
Os meus dois ou três leitores sabem que Lola, meu border collie, sofreu um acidente na pata, passou por duas cirurgias e agora está no período de recuperação. Tudo é muito lento e devagar nesse processo, e qualquer descuido pode ser fatal, e a pata de Lola, novamente, necessitar de intervenção. Meu trabalho resume-se a evitar, desde que fez a segunda cirurgia, que ela faça tração na pata e curativo, como disse o veterinário, até cicatrizar bem.
Pois não é tão simples assim o processo de cicatrização. Durante duas ou três semanas, troquei diariamente. O que me incomodava eram dois pontos que pareciam não fechar. Seriam peças da cirurgia tentando atravessar o couro? Seriam pontos que não fecharam direito ainda e precisavam de mais tempo? Eu não sabia, apenas fazia o curativo.
Remoendo feridas
O problema com situações que nos causam dor é sempre ficar remoendo nossas feridas. Lola fez isso nas duas vezes em que tentamos, D. e eu, retirar o curativo. Deixar sem era a recomendação do veterinário, “para o ferimento respirar”. Por duas vezes nesse período, após o envio de fotos, o veterinário recomendou o anti-inflamatório. Observo, e parece que ajudou, menos inflamado. Mas ela insistia em tocar com a língua os pontos que ainda tinham casca, e o resultado é que a ferida não cicatrizava, abria, ficava vermelha. Lola não reconhece os limites que tento lhe impor, não entende que o que traz alívio imediato para ela, o ato de lamber, colabora no retardamento da cura.
Pois é, você vai me dizer que o país está passando por uma tremenda crise institucional, à beira da decisão política mais importante de sua história recente, porque pode levar ao avanço ou retrocesso político democrático, e eu aqui, preocupado com a pata de um cachorro. Você vai me dizer: “Menos, Jorge, menos”. Pois é. O problema é que não vejo melhor imagem para compreender nosso momento político. Olho a pata de Lola enquanto refaço o curativo no mesmo horário em que, na TV, está passando o horário político. É uma forma de me ocupar enquanto aguardo a propaganda de Lula e silenciar a TV no horário em que preciso suportar a propaganda política de Flávio Bolsonaro.
Olho Lola tentando lamber a ferida aberta que aqueles dois pontos em sua pata representam; vejo sua compulsão, essa atração irresistível, e não consigo imaginar imagem melhor enquanto vejo as pesquisas eleitorais: como é possível que a extrema direita possa atrair tantos votos em nosso país? Imagino então que essa atração irresistível de Lola por suas feridas seja da mesma natureza da política: a minha ideia é que a ferida brasileira é o bolsonarismo, que não cicatriza porque somos incapazes de reconhecer, como Lola, os limites institucionais, éticos e morais que permitiriam a cura do país, exatamente como ela não percebe os limites necessários para sua cura.
Pesquiso e descubro que a palavra ferida vem por derivação, do particípio feminino de ferir, “aquilo que foi ferido”, que procede do latim ferire, que significa bater, golpear, ferir. É relacionado ao grego trauma, que remete não apenas à ferida corporal, mas à experiência que marca, que deixa vestígio e choque emocional que transforma, que amplia seu significado. A ferida, portanto, não é apenas ruptura – é também abertura. É o ponto de contato entre o interior e o exterior, entre o próprio e o outro, entre o que somos e o que nos acontece. Slavoj Žižek, em O sublime objeto da ideologia (Civilização Brasileira, 2024), diz que “a ferida é curada quando não é mais experimentada como ameaça, e o sangue flui livremente dela. A ferida é nossa imortalidade, é o que nos impede de morrer – não somos animais por causa da ferida.” Quer dizer, para Žižek, a ferida não é acidente na existência humana, é constitutiva. É o excesso de vida inscrito no corpo biológico, o que nos torna “não-mortos”, o que nos impede de morrer em paz.
