A morte do querido Enio Kaufmann na semana passada e a leitura do livro “A História Social do Jazz”, de Eric Hobsbawm, me deram vontade de escrever sobre Louis Armstrong, um dos maiores ícones desse gênero musical que prima pela inventividade e improvisação, um gênero revolucionário semeado nos campos em que escravizados plantavam algodão. Também me fez pensar em Billie Holiday e seu Strange Fruit, um hino universal contra a ignorância humana ao relatar a crueldade e chocar tanto a sociedade americana. A fruta estranha era o negro escravizado pendurado nas árvores após o enforcamento.
A história do jazz é lembrada sem requerer maiores explicações. E o professor Enio? Eu, ele, outros judeus e representantes do movimento negro nos reunimos certa vez para palestrarmos no auditório do colégio Protásio Alves, onde ocorrera um caso de racismo. O objetivo era falar sobre preconceito com os alunos. Quando o Enio fez seu pronunciamento, hipnotizou a gurizada. Falou na linguagem deles, com as gírias atuais, e eles, com o olhar brilhando, fixo, sorriso nos rostos, fisgados pelo professor experiente e talentoso, que sabia captar sua atenção. Era um “coroa” falando como igual! O Enio, com a magia da sua lógica, deu um show. Vai fazer muita falta neste mundo de tantas e tamanhas ignorâncias.
Mas, enfim, essa aliança entre judeus e negros é uma tradição que precisa ser reverenciada. O próprio Eric Hobsbawm era judeu, assim como era judeu o autor de Strange Fruit, Abel Meeropol, professor que um dia viu os linchamentos de Thomas Shipp e Abram Smith e se pôs a compor esse clássico dos direitos civis. Nada de surpreendente um judeu escrever algo assim. E Billie Holiday se fez famosa (e perseguida) desde então ao pôr sua linda voz a serviço de tão pungentes versos. A trajetória sofrida de judeus e negros, vítimas das maiores perseguições já vividas pela humanidade, ambos arrancados de suas origens em Israel e na África e jogados numa diáspora hostil com suas peculiaridades, sempre foi motivo de união. Basta ver as passeatas de Martin Luther King, ladeado por rabinos que falavam a mesma linguagem sofrida da incompreensão. Luther King que profetizou, inclusive, que o antissemitismo voltaria com força na forma de “antissionismo”.
De Luther King, falemos do seu amigo Louis Armstrong, autor de clássicos espetaculares como “What a Wonderful World”, “La Vie En Rose” e… “Go Down Moses”, um hino sionista. Sim, Armstrong, além de uma das vozes mais lindas, conhecidas e ativas na luta contra o racismo e por um mundo maravilhoso, era um assumido sionista que usou para o resto da vida uma correntinha com a estrela de David. Armstrong falava palavras de iídiche e hebraico e levava consigo o amor pela cultura judaica. Assim foi criado. Menino negro num lar judeu, que se revoltava contra o preconceito pela cor da pele e também pela etnia.
Gênio do jazz nascido em 4 de agosto de 1901 (124 anos no dia 4), com trajetória de meio século e referência incontornável, Armstrong integrava uma família de mascates judeus, os Karnofsky, para quem trabalhou desde menino em Nova Orleans e se tornou filho adotivo. O pai natural, Willie, abandonara a família. Sua mãe natural criou Louis e sua irmã com imensas dificuldades. Chegavam a compartilhar, os três, a mesma cama. Resultado: o pequeno Louis Armstrong, novinho, deixou a escola. Foi trabalhar. Precisava ganhar a vida.
Foi aí que encontrou a família Karnofsky, quando tinha apenas sete anos (conforme ele próprio contava) e coletava sucata. Com seus cinco irmãos adotivos, ele usava um apito de lata para chamar clientes, e muitos estudiosos veem já aí o começo do músico.
“Eu era apenas um menino de sete anos, mas percebia claramente o tratamento desumano com que os brancos tratavam a pobre família judia para quem eu trabalhava”, lembrou.
Ali, naquela percepção, se formou um laço.
A segregação era cultural e intensa em Nova Orleans, em especial para os negros, claro. Era raro uma família branca abrir sua casa e seu coração a uma criança negra. Mas os Karnofsky recebiam Armstrong em casa e o tratavam com carinho, consolidando-se aos poucos uma relação familiar. Mais: lhe davam afeto, respeito e incentivo para desenvolver seu dom. E mais ainda: a família Karnofsky era muito musical.
Dizia o gênio do jazz, lembrando as reuniões em família: “O Povo Judeu tem uma alma maravilhosa. Sempre apreciei e ainda aprecio tudo o que eles cantam.”
Dos Karnofsky, ele recebeu o incentivo ao canto (e que voz!) e a tocar o eterno trompete.
“Um dia, estando no vagão de carvão com Morris Karnofsky (irmão adotivo), passamos por uma casa de penhores em cuja vitrine havia uma antiga Corneta Bi Plana, toda oxidada. Custava apenas US$ 5 – Morris me adiantou US$ 2 – do meu salário. E eu comecei a guardar 50 centavos a cada semana do meu pequeno salário – até que finalmente a corneta foi totalmente paga. Puxa… como eu fiquei feliz! O pequeno instrumento estava bem sujo. Morris o limpou com um produto para polimento e aplicou um óleo em todo o instrumento, esterilizando o seu interior. Depois de soprar um pouco, eu percebi que conseguia tocar ‘Home Sweet Home’… Guardei aquele instrumento por muito tempo”, diz Armstrong.
Há um texto chamado “Louis Armstrong + A Família Judia” em que ele fala sobre o quão profundo a cultura judaica se embrenhou na sua alma, a ponto de ele, além de usar a correntinha com a estrela de David por toda a vida, manter uma mezuzá (pequeno pergaminho com versículos da Torá fixado num estojo) na entrada de casa, como exige a tradição. Diz Armstrong: “Hei de amar o Povo Judeu por toda a minha vida. Eles sempre foram calorosos comigo, gentis, e sempre calaram fundo dentro de mim – que era apenas uma criança e necessitava de uma palavra de carinho e de gentileza”.
Lindo! Arrebatador!
E revelador!
Negros e judeus devem se dar as mãos e caminhar juntos contra o horror do preconceito.
Louis Armstrong era um combo. Tinha ambos dentro de si.
…
Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

