
No primeiro turno, foi um contra todos, todos contra um. Agora é um contra um, cara a cara, olho no olho. Agora é que se vê a diferença entre os candidatos e, principalmente, entre as propostas de cada um para gerir o país.
Lembra que o Flávio Bolsonaro chegou a dizer que não iria ao debate da Bandeirantes e voltou atrás quando Lula confirmou presença?
Bobamente, teve a coragem de dizer que Lula confirmara presença no programa porque ele, Flávio, dissera que não iria… Pois ele passou o debate inteiro cometendo infantilidade e dizendo bobagens…
Na noite de domingo, 18/10, ficou escancarada a diferença mais do que entre Lula e o filho do Bolsonaro, a diferença entre duas histórias de vida. Digo até diferença gritante, sem medo de ser chamado antiquado pela gurizada.
Estavam ali, no estúdio da Band, um homem de 80 anos, calejado em chão de fábrica e lapidado em mais de cinco décadas de embates com o empresariado nacional e de 12 anos na presidência do maior país da América Latina, o quinto no mundo, e o adversário dele, com 45 anos de idade e 26 de trabalho.
Lula e Flávio. O veterano só teve o empurrão da mãe para subir no pau de arara que transportou a família de Pernambuco para São Paulo. Depois, teve que andar só com as próprias pernas.
O primeiro empurrão de Flavio, dado pelo pai, o levou para dentro de uma sala com ar-condicionado na Praça dos Três Poderes. De lá para cá, anda na sombra do pai, de carona nos votos. Ano passado, recebeu o empurrãozinho que o colocou no estúdio da Band.
Lula e Flávio Bolsonaro. Duas histórias, duas trajetórias. Uma disputa que é síntese bem acabada deste nosso Brasil tão polarizado e ainda tão injusto.
De um lado, Flávio Bolsonaro, o cara nascido na classe média alta, sempre beneficiado pela razoável posição social do pai, Jair Bolsonaro, oficial do Exército, que soube usar essa posição para virar político, e da mãe, a vereadora Rogéria Bolsonaro, que soube usar o sobrenome para também entrar na política.
No outro lado, Luiz Inácio Lula da Silva, imigrante nordestino, o sétimo dos oito filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello (dona Lindu), que desembarcou em São Paulo em 1952, com seis anos de idade, depois de 13 (olha a coincidência aí…) dias de estrada.
As diferenças entre os dois não param aí. Lula começou a trabalhar aos 11 anos. Foi engraxate e office boy. Conseguiu o primeiro emprego com carteira assinada aos 14 anos. Tinha que mostrar disposição para trabalhar 8 horas por dia e ajudar a mãe na manutenção da casa.
Flávio começou a trabalhar, em 2000, aos 19 anos, indicado pelo pai para um emprego de assessor no gabinete da liderança do então PPB (Partido Progressista Brasileiro), atual Progressistas, na Câmara dos Deputados, quando também entrou na Faculdade de Direito.
O jovem filho do então deputado federal Jair Bolsonaro tinha que mostrar uma rara habilidade: estar, ao mesmo tempo, em Brasília, onde recebia salário, e no Rio de Janeiro, onde frequentava o curso de direito. Uma habilidade meio fantasmagórica… Não precisava se preocupar com a manutenção da família. O pai e a mãe, Rogéria Bolsonaro, vereadora carioca, garantiam isso com sobras.
Lula conquistou seu primeiro diploma aos 17 anos: torneiro mecânico, depois de um curso de três anos no Senai.
Cada um, uma carreira. Quem diria que ainda se encontrariam cara a cara…
Lula, aos 30 anos, em 1975, foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
Flávio, aos 21, virou deputado estadual no Rio de Janeiro por quatro mandatos até que, em 2018, surfando na onda que levou papai Jair ao Palácio do Planalto, virou senador, com mandato terminando este ano.
Lula fundou o Partido dos Trabalhadores, em 1980, junto com outros sindicalistas e lideranças políticas e religiosas. Em 1986, foi eleito o deputado federal mais votado do Brasil. E ajudou a escrever a Constituição atual.
Lula perdeu três eleições para Presidente da República. Ganhou três pessoalmente e elegeu e reelegeu Dilma Rousseff. Passou mais de um ano na cadeia, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Sentenças anuladas pelo STF em 2021.
Flávio escreveu um livro, “Mito ou Verdade”. Obra de exaltação da vida e da gestão do pai, Jair, na Presidência da República, e de loas à ditadura vigente entre 1964 e 1984. Curiosidade: o livro foi lançado em 2022, ano em que o pai (o mito) de Flávio se transformou no único presidente da República a não se reeleger (verdade)…
Em 2026, Lula e Flávio escrevem mais um capítulo da história do Brasil. Em 2018, o Bolsonaro pai, hoje preso por tentativa de golpe, derrotou o candidato de Lula, Fernando Haddad, e virou presidente da República. Lula estava preso.
Em 2022, Lula empatou o jogo. Derrotou Bolsonaro e assumiu, pela terceira vez, a principal sala do Palácio do Planalto. No domingo que vem, 25 de outubro, teremos o desempate.
Flávio largou na frente. Ganhou o primeiro turno por uma cabeça, como se diz no turfe. Lula correu meio cercado pelo Bolsonaro do momento e por outros quatro candidatos. Ainda assim, chegou em segundo lugar com folga.
Com o que mostrou no debate da Band, Flávio comprovou o que até aliados já sabiam: é inexperiente e completamente despreparado para ocupar a Presidência da República. Não respondeu a nenhuma pergunta feita por Lula ou pelos mediadores do debate.
Flávio se limitou a fazer o discurso de desconstrução de Lula e do governo e de defesa do pai. E repetiu o que diz nos programas do horário eleitoral: vai lotar os presídios com adolescentes que cometem crimes, vai transformar o SUS num hospital Einstein, serviço de todo o povo.
No mais, nenhuma palavra sobre o dinheiro que o Vorcaro deu para ele, nem um pio sobre a ameaça do partido dele de reverter o fim da escala 6 x 1, e não ficou nem vermelho ao não responder sobre as ligações dele com milicianos cariocas…
Em resumo, é isso que vamos decidir no dia 25: queremos um Presidente da República com história ou um Presidente da República que conta a história do pai?
Parece que Lula chegou preocupado ao debate e saiu bem aliviado…