
Quando era criança, a vida toda em uma escola conservadora, tinha vergonha de dizer que meu pai era de esquerda e votava no PT. Só queria ser igual aos coleguinhas, passar despercebida. Eu já não tinha mãe, e meu pai era escritor e barbudo, aspectos que chamavam atenção. Quando questionada, mentia, dizendo que ele ia votar no PSDB — como quase todos os pais e familiares dos meus amigos. Não entendia nada de política, muito menos sobre o que significava, de fato, ser de direita ou esquerda. E, naquela época, anos 2000, ambos os lados eram menos radicais e ainda não existia essa intolerância que assola o Brasil hoje.
Cresci, sempre com ideais e valores de esquerda, e, desde que pude votar, com dezesseis anos, claramente me posicionei, sem nenhum desconforto. Quem sabe quem sou (e com quem ando) não tem dúvidas sobre o que e quem defendo.
Com todos os privilégios (branca, classe média, heterossexual), meu posicionamento nunca foi sobre meus interesses, e sim sobre as pessoas que realmente precisam de políticas públicas, que contam com elas para (sobre)viver. Fui embora do Brasil enquanto Bolsonaro governava, sem olhar para trás, horrorizada com as atrocidades realizadas em seu mandato. Não dá pra esquecer. Um dos motivos que me expatriou: a violência, legado claro da desigualdade social. Uma das soluções? Auxiliar essa população mais vulnerável a sair da pobreza, da miséria. Pauta de qual lado mesmo?
Os resultados do primeiro turno das eleições são lamentáveis.
Estamos em uma era extremamente individualista, em que as pessoas não pensam, nem vivem, de fato, em comunidade. Tudo pra mim, nada para os outros. O resultado das eleições é um reflexo irreparável disso.
Quarenta e sete por cento dos votos foram em Flávio Bolsonaro. Quase metade dos eleitores. Isso não é apenas uma divergência política, cada um defendendo seu projeto, é um retrato de como deixamos de nos relacionar com o outro, de ter empatia, de pensar no próximo.
Na escolha do voto, a pergunta deixou de ser “que país eu quero construir/deixar para os meus filhos?” e passou a ser “o que esse candidato faz por mim?”, ou promete que fará. Pelo meu bolso, pela minha propriedade, pela minha segurança, pelo meu ego. Se o vizinho passa fome, se a floresta queima, se povos originários perdem suas terras, bom, problema deles. Cada um por si.
Não se enxerga o Brasil como pátria. Enxerga-se como terra, como posse. Um lugar para enriquecer, desmatar, extrair o que der e seguir em frente. Cada um no seu quadrado, em seus paraísos criados artificialmente, atrás de portões, cercas elétricas e câmeras de segurança. Pátria pressupõe cuidado, pressupõe pensar em quem vem depois. Ninguém em sã consciência destrói a própria casa, a não ser que ache que essa casa é só um meio para um fim.
Sei que boa parte desses votos é fruto do ódio ao PT, a Lula. Antes, a desculpa era ser contra a corrupção, o que hoje já não funciona mais. Todos sabemos que nunca foi sobre isso; afinal, Flávio Bolsonaro está profundamente envolvido em denúncias nesse sentido. Criticar o governo é não só legítimo como necessário, e acredito muito em avaliar cada gestão com olhos abertos, e não ter políticos de estimação. Mas apoiar uma agenda política toda pautada no ódio pelo outro — intolerância religiosa e sexual, xenofobia, misoginia… — e uma agenda que visa enfraquecer direitos humanos, civis, sociais, ambientais; versus propostas de bem-estar, democracia e justiça social, não faz sentido. “São só promessas”. Sim, e as pessoas estão optando pelo discurso de retrocesso e autoritarismo. Quem vota por ódio não olha para o resto: o desmonte ambiental, a miséria, a fome, os direitos que parecem tão garantidos até o dia em que deixam de ser — e as consequências disso para absolutamente todos os brasileiros.