A ferida política
Gosto desta imagem, porque a ferida deixa de ser o dano – esse buraquinho na pata de Lola que não cura – para se tornar algo que sustenta a sua existência. Penso que também o corpo político de um país sente dores, pode ser ferido e mesmo tem traumas que têm o poder de o destruir, exatamente como o ferimento da pata de Lola em seu processo de cura. Olho o horário político, estou fazendo o curativo na pata e penso no que aconteceu desde o golpe de 2016, que levou à ascensão da extrema direita. A velocidade de seu avanço foi cruel, e ela produziu na democracia brasileira uma ferida que ainda não conseguimos curar, e o pior é imaginar que ela possa estar se tornando parte de nossa cultura política. De agora em diante, conviveremos com propostas políticas que se alimentam da guerra cultural, das fake news, da erosão de consensos e acharemos que tudo isso é normal. Mas, sem consensos, não há como fechar essa ferida. Se não temos consenso com relação ao caráter destruidor da proposta de Flávio Bolsonaro, é porque já a internalizamos como normalidade, o que para mim é assustador.
Se milhares de pessoas afirmam que votam em Flávio Bolsonaro, isso para mim se assemelha ao gesto de Lola quando lambe sua própria ferida. Como a língua, o voto é, ao mesmo tempo, instrumento de cuidado e autodestruição. Votar em quem se acredita alivia, traz conforto, mas, quando se trata de política, também reabre, inflama e impede a cicatrização da ferida bolsonarista em nosso país. Essa parcela da sociedade não consegue distinguir entre cuidar e agravar a situação de um lugar, e age como Lola, que também não consegue evitar o gesto: ambos não conseguem projetar no tempo as consequências de seus atos.
Já falei aqui de uma autora que gosto muito, Luigina Mortari, que, em sua Filosofia do cuidado (Paulus, 2018), o define como “uma prática que acontece em uma relação” orientada ao bem-estar do outro. O cuidado, para Mortari, envolve responsabilidade, generosidade, respeito e coragem – posturas éticas que qualificam o agir humano. Você fala das conquistas de Lula para seu vizinho ou familiar bolsonarista, mas nenhum deles pensa mais em cuidar do país com um bom governo: aqui, a eleição como o momento do cuidado com o país se perverteu; ela atende apenas à obsessão de uma população dividida pelo próprio ponto de dor. Como não pensar no bolsonarismo como ponto de dor, quando foi o responsável pela morte de 700 mil pessoas com a Covid? Quando Lola lambe a sua ferida, ela acredita estar cuidando dela, como os que votam em Flávio Bolsonaro acreditam que estão curando um país, mas estão, na verdade, impedindo sua cura, que o país possa prosseguir e ser um lugar melhor.
A necessidade de limites
Nem o corpo do cão, nem o corpo político de extrema direita, reconhece limites. A extrema direita transformou a “liberdade de expressão” em “carta branca para espalhar mentiras” e “difundir preconceitos”. Não foi esta a justificativa para atacar o vídeo de Fábio Porchat nas redes sociais (veja aqui )? Certa vez, formulei para os alunos que atendia a ideia de cuidado político, baseado em Mortari: precisamos proteger o debate público e isso é o cuidado democrático por excelência. Pergunto a você: o que faz a extrema direita? Ela apenas destrói, destrói as bases do bom debate. Como observa Miguel (disponível aqui): “Uns querem carta branca para espalhar mentiras. Outros, para difundir preconceitos e incitar violência.”
O veterinário me recomendou que usasse com Lola o colar elisabetano, não como punição, mas como cuidado. Olho meu esforço para cuidar da pata de Lola, para que ela não destrua a cura que o corpo tenta fazer sobre si mesmo. Como faremos isso com a sociedade brasileira? Como faremos para que a parcela dos cidadãos que desejam votar em Flávio Bolsonaro reconheça que, mesmo os políticos, eles também precisam de limites institucionais? Como dizer a uma população cansada da política que ela ainda precisa de consensos democráticos, freios e contrapesos? Como dizer que políticos como Flávio Bolsonaro, que ousam corroer essas bases, não podem fazer parte do processo político? É preciso retomar os limites da democracia para que suas feridas possam cicatrizar.
