
Eu tive escolhas, posicionamentos, oportunidades que minha avó sequer imaginou, algumas dessas nem a minha mãe, mesmo com espírito ‘avançado’ para sua época. Buscou criar filhos aptos a pensar. Livre-arbítrio para fazê-lo ou não. Adolescente, trabalhava na Secretaria de Educação de Taquara e corria para a universidade à noite. Aprendi a costurar, crochetar e também trocar pneu e fazer cimento, a escrever minhas ideias, a sonhar num mundo inclusivo, que começava a despontar lentamente com direitos ‘iguais’ no mundo feminino. Meu filho e minhas filhas, assim aprenderam a entender, a lutar e agir para um mundo igual. Ainda pelejamos batalhas que parecem sem fim e desejamos as oportunidades que tivemos para todas! Novo capítulo de retrocesso nas eleições de 2026.
Gosto, admiro e escuto a ministra do STF, Carmem Lúcia. No final de julho deste ano, acompanhei uma declaração dela sobre movimentos formais no Supremo, que atingem todas nós, brasileiras. Assusta quem é forjado a pensar! Um prenúncio para condução de um partido para engrenagens pós-eleições/26, se eleito. O primeiro relato se refere à não necessidade do voto feminino. Com a veemência que lhe é característica, a ministra expõe a contradição nas palavras dela: “Esse direito não pode ser retirado da Constituição. A Constituição não permite nem por Emenda Constitucional. É direito fundamental e há dispositivo que isso não será objeto nem de deliberação. O Congresso não pode nem deliberar sobre isso!”. Diante da negativa, outra emenda é relatada, que demonstra a nova tentativa ao, então, ‘facultar’ o voto feminino, permanecendo obrigatório apenas ao mundo masculino. Na continuidade, tão terrível quanto, mais um jogo busca legitimar não mais um voto por pessoa (conquista no século XIX), mas apenas um voto por família. Implícito esse voto para o mundo masculino, com ênfase justificativa em retirar o direito feminino: “para que as mulheres não fiquem sobrecarregadas…”
Ora, o significado do voto é tão profundo quanto o cuidado com o mundo, visto que se opta, escolhe, seleciona quem será tua voz, quem será seu guardião ou guardiã, quem será teu/tua representante para cuidar do todo. Aí que mora toda a importância!! Mas, então, na veemência de querer tolher, minimizar, excluir o feminino, batem (provavelmente pela visão limitada) contra a própria concepção machista histórica de disciplinar e tolher a alma feminina para o ‘seu lugar’ construído como ‘cuidadora’. Então, por que tirar o voto? O voto para alguns do meio masculino não é visto como ‘cuidado’ para o Mundo. Ele é poder e dá um poder, simples assim! Isso não inclui o feminino! Essa visão feminina que constrói, que protege, que incentiva, deve ficar apenas junto ao ‘ímpeto’ de cuidar dos filhos, da família, dos doentes, dos alunos, é o ‘socialmente natural’… Uma vocação social fundida na sociedade que não vislumbra, com certeza machista, o voto. E ainda, como controlar e vigiar o feminino se o voto libertar uma sociedade para o igual? A estudiosa Heloisa Villela (2000), ao falar da construção da sociedade e suas grandes transformações no século XIX com escolarização brasileira, nos descreve também a concepção da visão do feminino, da sua caracterização como regeneradora moral da sociedade, reforçando, assim, a naturalidade do lugar feminino. Um vínculo para o âmbito do doméstico e do maternal, em que as instituições buscavam disciplinamentos para criar corpos ´doceis’ e “imprimir-lhes o mais permanente possível determinadas disposições sociais”, conforme também nos relata Alfredo Veiga-Neto (2007). Controle! Nada é novo, talvez apenas esquecido! Pode-se, aqui, retomar a questão da formação da classificação e hierarquização de aluno ou aluna, em que eram operadas subjetividades quanto ao trabalho feminino e ao masculino. As meninas precisavam ser disciplinadas e orientadas para a formação familiar, casamento e maternidade. Nada mais…
Mas o direito feminino foi reconhecido no Brasil em 1932 e incorporado na Constituição de 1934 (ainda facultativo e obrigatório a partir de 1965), ‘equiparado’ ao voto masculino. Ou seja, o direito de igual valor para a opção feminina de juízo, de vontade, de escolha. Eu era criança naquela época. Cresci nessas transformações, como muitas mulheres no Brasil. Fui aprendendo a ter esperança e sensação de valor. Batalhas constantes se travavam (se travam) onde as buscas de espaços, de valores, das capacidades sempre à prova se multiplicavam. Sim, tive muitas mais oportunidades do que outras de mim, e é meu desejo feminino a prosperidade de todas! Às vezes penso que meu senso de esperança, de acreditar, vem dessas trajetórias. Muitas vezes lembro de pensar: “Amanhã vai ser diferente!” O fato é que vou continuar cuidando do Mundo! Quero ele sempre melhor, hoje, amanhã, em 30, 50, 100 anos… Somos voto, somos escolha, somos cuidado, somos justiça, somos o voto feminino!! Não deixe ninguém te tirar esse direito que muitas antes de nós sangraram para conseguir!
Denise Preussler dos Santos é jornalista (Unisinos), com mais de 180 artigos publicados em jornais do interior. Tem publicações na Revista Teias, Labrys, Revistas Eletrônicas Puc, Revista de Educação, Linguagem e Literatura-UEG Inhumas. É mestra em Educação (Ulbra) e terapeuta integrativa. Atualmente, cursa Nutrição (Uniasselvi).