
Adentrei o espaço literário composto por Jack Kerouac ainda na adolescência, inundado por sua prosa espontânea e pela potência de uma geração que parecia fazer da própria existência uma experiência literária. A Beat Generation chegou até mim não apenas como um movimento literário, mas como uma espécie de convocação à vida, à estrada, à experiência e à recusa de uma existência demasiadamente organizada. A estrada era a possibilidade, o caminho do desconhecido, a curiosidade sustentada após virar cada esquina. Senti isso ao estar, pela primeira vez quando menino, em Recife, depois em São Paulo, depois, mais tarde, também em outros lugares — a sensação de que tudo era novo, de que, a cada momento, existiam pessoas naquelas ruas e praças que antes eu nunca tinha visto — foi e ainda é curioso pensar nessa geografia mutável e flutuante das grandes cidades. É algo que sempre me pega e me coloca a ponderar, em torvelinhos, sobre seja o que for a matéria da existência. Havia também, naqueles livros, alguma coisa que ultrapassava a literatura: uma maneira de estar no mundo, de percorrê-lo, de experimentá-lo em sua intensidade e, sobretudo, de não aceitar passivamente os limites que pareciam previamente estabelecidos para uma vida.
Hoje, algumas dessas imagens retornam à memória — de tempos em tempos, elas reaparecem, e me recordo de Kerouac diante do porto, enquanto o vento faz esvoaçar o seu lenço pendurado ao pescoço, ou das ruas laterais de sonho em Tristessa. Penso nele em uma entrevista, ao dizer: “Estou farto de mim”. A lembrança de Viajante Solitário também reaparece, trazendo consigo a sensação de deslocamento, de estradas percorridas, de encontros passageiros e de uma solidão que, paradoxalmente, nunca parecia ser completamente vazia. Esse livro, em específico, me incentivou a viajar pelas estradas da América do Sul, pegar as suas ferrovias, andar sob um céu noturno nas linhas de trem que conectam um vilarejo no Peru a Águas Calientes. Tudo isso para ser inundado pela beleza de Machu Picchu. Lembro de ter pensado: por aqui passavam os Incas. Quais seriam os seus sonhos? Qual seria a textura de seus amores? Em qual idioma sonhavam? Quais palavras utilizavam para compor o mundo? Tudo isso era tão fascinante!
A viagem frenética de On the Road também retorna, com seus personagens atravessando cidades, noites, estradas e experiências como se procurassem, em cada deslocamento, alguma coisa que talvez nem soubessem nomear. Havia ali uma espécie de urgência em viver, como se permanecer imóvel significasse perder alguma coisa essencial da própria existência.
O livro Vagabundos Iluminados, com sua tentativa de encontrar, no deslocamento e na simplicidade, uma experiência que pudesse escapar das formas convencionais de vida. Talvez seja justamente isso que permaneça dessas leituras tantos anos depois, ainda aqui comigo, diante de minha consciência e inconsciência: não necessariamente as histórias em si, mas aquilo que elas produziram em mim quando foram lidas pela primeira vez. Algumas obras não permanecem apenas porque continuam presentes em nossa memória; permanecem porque, de alguma maneira, passaram a fazer parte da forma como olhamos para o mundo.
É curioso perceber como determinadas leituras se transformam com o tempo. O que encontramos em um livro aos quinze ou dezesseis anos não é necessariamente aquilo que reencontramos décadas depois. O leitor muda e, com ele, muda também o livro. A obra permanece aparentemente a mesma, mas somos nós que chegamos a ela carregando outras experiências, outras perdas, outras saudades, outras dúvidas, outras viagens, outras perguntas. Talvez a literatura tenha justamente essa capacidade: permanecer à nossa espera enquanto nos transformamos, para que, em algum momento, possamos voltar a ela e descobrir que aquilo que parecia ser apenas uma história de juventude continha questões que continuariam nos acompanhando pela vida.
Rio do símbolo e penso que foi um caminho natural entre as leituras da Geração Beat e, depois, da Geração Perdida, e o fascínio por Hemingway. Existem algumas frases e passagens em Hemingway que estão em mim como a própria aquisição da linguagem: A beleza, que, ao ser vista, é internalizada, que passa simbolicamente a me pertencer. As primeiras chuvas de inverno, que sempre trazem uma certa melancolia, parecem existir e vir à tona na memória diante das chuvas que presencio. Um olhar para o mar e as embarcações ao cruzar a costa marítima, e uma ressignificação da fome e do desejo.
