É verão, época em que muitos gostam de relaxar junto ao mar nas muitas praias maravilhosas do Brasil. Mas mesmo naquelas que parecem intocadas há uma ameaça invisível e perigosa. Não se engane com a calmaria da maré ou com a beleza do sol nascendo no horizonte. Enquanto você abre seu guarda-sol na areia, uma invasão silenciosa e implacável está em curso. Seus inimigos não chegam em navios de guerra, mas em frações de grau Celsius, em quedas de pH e em partículas microscópicas de plástico – sinais do aquecimento global, da acidificação dos oceanos e da poluição química e plástica. E eles vêm para tomar a sua praia. E não há nada que seu guarda-sol, seu protetor solar ou o mutirão de limpeza do fim de semana possam fazer para impedi-los.
A verdade inconveniente é que a sobrevivência da sua praia favorita não depende mais da consciência local. Esgotos e lixo visíveis ainda são um problema em muitos lugares, mas há ameaças muito mais amplas. A praia de Ipanema, no Rio, a de Jurerê, em Santa Catarina, ou aquela pequena enseada deserta no litoral da Bahia estão todas na linha de frente de uma guerra cujas batalhas são travadas a milhares de quilômetros de distância. A fumaça de uma indústria em outro continente, o escapamento de um carro em uma metrópole congestionada e o lixo plástico descartado em um rio longínquo formam o exército que, agora, desembarca em todas as costas do mundo.
O primeiro batalhão desta força invasora é o aquecimento. Os oceanos, nossos grandes protetores, absorveram mais de 90% do calor extra que geramos. Mas essa proteção tem um custo. A água, ao aquecer, expande-se. Some a isso o derretimento das geleiras, e o resultado é o aumento inexorável do nível do mar. A ciência é categórica: até metade das praias arenosas do mundo pode simplesmente desaparecer até 2100. Não é uma questão de “se”, mas de “quando”. Muitas praias não terão para onde recuar; espremidas entre o mar que avança e o concreto das nossas cidades costeiras, a faixa de areia simplesmente desaparecerá (fenômeno conhecido como costal squeeze – literalmente: “espremedura costeira”).
De mãos dadas com o calor, vem o segundo batalhão: a acidificação. Pense nela como a artilharia química desta invasão. Ao absorver o excesso de dióxido de carbono da atmosfera, os oceanos estão se tornando mais ácidos a um ritmo sem precedentes. A acidez da água do mar já aumentou 30% desde a era pré-industrial. Isso corrói as fundações da vida marinha. Os recifes de coral, as barreiras naturais que protegem 25% da vida marinha e dissipam a energia das ondas antes que elas destruam a costa, estão sendo duplamente atacados: o calor os branqueia até a morte, e a acidez dissolve seus esqueletos. Sem eles, as praias ficam indefesas, expostas à força bruta de um oceano cada vez mais tempestuoso.
E então, há a infantaria desta guerra: a poluição por plástico. Onipresente, muitas vezes invisível e mortal. No Brasil, um estudo recente chocou ao revelar que quase 70% de nossas praias já estão contaminadas por microplásticos. São fragmentos minúsculos, muito menores que um grão de areia, que se infiltram em tudo. Eles são o resultado da degradação de 1,3 milhão de toneladas de plástico que despejamos nos oceanos todos os anos, apenas no nosso país. Esses pequenos pedaços de lixo agem como esponjas tóxicas, absorvendo pesticidas e metais pesados. São ingeridos pelo plâncton, pelos peixes, pelas tartarugas e sobem pela cadeia alimentar até chegarem ao nosso prato. A areia sob nossos pés está se tornando, literalmente, um aterro tóxico.
O que torna esta invasão tão devastadora é a sinergia entre seus componentes. O calor acelera a quebra do plástico. A acidez torna os animais marinhos mais vulneráveis aos venenos que o plástico carrega. As tempestades, mais fortes por causa do calor, não só erodem a costa, mas também levam mais lixo para o mar. É uma tempestade perfeita, um ciclo de destruição que se autoalimenta.
A visão de que podemos salvar “a nossa praia” com ações locais é ilusória. Limpar a areia é nobre, mas insuficiente. A praia mais limpa do mundo não pode construir uma cúpula para se proteger da elevação do mar. A água mais cristalina não pode se isolar da química global que a torna ácida. As correntes oceânicas, que não respeitam fronteiras, trarão o lixo de outros continentes até a nossa costa.
A guerra pelas praias do mundo não será vencida apenas coletando o lixo e outras boas intenções praticadas em escala local. Ela será vencida essencialmente em conferências climáticas globais, com tratados internacionais vinculantes para a redução de emissões e com uma revolução na forma como produzimos e consumimos plástico. A luta para salvar a sua praia é a luta para salvar o planeta.
Da próxima vez que você for à praia, olhe para o oceano. Não veja apenas um lugar de lazer, mas a linha de frente de uma crise global. A invasão está em andamento. E o mar, nosso antigo aliado, foi tomado por um exército que agora avança sobre a terra. A questão não é mais se eles vão invadir a sua praia. A questão é o que faremos, como civilização, para detê-los.
Nota:
(1) Em junho de 2024, publiquei aqui na Sler uma coluna com o título “Nós vamos invadir sua praia”. A coluna discutia a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 3/2022, apelidada de “PEC das praias”, e usava como título uma música do grupo “Ultraje a Rigor”. Esta nova coluna é sobre uma invasão ainda mais perigosa. Para ver mais detalhes sobre essa nova “invasão”, consulte o livro “Planeta Hostil”.
Todos os textos de Marco Moraes estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

