Vamos falar de petróleo, então? Mas recomendo que mimetizemos as petroleiras: não fiquemos na superfície; perfuremos o solo e cheguemos à profundidade. E que seja pra valer. Ah, o Trump estava afim de pegar o petróleo venezuelano? Nenhuma dúvida, até porque ele próprio confirmou na maior cara dura. Só que realmente não é apenas isso que o levou a tirar o Maduro do circuito. Ou até é, mas com efeito secundário. Essa figura nefasta e desprezível que é o Maduro também é ele em si um produto do petróleo. Perigoso como o petróleo. Maléfico como o petróleo. Por interesses alinhados com o que há de mais obscurantista no mundo, que são os aiatolás e o extremismo islâmico, o Maduro descarrega com ar de deboche um discurso antissemita e antiocidental recheado de clichês, inacreditável. Certamente era uma generosa porta de entrada pros seus amigos na América do Sul. Por isso, como cheguei a comentar na coluna da semana passada, rejeito convictamente, toda a vida, a invasão estado-unidense àquilo que consideram o seu quintal (a América Latina), mas respiro aliviado ao saber que aquele sujeito capaz de conversar com um passarinho médium tenha sido tirado de circulação.
Convivo bem com essa ambivalência, que acho até bastante sadia. É o sintoma de que a minha sensatez continua intacta em meio a tantas armadilhas retóricas numa polarização que estabelece princípios dogmáticos à direita e à esquerda.
Mas vamos lá: todos já falamos sobre o interesse dos EUA no petróleo venezuelano e também sobre a intenção de proteger os petrodólares diante de chineses e russos. Só que o petróleo realmente move o mundo, e não só os EUA. Por que será que a União Soviética foi o primeiro país a reconhecer o incontestavelmente urgente e necessário Estado de Israel na sua refundação em 1948, mas depois se aliou aos países árabes com suas reservas de ouro preto? Por que será que a Tchecoslováquia, do bloco socialista (soviético), num primeiro momento armou Israel quando o Estado judeu, ainda desprovido da indústria bélica que infelizmente se viu obrigado pelas circunstâncias a desenvolver, precisou reagir aos países árabes que não o aceitavam já em maio de 1948, mas depois abraçou os árabes e sua expansionista visão panarabista contra o pequeno e legítimo Estado judeu, jogado, por sua vez, no colo do “imperialismo americano”? Você nunca achou estranha essa virada de casaca do bloco socialista em relação ao novo, urgente e inquestionável Estado judeu com a sua vocação social-democrata? Sim, amigo, o petróleo não tem ideologia, e os EUA não são o único país que o cobiça.
Agora voltemos ao século 21, porque o petróleo ainda dá as cartas. Por que essa “dissonância cognitiva que beira a patologia” – como definiu maravilhosamente a colega Lygia Maria na Folha de S. Paulo – de setores preponderantes da esquerda em relação à atual revolta contra os asquerosos, cretinos, misóginos, homofóbicos e opressores aiatolás no Irã? Segue a lúcida Lygia com seu raciocínio límpido: “A causa é o antiamericanismo da Guerra Fria que, aliado ao relativismo cultural pós-moderno, exclui complexidades e elege os EUA e seus aliados como os vilões da narrativa. Assim, o silêncio de parte desse grupo ideológico sobre os protestos contra o regime dos aiatolás, que varrem o Irã desde 28 de dezembro e vêm sendo reprimidos brutalmente, não chega a espantar, mas é de se recriminar, pela incoerência e pela falta de qualquer laivo de moralidade.” Excelente. Cirúrgico. No alvo. Mas pergunto eu: o que está no fundo desse silêncio cúmplice? Por que essa defesa seletiva de minorias e dos direitos humanos? É incontornável dizer que tudo isso ocorre por causa do petróleo, esse combustível do atraso, que mobiliza direita, esquerda e pragmáticos disfarçados em fantasias ideológicas hipócritas. É essencial esclarecer que a Guerra Fria também atendeu a interesses nada ideológicos.
…
O petróleo é a danação da humanidade.
No sentido geopolítico, estabelece conflitos e alianças nem sempre genuínas em termos ideológicos. Influi na repartição do poder global, não só pelos casos citados aí em cima. Cria instabilidade, dependência e volatilidade econômica pelo maior ou menor aperto do torniquete ao sabor das circunstâncias.
No sentido ecológico, contamina a água e o solo. Asfixia a fauna, em especial aves e peixes. Bloqueia a fotossíntese. Danifica o ambiente. Contribui para o efeito estufa ao liberar gases como o CO2. Provoca mortalidade massiva, infertilidade e destruição de ecossistemas. Reduz a biodiversidade.
Ou seja, o petróleo é combustível do mal.
…
Poema pra Greta Thunberg
Greta, Greta, Greta, Greta
Expliques por que motivo
Não te metes nesta treta
Gritemos contra os aiatolás?
Ah, são aliados ocasionais…
E sustentadores do Hamás
O petróleo não era antiecológico?
Ah, tá certo, de ti já nada espero
Que possa ter algo de lógico…
São contra tudo o que defendias
Mas a cegueira antissemita
Até emperrou as tuas flotilhas
Se fosses ao Irã pelo mar
Viverias o real inferno
E não voltarias pra contar
…
Dica de cinema
Tropecei num filme ao consultar o catálogo da Prime por outro motivo. As abordagens do Holocausto e do antissemitismo sempre me são caras. E, nesse caso, pareceu haver algo diferente. Em “The Survivor” (“A Luta de uma Vida”, dirigido por Barry Levinson, 2021), o sobrevivente e lutador Harry Haft tem a vida esmiuçada a partir da biografia escrita pelo próprio filho. O filme mostra como Harry, após servir de lutador nos campos de concentração pra diversão dos nazistas (tipo rinha de galo envolvendo judeus), viu-se impelido pelo amor a continuar no ramo mesmo após conseguir a liberdade e aportar nos EUA. Chegou a enfrentar o ícone do box Rocky Marciano. Motivo: fazer chegar à namorada Leah a informação de que estava vivo. Harry tinha certeza de que Leah também sobrevivera. Era algo intuitivo. A vida seguiu, e a luta idem (aliás, a luta pela vida nos ringues sempre foi muito afro, mas também pode ser muito judaica). Ele se casou com Miriam e teve filhos. E aqui entra algo interessante. O amor romântico muitas vezes é um símbolo de algo mais amplo. Amor é algo maior que o romance. Que o diga Dante, que nem sequer teve uma relação com Beatriz, mas foi ela quem o conduziu ao paraíso. Que o diga Ulisses com Penélope ou Dom Quixote com Dulcineia. Que o diga até o Odair José, que cansou de explicar que o tema das suas músicas era o amor romântico por ser a origem de tudo.
Lindo o filme. Harry (Henrique) se chamava Herschel entre os judeus e se casou com Miriam. Puxa, Herschel (Henrique) e Miriam são os nomes dos meus pais. E Leah, bem… meu nome é Léo. Lá sei eu. Esse filme me comoveu. Recomendo.
Ao Harry (Henrique, Herschel), um recado: continuamos na luta!
Mesmo tendo o petróleo e a ignorância a nos atrapalhar.
Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann AQUI.
Foto da Capa: Freepik