Mas a questão, como diz Žižek, é porque, mesmo sabendo que Flávio Bolsonaro representa o mal, essa parcela da população ainda vota nele. A resposta do filósofo esloveno é que essa ferida não cicatriza porque parte dessa população “goza” dela. Não é ignorância nem falsa consciência, é ideologia: com o bolsonarismo, a relação espontânea de parte da sociedade brasileira com o mundo mudou. Seu poder foi devido ao fato de que o bolsonarismo passou a estruturar o desejo dessa parcela da população, encarnar seu prazer, sua forma de experimentar a realidade. A ferida é, para Žižek, o sintoma que sustenta o sujeito; sem ela, ele desaparece. Por isso, é tão difícil acabar com o bolsonarismo: curar a ferida é perder o que os define. Quando Lola lambe a pata, não o faz apenas por dor – há um gozo no ato de lamber, há uma satisfação compulsiva que a prende ao ponto de ferida. O mesmo acontece com os bolsonaristas.
É ofensivo dizer isso? Não sei. É apenas a imagem que me ocorre para entender o que acontece tanto com Lola como com a política. Na minha humilde interpretação da psicanálise de Žižek para a política brasileira, reconhecer a força do bolsonarismo significa reconhecer que parte da sociedade goza da própria degradação democrática. Por quê? A extrema direita oferece o prazer da transgressão permanente, da destruição de instituições. Frequentemente nega a própria realidade na crítica à ciência. Sua propaganda humilha adversários e, por isso, é celebração de mais violência. Diz Žižek que “a violência objetiva é a violência sistêmica que sustenta o capitalismo”, e, nesse sentido, a extrema direita se torna a expressão política dessa violência. Se podemos conceber uma ferida ideológica nos termos de Žižek, é porque o que estamos assistindo não é acidente, é estrutura. Não é um fato momentâneo a ascensão da extrema direita em qualquer lugar do mundo. O que a torna perigosa é a possibilidade de sua continuidade enquanto houver gozo na autodestruição. Esse corpo político é como o de Lola: está preso num ciclo de prazer e dor que a impede de reconhecer os limites. Mas a política, tanto quanto a pata de Lola, precisa de cura. Como fazer?
Feridas subjetivas
O primeiro passo é entender o que está acontecendo. A teoria da ideologia de Žižek responde pelo funcionamento de nossas feridas subjetivas, na parcela da sociedade que vota em Flávio Bolsonaro, como a teoria veterinária responde pelo funcionamento da ferida objetiva em Lola. Essa resiliência do bolsonarismo, dez anos depois de seu aparecimento, é maior e só pode ser relacionada à crise terminal de que há muito tempo nos falava Robert Kurz. Ele dizia que, se o capitalismo vive sua crise terminal, o colapso não é apenas uma realidade econômica, é também política. Diz Kurz: “É a barbárie. E não é preciso esperar, ela já está aí. O capital não é mais capaz de utilizar a força de trabalho.” Aqui, barbárie, amigo leitor, para Kurz, não é regressão a um estágio anterior – é o destino do capitalismo quando esgota sua capacidade de acumular valor. Não é exatamente esse o projeto econômico de Flávio Bolsonaro? Copiar o projeto de Milei, que, na Argentina, levou à fome e miséria de milhares de argentinos. A extrema direita não é acidente na democracia brasileira: é expressão política do colapso estrutural do capital. Quando Anselm Jappe retoma o argumento de Kurz (veja aqui), é nesse sentido: “O fim da trajetória histórica do capitalismo corre o risco de nos empurrar a um ‘retorno perverso’ do sacrifício, a uma barbárie nova e pós-moderna.” E não tenha dúvida: quem será sacrificado é o pobre.