E então me chega também a poesia de Allen Ginsberg. Recordo-me de sua menção a Walt Whitman dentro de um supermercado na Califórnia, e há algo de uma beleza tão simples e, ao mesmo tempo, tão profunda nessa imagem. Ginsberg encontra Whitman em um espaço absolutamente cotidiano, entre mercadorias e prateleiras, deslocando a poesia para dentro de uma experiência aparentemente banal. É como se o poeta pudesse encontrar o sagrado não em algum lugar separado da vida, mas justamente no interior dela, em seus espaços mais comuns, em suas pequenas cenas, naquilo que normalmente atravessamos sem perceber. E quanta coisa atravessamos sem perceber… Nossa, tantas… Tantas… “A saudade é uma estrada longa”.
A presença de Whitman naquele supermercado talvez seja também uma forma de reencontro. Um poeta encontra outro poeta através do tempo, e o encontro acontece não em uma biblioteca silenciosa ou em algum lugar destinado à literatura, mas no meio da vida ordinária. A poesia, nesse gesto, deixa de ser uma coisa distante e passa a habitar o cotidiano. Ginsberg olha para o mundo e encontra Whitman porque, de algum modo, a literatura também é isso: uma forma de reconhecer, no presente, aqueles que nos ensinaram a olhar.
Há alguma coisa de profundamente humana nesse encontro entre escritores que já não podem se encontrar fisicamente. Ginsberg encontra Whitman através de seus versos, de sua presença imaginada, de sua permanência. E nós, leitores, fazemos algo semelhante quando retornamos aos livros que nos constituíram. Voltamos a Kerouac, a Ginsberg, a Whitman, a Hemingway e a tantos outros, não apenas para reler suas palavras, mas para reencontrar partes de nós mesmos que ficaram depositadas naquelas páginas.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais determinadas obras atravessam décadas e continuam nos alcançando. A literatura não guarda somente aquilo que foi escrito; guarda também aquilo que fomos quando a lemos. Um livro pode conservar uma versão antiga de nós mesmos. Ao abri-lo novamente, não encontramos apenas o escritor: encontramos também o leitor que fomos, suas inquietações, seus desejos, suas descobertas e até mesmo aquilo que ainda não conseguíamos compreender. Por isso, Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, me é tão significativo, pois, sempre que reencontro Gilliatt, é como se eu estivesse encontrando um abrigo. Vejo-me com ele no rochedo-que-canta, enquanto ele toca a sua bagpipe. Sorrimos para o mar e reverenciamos a sua força. O mar selvagem que, dormitando em Gibran, diz: “tudo é meu”.
Por isso, quando hoje me lembro de Kerouac, de Ginsberg e de Whitman, de Hemingway, de Hugo e Gibran, não me lembro apenas de gerações literárias ou de determinados livros. Lembro-me também de um jovem que encontrou, naquelas páginas, uma possibilidade de imaginar o mundo para além das fronteiras que conhecia. Talvez a literatura tenha sido, naquele momento, uma primeira forma de viagem. Antes mesmo de conhecer determinadas cidades, estradas e lugares, eu já havia aprendido a percorrê-los através das palavras e da imaginação.
E talvez seja isso que os grandes escritores fazem. Eles não apenas descrevem o mundo; ampliam o mundo possível para quem os lê. Abrem estradas onde antes havia apenas paredes. Fazem-nos perceber que aquilo que parecia ordinário pode conter uma revelação e que uma viagem pode ser também uma experiência interior. Ginsberg encontrando Whitman em um supermercado, Kerouac encontrando a estrada em seus deslocamentos, os “vagabundos” iluminados encontrando alguma espécie de iluminação no movimento, Hemingway diante de um quadro ou conversando com Gertrude Stein, Gibran procurando um mar para se banhar, Victor Hugo abetumado em Guernesey: tudo isso permanece porque, por trás da aparente simplicidade dessas imagens, existe uma pergunta maior sobre o que significa estar vivo.
E a pergunta continua em aberto. Ela nunca jamais será respondida totalmente.
“Inda bem”!
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Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo, psicoterapeuta e docente no ensino superior. Participou do Programa de Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar. Sua produção intelectual e interesses de pesquisa concentram-se no campo da Psicanálise, com ênfase nas contribuições de Melanie Klein e Wilfred Bion, do Marxismo, da Teoria Crítica e da tradição da Escola de Frankfurt.