
Independentemente dos resultados das eleições no próximo fim de semana, temos inimigos à espreita, difíceis de serem combatidos. Refiro-me à inteligência artificial e às “big techs” que fornecem a ferramenta. O episódio divulgado (e testado por inúmeras pessoas, inclusive ao vivo na TV) na última semana, envolvendo a censura da Meta à produção de imagens de campanha para Lula, enquanto produzia imagens completas, inclusive com slogans não solicitados, para Flávio, apenas escancarou aquilo sabido, mas minimizado: estas empresas buscam influenciar o pensamento da população para que se viciem e consumam, mas também para impor seus valores políticos e morais.
Há pouco tempo, uma amiga pediu ao ChatGPT que criasse uma imagem de duas mulheres vestidas de noiva dando as mãos. Queria fazer um cartão para presentear sua esposa. A resposta foi a mesma dada àqueles que pediram para a IA da Meta criar uma imagem com Lula 13: não posso entregar o que foi solicitado. Minha amiga fez o mesmo pedido, mas, com os noivos sendo um homem e uma mulher, foi prontamente atendida. Depois, pediu imagens de duas mulheres de mãos dadas e dois homens de mãos dadas. Recebeu a mesma mensagem da primeira encomenda. Desenvolveu, então, uma longa conversa com a ferramenta, perguntando diretamente se ela era homofóbica. As respostas foram todas evasivas, sem negar ou confirmar.
É difícil saber exatamente quais valores essas empresas tentam nos passar ou, ainda, se em alguns casos apenas cometem erros. Pessoalmente, sou bem reticente em aceitar esse segundo caso, mesmo não entendendo alguns de seus objetivos. Um exemplo foi um pedido de ajuda de meu marido para que a IA montasse uma tabela para uma apresentação a um cliente. Ele forneceu todos os dados, com os nomes das pessoas e as informações numéricas. Ao fazer a conferência, reparou na presença de alguns nomes não oferecidos; um deles era Heitor Villa-Lobos. Ao questionar a ferramenta, ela inicialmente negou o erro e disse ter utilizado apenas o que foi ofertado. Quando deparada com a relação de dados inventados, respondeu simplesmente que “às vezes, poderia se enganar”. Brinquei que, se a conversa fosse falada e não escrita, o final da frase viria com um risinho cínico. Em sustentações jurídicas, já vi casos da IA inventar jurisdições para sustentar teses, na maior cara de pau.
Sei que é muito difícil se colocar contra a inteligência artificial, assim como é quase impossível trabalhar com comunicação e não utilizar as redes sociais. A maioria das pessoas usa essas ferramentas, e ficar de fora pode significar ostracismo social e profissional. Pelo que ouço falar, quem trabalha com escrita, no mínimo, tem usado a IA para revisão e edição dos textos.
Até o momento, tenho optado por ser considerada uma dinossaura decadente a me render a uma ferramenta em que não confio. Prefiro continuar com meus vícios de linguagem, meu excesso de que(s), gerúndios e advérbios, do que submeter meus textos a uma máquina de controlar e padronizar pensamentos. Acho melhor ser mal interpretada por incompetência em demonstrar minhas ideias do que deixar uma empresa poderosa falar por mim.