
É consenso da moderna psicologia clínica contemporânea a noção de que um trauma tem a capacidade de congelar o tempo. Não literalmente, mas experiências traumáticas podem permanecer insuficientemente integradas à memória autobiográfica, fazendo com que sejam revividas não como lembranças claramente situadas no passado, mas como eventos ainda presentes na experiência subjetiva. O mundo e a vida seguem, o tempo passa, mas parte da psique do indivíduo segue vinculada à experiência traumática, como se ela ainda estivesse acontecendo.
Essa é uma ideia hoje bastante aceita, mas que foi postulada já nos primórdios do desenvolvimento da psicanálise por um dos pioneiros do campo, Pierre Janet (1859 – 1947). Em seu estudo O automatismo psicológico: ensaio de psicologia experimental sobre as formas inferiores da atividade humana (1899), no qual argumenta que o psiquismo não é um organismo único, e sim uma síntese de elementos ideativos e afetivos que podem ser desorganizados por diversos fatores, Janet observa que o trauma interfere na integração normal das lembranças, levando a estados dissociativos, flashbacks e reações emocionais que reproduzem aspectos da situação original.
Outro nome, o psiquiatra holandês Bessel van der Kolk, fundador e diretor do Trauma Center (Centro de Trauma) de Massachusetts, sistematizou mais tarde esse conceito ao mostrar que indivíduos traumatizados frequentemente respondem a estímulos atuais como se o perigo inicial continuasse a existir, permanecendo psicologicamente “fixados” ao acontecimento traumático.
As pesquisas mais recentes sobre transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) reforçam essa interpretação ao demonstrar que o trauma altera processos de memória autobiográfica e percepção temporal, dificultando a distinção entre passado, presente e futuro. Pessoas traumatizadas podem experimentar recordações intrusivas que produzem uma sensação de repetição do acontecimento, como se vivido, não apenas recordado, e acompanhado pelas mesmas respostas fisiológicas e emocionais desencadeadas pelo evento original. É um corte no desenvolvimento psíquico que leva passado e presente a se misturarem, não deixando espaço para ideações de futuro, dada a força gravitacional inescapável do trauma mil vezes revivido. Estudos sobre o processamento temporal em pacientes com TEPT indicam justamente que a ruptura da continuidade temporal é um dos mecanismos centrais da manutenção do sofrimento traumático.
Eleição
Não consegui deixar de pensar nisso nestes dias intermináveis após o encerramento das urnas no primeiro turno. Porque parece ser isso o que a consciência coletiva do Brasil vive no momento. O aspecto mais cansativo do bolsonarismo, como o trauma coletivo que essa corrente nefasta realmente é, é a sensação opressiva de eterno retorno ao acompanhar as justificativas e argumentos daqueles que estão muito confiantes em reviver 2018 e 2022 como se nada tivesse aprendido desses dois episódios particularmente funestos da história recente.
De repente, lá estamos nós de novo lidando com o mesmo discurso direcionado basicamente à mesma candidatura. Sim, o Bolsonaro apresentado agora como candidato é outro. Mas, dada a ascendência autoritária e sociopática que o Bolsonaro pai sempre se orgulhou de declarar que vigora na família, ninguém, nem mesmo os bolsonaristas, nega que eleger Flávio é reeleger Bolsonaro, o verdadeiro manipulador dos cordéis de todos os seus filhos. Se houvesse necessidade de uma prova, ela foi dada recentemente, quando Flávio, após evitar se manifestar sobre como votaria na apreciação da proposta 6×1, provavelmente tentando atrair votos incautos de quem não quer mais o atual governo, mas apoia a ideia, decidiu se posicionar diretamente após uma visita ao papai condenado. E mesmo assim, enquanto se jactam de seu voto, os bolsonaristas seguem apresentando os mesmos argumentos de 2018, que todos sabem ser lorota ou cinismo. Em 2018, muitos ainda tinham o benefício da dúvida de serem simplesmente burros, mas hoje essa narrativa não se sustenta mais. Rebatendo um texto que circulou muito naquele ano, e que dizia: “sua tia não é fascista, está sendo manipulada”. A essa altura, oito anos, 700 mil mortes na Covid, alguns milhares de hectares queimados na Amazônia, congelamento de verbas para programas de saúde popular, depois, me desculpa aí, filho, essa porra dessa sua tia é fascista pra caralho.
Recorrências
Bolsonaristas dizem hoje, do mesmo modo como diziam em 2018, que votam pela alternância de poder. No filho de um presidente condenado por tramar um golpe de Estado que não previa apenas continuidade no poder após perder uma eleição, mas a eliminação física de seus opositores, incluindo o presidente que havia sido eleito. Se fosse por alternância de poder, a maior parte dos demais candidatos com visibilidade neste pleito era de direita, incluindo o mofado Caiado e o dan-dan Renan. Todos com seus problemas, mas nenhum deles tão umbilicalmente vinculado à estrutura de uma tentativa de golpe que rolou há apenas quatro anos. O filho já deixou claro que concorre para anistiar o pai. É isso continuidade?