Assim, da mesma forma que Lola lambe sua ferida, o capitalismo segue acumulando mesmo quando não há mais valor a acumular. É essa ação compulsiva que é estrutural, diz Kurz (disponível aqui): “Nunca na história da modernização […] deu-se a situação de uma crise social mundial que erigisse um tal potencial de devastação ecológica e alcançasse tanta destruição e abandono cultural, até a tendência na direção de uma nova barbárie.” O modelo neoliberal predador do clã de Flávio Bolsonaro é a doença que causa a ferida; a cura necessita de superação, do reconhecimento daqueles que hoje se identificam com o bolsonarismo com sua liderança. Se Lola, para se curar, precisa parar de lamber a pata, os bolsonaristas precisam parar de votar em Flávio Bolsonaro. Como diz Kurz, é preciso parar o capitalismo em seu desejo de acumular. “Sem isso, a barbárie é o destino.”
Falei antes de minha surpresa com a velocidade com a qual se instalou o bolsonarismo em nosso país e sua capacidade de resiliência. Somente Paul Virilio deu-se conta do papel político da velocidade, fato assinalado por Lotringer na sua introdução a Guerra Pura (Brasiliense, 1984), em que aponta para o caráter político do “parar”. Essa velocidade de instalação do bolsonarismo só foi possível por sua associação com a tecnologia, exatamente o ponto apontado por Virilio. Ora, tecnologia e aceleração não produzem somente progresso, mas também catástrofe. Quanto mais rápido, mais se fere: é o acidente integral de que fala o autor. A rapidez do bolsonarismo está em como funciona seu aceleracionismo: destrói consensos, acelera a polarização. O colapso é o seu método. Fim do debate nas redes sociais por reações polarizadas e antissistema.
Políticas da língua
Olho novamente Lola lambendo sua ferida com a velocidade do capitalismo, que não freia: quanto mais rápido, mais se fere. A língua é instrumento de velocidade – toca, alivia, toca novamente – porque é sem pausa para cicatrização; a política da extrema direita é a língua acelerada: toca a ferida democrática, alivia com suas promessas simplistas as angústias dos cidadãos, toca novamente, sem pausa para reconstrução. Como uma fala tão prosaica consegue tanta audiência? Se posso parafrasear Virilio, depois da Universidade do Desastre (Galilée, 2007), título de uma de suas últimas obras, vemos a Política do Desastre: o acidente não é mais exceção, é a regra. A democracia não está ferida por acidente, mas porque há, no horizonte democrático, uma aceleração do trabalho da extrema direita no Brasil que impede que cicatrizem as feridas provocadas por Jair Bolsonaro. Por isso, é preciso parar o bolsonarismo: como diz Virilio, sem desaceleração, sem tempo para cuidar da política, de pensar no outro, não há cura possível.
As propostas de Lula vão na contramão de Flávio Bolsonaro, buscam a estabilização dinâmica, com crescimento econômico, aceleração tecnológica e inovação cultural. A aceleração proposta por Flávio Bolsonaro é o contrário: não é libertadora, mas uma pressão para produção de novos escravos. Mal tivemos tempo para cicatrizar as feridas de Jair Bolsonaro no governo de Lula, estamos agora reagindo de forma imediata às ofensivas da propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro. Há muitos outros teóricos que nos ajudam a entender o que estamos vivendo. A extrema direita continua alimentando, com sua propaganda, o que Hartmut Rosa, em sua obra Resonancia: Una sociología de la relación con el mundo (Katz Editores, 2019) chama de ressonância negativa: o medo, o ódio e a urgência, que não curam a ferida da sociedade, apenas a mantém em tensão. Na sua visão, assim como Lola que lambe a sua ferida, parcela da sociedade que vota em Flávio Bolsonaro não consegue mais parar, não consegue perceber os efeitos do bolsonarismo no corpo social do país, e por isso, não se curou dele ainda.
