro, dizia ele. O pobre pastel, muitas vezes feito no capricho, pagava ‘o pato’ da época pela experiência negativa de algum desafortunado. O fato é que, desde sempre, nosso organismo reage ao efeito da alimentação. Alguns alimentos parecem ser reconhecidos pelo organismo como um agente do mal, ou, em termos de hoje, geradores de sensibilidade alimentar.
O tema é amplo, com muita literatura, e nos mostra que engloba vários mecanismos da nossa fisiologia para ação e resposta. Parece que há muito tempo é uma preocupação, bem antes de algum pastel de rodoviária não ‘sentar bem’. Assim, quando falamos em reações alimentares e suas diversidades, podemos encontrar estudos bem específicos e classificações em muitos artigos científicos, assim como a “Atualização em Alergia Alimentar, 2025: posicionamento conjunto com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia e Sociedade Brasileira de Pediatria”. Em muitos desses, as questões de alergias alimentares se direcionam em duas linhas: aquelas ativadas pelo sistema imunológico ou aquelas que não são ativadas pelo sistema imune.
Nesse sentido e de modo simplificado, vamos refletir sobre o que nos dizem. Primeiro, deixando de lado a questão imunológica. É descrito que, quando falamos das reações que não são mediadas pelo sistema imunológico, temos, de maneira geral, as intolerâncias alimentares, subdivididas por seus mecanismos atuantes: primeiramente as metabólicas, que envolvem, por exemplo, aquelas reações de alguma intolerância à lactose e à frutose — as mais comuns. Nesse quadro podem ser anexados os sensíveis ao glúten, nos quais a pessoa não é celíaca, mas se tornou sensível a essa proteína. Na sequência, as farmacológicas, em que podemos observar quando há alguma reação à cafeína, por exemplo. A seguir, as tóxicas, que acontecem quando presentes em alguns pescados marinhos de armazenamento inadequado, conhecidos por causar intoxicação escombróide. Por último, há aquelas geradas por meio de outros mecanismos associados, envolvendo aditivos alimentares e químicos, e, assim, podem se relacionar com alguma intolerância alimentar, trazendo um efeito adverso.
Mas não foi exemplificada acima a doença celíaca; onde se enquadra? Ela é, sim, uma reação provocada por uma proteína alimentar, o glúten. Mas essa, em contrapartida, tem seus efeitos mediados pelo sistema imunológico. Ele é que gera as reações da doença celíaca. Assim, mesmo provocada por um alimento, ela não é tipicamente classificada como uma alergia alimentar, mas, imunológica. Os artigos mostram que, nessa categoria das reações arbitradas pelo sistema imunológico, há subdivisões. A primeira, nas ditas medidas pela imunoglobulina E (IgE), que têm reação de forma imediata, ou seja, logo após consumir o alimento já é sentida a resposta. Um exemplo acontece com pessoas alérgicas ao camarão, em que a glote apresenta sensação de fechamento poucos instantes após o consumo, com reação rápida que direciona ao alimento. Os estudos apontam que aproximadamente 90% das respostas mediadas por IgE, com hipersensibilidade imediata, são devidas a 8 alimentos principais: leite, ovos, amendoim, nozes, peixes, frutos do mar, trigo e soja.
Na segunda subdivisão, temos aquelas não mediadas por imunoglobulina E, apresentando resposta mais tardia e ocorrendo geralmente após 2 horas ou mais da ingestão, ou seja, com o início de ativação mais lento. Temos como exemplo a esofagite e gastroenterite eosinofílica, assim como a doença celíaca. Em terceiro segmento, temos as alergias mistas, ou seja, tanto mediadas por IgE como por outra imunoglobulina, como a IgG, por exemplo, as dermatites atópicas.
O assunto é amplo e recorrente. É real que todos nós temos alguém ou convivemos com uma resposta alérgica à comida. Há pessoas para as quais o processo alimentar se torna uma maratona, uma incógnita, um desafio, uma corrida aos consultórios na busca por soluções. O básico ainda parece ser unânime quanto a uma dieta de eliminação e reintrodução como melhor forma para tratar as sensibilidades alimentares. Porém, muitos testes foram surgindo para ajudar e testar as reações e alergias alimentares nas pessoas, como, por exemplo, o teste cutâneo ‘prick test’, mais restrito a alergias alimentares mediadas por IgE, indicando a sensibilização, porém se limita a respostas mediadas por essa imunoglobulina E. O teste acontece por meio de uma pequena incisão com o antígeno (no caso, o alimento a ser testado) na epiderme, local onde os mastócitos estão presentes e o alérgeno vai se ligar a receptores de IgE específico. Com isso, ocorre o processo de vasodilatação e aumento da permeabilidade vascular, levando a uma resposta que pode ser medida pela inflamação local, que gera um padrão de pápula e eritema e podem ser avaliados como positivo ou não para alergia alimentar.
Nesse aspecto, entra a importância da análise de um profissional de saúde no contexto clínico para interpretar resultados. Mesmo em casos positivos, a interpretação deve ser cautelosa, ou seja, testes positivos não garantem diagnósticos de alergia. O básico ainda é o autoconhecimento para as respostas alimentares e a percepção para a produção de alimentos de qualidade. O saudoso pastel de memória afetiva não precisa ser ruim.
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Denise Preussler dos Santos é jornalista (Unisinos), com mais de 180 artigos publicados em jornais do interior. Tem publicações na Revista Teias, Labrys, Revistas Eletrônicas Puc, Revista de Educação, Linguagem e Literatura-UEG Inhumas. É mestra em Educação (Ulbra) e terapeuta integrativa. Atualmente, cursa Nutrição (Uniasselvi).