Bolsonaristas dizem hoje, do mesmo modo como diziam em 2018, que votam contra a corrupção. No candidato do PL, o partido que é praticamente a Meryl Streep de qualquer escândalo: não importa de onde venha, você vai ter lá uma indicação. O mesmíssimo partido de Valdemar Costa Neto, Sóstenes Cavalcanti, Pastor Gil, Carlos Jordy, João Bosco Costa e companhia, todos condenados por corrupção. O mesmo Valdemar Costa Neto, que foi condenado nas investigações do Mensalão, esse escândalo que, para o eleitor bolsonarista, invalida o voto no PT. Mas, curiosamente, não invalida o voto em um dos partidos que mais tinham parlamentares envolvidos no escândalo. Além do próprio candidato, que pediu em circunstâncias estranhas dinheiro para um banqueiro comprovadamente corrupto (e que só se tornou banqueiro na gestão liberalíssima do Bozo pai) para financiar um filme até hoje inexistente, traz no currículo situações mal explicadas de divisão indevida do salário de seus funcionários de gabinete – as famosas “rachadinhas” –, ligações equívocas com integrantes de milícias e um patrimônio inexplicável. É esse o seu voto? Bom, o voto é seu, mas anticorrupção é que não é.
Bolsonaristas dizem hoje, do mesmo modo como diziam em 2018, que votam para o país voltar a crescer e para a economia melhorar. Mas este candidato já anunciou seus modelos. Trump nos EUA, numa crise social com poucos precedentes, e Milei na Argentina, em que a economia está em colapso. E, sendo Flávio um segundo Bolsonaro (literalmente), é só olhar também para o precedente do governo do papai. Taxa de desemprego elevada durante boa parte do mandato e inflação alimentar, resultando no aumento da insegurança alimentar severa e da extrema pobreza no país – algo que o atual governo conseguiu reverter em parte,
Curiosamente, é o atual governo o acusado de “quebrar o país”, quando o Real esteve entre as moedas que mais perderam valor em relação ao dólar no período Bolsonaro. A incerteza política, os ruídos institucionais e as dúvidas fiscais encareceram insumos importados e pressionaram a inflação interna, e o famoso e agora defendido teto de gastos foi perfurado sem cerimônia com a aprovação de sucessivas PECs para expandir gastos em ano eleitoral (como a PEC dos Precatórios e a PEC Kamikaze).
Pandemia
Bolsonaristas dizem hoje, do mesmo modo como diziam em 2018, que votam porque o Brasil precisa de educação e saúde. Esses em específico eu não me sinto nem vontade de virar voto, e sim de virar a mão na cara.
A pandemia foi há menos de uma década e matou 700 mil pessoas. Muitos, mas muitos de nós perdemos alguém. A pandemia chegou de surpresa, dizem os defensores. Não, não chegou. Chegou de surpresa para a China e para a Itália, dois países que tiveram o primeiro impacto. Depois disso, qualquer país com um governo decente estaria se pondo em alerta. Não foi o que fez o Brasil. Também não foi o que fizeram os EUA, porque o governante da época já era esse mesmo Trump de hoje, o que mostra o quanto o seu político estar alinhado com ele é um problema.
Quando a pandemia chegou, Bolsonaro trocou duas vezes seu próprio Ministro da Saúde, negligenciou negociações com uma empresa, a Pfizer, para compra de vacinas. Torpedeou publicamente a Coronavac, fruto de uma parceria internacional com produção nacional e à disposição antes das demais. Na época, João Dória, político de direita, mas com um projeto pessoal de longo prazo que se beneficiava se desvinculando de Bolsonaro, iniciou a vacinação em São Paulo, e a pressão da opinião pública levou Bolsonaro a finalmente garantir a compra de vacinas – mesmo assim, sempre dizendo, contrariando toda e qualquer ciência epidemiológica, que “vacinação deveria ser escolha do cidadão”. Conseguem imaginar cenário semelhante hoje com Tarcísio em São Paulo? Esse é só um sintoma da forma como o bolsonarismo engoliu e colonizou a Direita.
Alguns defensores de Bolsonaro andam aparecendo nas redes querendo dar gaslighting em todo mundo com a narrativa de o Bozo só não comprou vacinas porque não havia ainda liberação da Anvisa. É uma farsa argumentativa, claro, porque isso nunca o impediu de fazer propaganda do famigerado “Kit Covid”, usando para a Covid medicamentos produzidos para outra coisa, como a cloroquina e a ivermectina. Eu estava lá, a maioria de vocês também estava. Quem repete essa narrativa mentirosa é mais do que alienado, é mal-intencionado mesmo.
Também por isso eu sou um dos mais implicantes com a noção fictícia de “votei no Bolsonaro e me arrependi”, porque o mundo real está nos mostrando que bolsonarista arrependido é um conceito tão fantástico quanto fadas ou gnomos. O que é real é uma tentativa recorrente de agressão pelo voto, a consagração de uma mentalidade “quanto pior, melhor”, o gozo perverso do troll com seu sorriso de Coringa rindo pela destruição do mundo alheio.
E ao resto de nós, o que sobra é a repetição do trauma a cada quatro anos, pelo visto.
Dito isso, o trauma não é soberano e pode ser confrontado. É difícil, mas o momento é agora.