Como falam Paul Virilio e Jean Baudrillard, Rosa concorda que precisamos acabar com essa cavalgada aos extremos da política; é preciso desacelerar, ter tempo para cuidar. Sequer tivemos tempo para o luto pelos mortos da Covid, e muito menos para reconstruir as casas daqueles que foram vítimas de desastres naturais. Estamos muito confusos em termos políticos. Como fala o Luis Felipe Miguel, estamos vivendo a erosão dos consensos democráticos do país. O jogo político foi desorganizado com o golpe de 2016, e o efeito foi que discursos autoritários foram legitimados. É o câncer político de que fala Jean Baudrillard: essa ferida só cresce e pode nos matar porque é um projeto de retração democrática consistente. Se os consensos da Constituição de 1988 forem alterados, estaremos no caos. É exatamente esse o lugar a que nos dirigimos.
A militância não para
Este, como o leitor observa, é mais um texto de militância, pois a polarização eleitoral agora tem um novo significado, como afirma a cientista política Celi Pinto (disponível aqui): “não se trata apenas da alternância do poder, mas da própria preservação das instituições democráticas, pois o retrocesso autoritário está sendo puxado pela extrema direita.” O eleitor de Flávio Bolsonaro é como Lola, que lambe a ferida e se prejudica, pois vota contra as instituições que o protegem. Por isso, assim como é preciso ensinar Lola a não lamber suas feridas, é preciso educação política para que o cidadão tenha a ideia da importância do fortalecimento institucional. Flávio Bolsonaro vai na direção contrária porque ele deseja a sua destruição. Sei que dizer que a “sociedade está doente” é uma imagem fácil, mas precisamos simplificar para a população a questão em debate, de que se precisa de cuidado também nas eleições. Na sociedade brasileira, é o cuidado com as instituições, com os outros e conosco mesmos.
Vivemos uma sociedade individualista, que se aprofundou com a consolidação das redes sociais. Nunca se viu, no entanto, o momento mais importante para rompê-lo, de ir em direção ao outro. “Furar a bolha”, como se diz. Talvez a crise na candidatura de Flávio Bolsonaro com a fala sobre a padroeira do Brasil tenha sido este momento. Talvez não, só as urnas dirão. Como diz Mortari, o cuidado é uma “prática que acontece em uma relação orientada ao bem-estar do outro”. É preciso relembrar ao cidadão as posturas que são necessárias nesta eleição: que ele se sinta responsável pelas instituições, que recuse com o outro algo essencial, a ideia de ruptura democrática que a eleição de Flávio Bolsonaro representa; que tenha consideração pelo outro, o que significa também conscientizá-lo e, finalmente, que tenha coragem de fazer o que é necessário para isso. Para a ferida de Lola, eu não apago a ferida; eu a remendo, cuido dela, transformo em parte de que devo me preocupar, exatamente como deve fazer o cidadão com seu voto nesta eleição. Como Lola que lambe a sua ferida, não posso punir ou castigar aqueles que desejam votar em Flávio Bolsonaro, mas cabe a mim denunciar, reconstruir, educar e defender a importância de consensos mínimos.
Lola não está condenada a seu destino, à infecção que uma lambida possa provocar numa ferida. Se cuidada, ela pode cicatrizar. Como observa Žižek, “a ferida é curada quando não é mais experimentada como ameaça, e o sangue flui livremente dela”. O momento da consulta de Lola ocorrerá nesta segunda-feira, dia em que este ensaio é publicado. Eu só posso ter esperança na consulta veterinária, como tenho na consulta política: as eleições. A pata ainda possui alguma vermelhidão, que pode ser ou não infecção ou estar em processo de cicatrização; isso só o veterinário dirá. Da mesma forma, vejo inúmeras iniciativas de conscientização à parcela da sociedade que quer votar em Bolsonaro; se eles reconhecerem os problemas que ele pode causar, o corpo político estará imbuído de uma ética do cuidado. A ferida bolsonarista em nosso país poderá cicatrizar. Mas, se a vermelhidão de Lola for sintoma de infecção, da mesma forma, se elegermos Bolsonaro, estará aberto o caminho para a destruição das instituições. A infecção terá se alastrado demais para voltar atrás? Como a ferida de Lola, a ferida bolsonarista exige um cuidado coletivo, que passa por instituições, consensos e educação política.
O ponto de não retorno
Esse cuidado é necessário porque existe um ponto de não retorno. Jean Baudrillard, em La izquierda divina (Anagrama, 1985), explica de onde a imoralidade da extrema direita retira o seu poder. Estamos no limiar da cultura e da barbárie porque estamos permitindo que a imoralidade e seus vícios ocupem o lugar da moralidade e do sistema de valores positivos criados pela humanidade. Aliás, é exatamente esse o ponto de Baudrillard: o que tensiona a vida coletiva não é a bondade ou o bem, expressos pela moralidade e ciência, mas o contrário. Estamos atualizando o libertinismo das imagens, das ideias e dos signos do século XIX, quando a moralidade e a razão, o valor e a ciência, que guiaram o destino linear das sociedades, submergem a esta energia profunda do prestígio, dos impulsos antagônicos e sedutores, inclusive os suicidas, que nada têm relação com a moralidade social.
Por que polarizamos entre esquerda e extrema direita? Porque a rivalidade em todas as suas formas, inclusive a política, é uma arma poderosa e capaz de enfrentar a moralidade. A rivalidade é imoral, diz Baudrillard. Assim como a moda é imoral, e por isso mais forte que qualquer estética. Não foi exatamente assim que se fortaleceu a direita, construindo-se como signo de um novo modismo político? “Agora ser de direita é on”, como descreve Naomi Klein em seu Doppelgänger: Uma viagem através do Mundo-Espelho (Carambaia, 2024). Ser de extrema direita se tornou um estilo de vida. Esse é o libertinismo dos signos de que Baudrillard fala, e que está presente na política e é mais forte que as propostas dos partidos. Nos termos de Baudrillard, a extrema direita está na frente porque domina as regras do jogo, que são imemoriais, e a esquerda está perdendo porque segue a moralidade do trabalho. Não é assim a propaganda da extrema direita? Ela joga com os signos, produz fake news e, enquanto isso, a esquerda racionaliza e trabalha seu projeto social. Esse é o ponto, diz Baudrillard: a capacidade de sedução da extrema direita pode ser superior à da esquerda. E, se for assim, estamos perdidos, porque a sedução do poder é imoral. Vale tudo para conquistá-lo, pensa a extrema direita. À esquerda, não. É por isso que a sociedade vota neles? É o que Baudrillard chama de “gênio maligno do social”.
A corrupção dos signos
Qual é ele? O que o bolsonarismo colocou em evidência. Essa energia do vício de parcela da população, que não funciona com base em sistemas supostamente racionais do progresso, da ciência, da informação objetiva, do aumento da felicidade coletiva, mas que funciona com base nessa corrupção dos signos, que o espetáculo da política proporciona. A política bolsonarista é o desvio vertiginoso de todo o sentido da política, uma sedução que faz seus eleitores estarem dispostos a votar nele pagando qualquer preço. O bolsonarismo liberou estas energias imorais que se alimentam da mentira, desafiando a verdade com a qual a esquerda construiu sua trajetória. Esse é o ponto de Baudrillard: as energias mágicas ou arcaicas sempre defenderam a onipotência do pensamento contra a força do mundo real. A energia imoral bolsonarista corrói o pensamento, o significado, os valores.
E o ponto de Virilio, daquilo que ele denomina de dromologia, é que a extrema direita acelera o debate para impedir a reflexão, acelera as fake news para impossibilitar a defesa: o que foi essa fake news dita sobre Lula, de que teria criado o… tigrinho! Se não, uma máquina dromológica a serviço da produção de crises sucessivas para esgotar a capacidade de resposta política da esquerda? Não se reflete, só se reage imediatamente. Eu arrisco a dizer que, assim como a quebra da pata de Lola foi um acidente real que tomou conta de toda a minha família, a ascensão da extrema direita é o acidente integral da política de nossa época: ele afeta a todos simultaneamente e, para comprovar isso, basta ver a coalizão de interesses entre Trump e todos os demais extremistas de direita do planeta: não foi assim que foi retirado do ar não apenas o site de Lula, mas também o da própria CNBB? A prática da extrema direita já não é mais de um país ou de um lugar, mas é integral; concerne à extensão do mundo como um todo, nos termos de Virilio. Esta é a situação da crise democrática generalizada, o colapso do corpo político que estamos vendo dar-se de caráter sistêmico.
A estratégia da extrema direita
Uma das estratégias comuns da extrema direita para conquistar o poder é o que Virilio chama de “administração do medo”, título de um dos seus livros (L’Administration de la peur, Galilée, 2010). O que acelerou a sua expansão foi sua capacidade de administrar nossos afetos pelo medo, terror, pânico e insegurança por meio das redes sociais. Pânico aceleracionista que provém do sentimento de que as instituições não servem mais, de que se precisa de mão forte para agir agora. E, para isso, a extrema direita oferece a promessa de segurança das decisões rápidas, da intervenção direta nos locais conflagrados: o inimigo é claro, é o ladrão de celular e, assim, o eleitor de classe média e popular é fisgado. Diz Virilio: “Não será mais a guerra que é a continuação da política por outros meios; será o que eu chamei de ‘acidente integral’, que é a continuação da política por outros meios.”
Este novo funcionamento da política é perigoso. Quando ela passa a funcionar por reação imediata, como a lambida de Lola em sua pata, nada de reflexão é produzida para deliberação, para votar, e isso é o que interessa à extrema direita bolsonarista. De novo, é a pseudorressonância de que fala Hartmut Rosa: falsa sensação de conexão baseada em antagonismos compartilhados. Como observa Helter Pereira do Vale, nos termos de Rosa, “esta dissonância permitiu um movimento antissistêmico e a ascensão de Jair Bolsonaro, que ofereceu uma ‘pseudorressonância’ – uma falsa sensação de conexão baseada em antagonismo compartilhado – que finalmente acelerou a erosão democrática do Brasil.”
A eleição como guerra
O bolsonarismo não cria ressonância positiva (conexão com instituições, com o outro, com o mundo), ao contrário, cria ressonância negativa (ódio compartilhado, medo compartilhado, inimigo compartilhado), que acelera a crise porque mantém o corpo político em tensão permanente e, portanto, sem pausa para cura. Quando Zucco diz que “você está cansado disso tudo”, é a ressonância negativa de que fala Rosa, que, segundo ele, compõe uma das três formas de alienação produzidas pela aceleração: alienação de si, dos outros e do mundo. No Brasil, a alienação de si é quando o eleitor não reconhece mais seu próprio interesse na democracia lenta; a alienação dos outros é quando o adversário político vira inimigo existencial, não interlocutor, e a alienação do mundo é quando as instituições parecem “não responder” ou são lentas demais para o ritmo acelerado da vida.
Nesta revisão de literatura que conecta pensadores aos problemas políticos brasileiros, eles convergem para um diagnóstico: se a democracia é lenta por natureza porque exige deliberação, consenso e tempo, a sociedade acelerada não tolera mais lentidão. A extrema direita brasileira explora esta contradição e oferece velocidade onde a democracia oferece pausa, de onde a democracia oferece dúvidas, inimigo onde a democracia oferece interlocutor. Se há um descontentamento público com a natureza lenta e deliberativa das instituições democráticas, que produz dissonância entre cidadãos e o sistema político, não é a proposta destrutiva da extrema direita que é a solução. Ela só é mais da continuação da guerra por outros meios. As eleições do Brasil de 2026 são o lugar de vivência deste acidente integral: de uma crise que não é local, mas sistêmica; de um conflito do capital que não é temporal, mas estrutural.