Meu pai costumava nos contar uma história dessas que os antigos contavam solenemente ao pé do fogo, quando o fogo tinha esse papel de construir espaços de compartilhamento especiais nas famílias, nas tribos: era a história trágica da hecatombe da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1950, jogo final frente à seleção do Uruguai, a Celeste. Numa Copa do Mundo que o Brasil sediava pela primeira vez, e que para isso construiu um estádio, o Maracanã, destinado a ser o templo máximo de nosso futebol, e no imediato, emoldurar nossa conquista do caneco Jules Rimet, conquista para a qual éramos favoritos. Meu pai narrava: “Saímos do Brejo da Madre de Deus (seu município natal à época, situado no agreste do estado de Pernambuco), em camionete alugada, e batemos estrada mais de uma semana, no rumo do Rio de Janeiro”. Continuava meu pai: “Acompanhamos todos os jogos da seleção, convictos de que seríamos campeões. Até que chegou a final, contra o Uruguai. Um empate nos daria o título. Mas aí, no finalzinho do jogo, placar em 1 x 1, o Uruguai marca um gol, desempata, segura o jogo até o final, e quando o juiz apitou o final do jogo, baixou um silêncio sobre o estádio superlotado, silêncio que nunca mais esqueci”. Aí era nossa vez, nessas tertúlias familiares, de repetir o silêncio atroz. Eu pensava com meus botões que era uma sorte não ter ainda nascido, pois não queria nem estar por perto de semelhante desastre. Mal sabia que minha vez de reviver drama semelhante viria em 08 de julho de 2014, no Mineirão, noutra Copa do Mundo sediada pelo Brasil, em jogo no qual a seleção alemã de futebol massacrou a seleção brasileira, pelo escore inacreditável e desmoralizante de 7 x 1 para os alemães. Talvez em minha velhice (já próxima) eu também acenda um fogo ancestral para agregar à tragédia narrada por meu pai, que não vi, a tragédia que vivenciei, “meninos, eu vi”, e que completou 11 anos dias atrás.
No day after do desastre de nossa seleção de futebol no Mineirão, que agora ocupa lugar histórico em nosso imaginário ao lado do desastre no Maracanã na Copa do Mundo de 1950, um dos piores subprodutos foi o retorno de nosso demônio cultural de estimação, que já havia dado o ar da graça no jogo do Maracanã, carinhosamente apelidado por Nelson Rodrigues de “complexo de vira-lata” – o demônio que remonta ao momento exato em que europeus puseram os pés nessas terras e inauguraram a confrontação entre autóctones e reinóis. Esse demônio nos tem induzido, há mais de 500 anos, a achar que a felicidade, o progresso e, em última análise, a civilização estão sistematicamente alhures, ao norte do Equador, variando na dependência do europeu-invasor-dominante de ocasião: Portugal, França, Inglaterra, Holanda, EUA. No caso dos holandeses, familiar e próximo de nós pernambucanos, muitas vozes da historiografia local insistem em registrar que o vilarejo dos Novos Países Baixos, fundado em terras norte-americanas pelos holandeses expulsos de terras pernambucanas em 1648, daria origem anos depois a… New York. Se essa Nova Amsterdã gerou New York, Mauritsstadt (depois Recife) teria gerado algo parecido, caso os holandeses tivessem ficado… E por aí vai, com exemplos do pós-guerra baseados em leituras pouco rigorosas da imigração japonesa e europeia branqueadora para o Brasil, conducentes à representação social renitente de uma cultura brasileira irremediavelmente periférica, mestiça e incompetente, o já aludido “complexo de vira-lata”, apud Nelson Rodrigues.
Recordo que tal complexo de vira-lata voltou com força com o 7 x 1 que a seleção alemã de futebol nos impingiu em nossa terra, nossa copa, nossa festa, sob nossas ventas. Tal como fizeram os uruguaios. A supremacia futebolística alemã teria sido apenas consequência natural de supremacia cultural: lá onde improvisamos, eles planejam; onde tergiversamos, eles focam; onde enrolamos, eles treinam. O massacre do Mineirão metaforizou certa soberania que habita o subconsciente histórico-cultural brasileiro desde que os Tupinambás provaram carne europeia e a acharam de qualidade superior.
O problema não está em constatar que os alemães efetivamente treinaram há mais tempo e mais eficazmente que os brasileiros, e que eles jogaram melhor futebol que os brasileiros: o escorregão fatal, muitas vezes não confessado ou não-consciente, está em achar que eles treinaram melhor porque são alemães, e portanto ganharam por serem alemães. A questão não é ganhar porque treina, é treinar porque é alemão, e portanto finda ganhando. Eis, inteiro, nosso demônio.
Advogar que somos intrinsecamente ótimos e recusar as lições dessa tragédia do Mineirão (que nos acompanhará durante décadas, haja vista a vivacidade de 1950 no imaginário nacional até hoje), é de fato manifestação da outra face de nosso demônio nacional: no fundo estamos condenados a essa condição subalterna e amadora, então vamos tirar proveito das canções ao invés de filosofia, e superfaturar os episódios triunfantes aqui e ali, que afinal não são poucos: somos pentacampeões, oras!
O caminho da evolução da cultura e civilização brasileiras passa pela superação da ideia segundo a qual trabalhamos mal por conta de nossa condição intrínseca de vira-latas brasileiros. Trabalhamos eventualmente mal por uma série de razões que cumpre trabalhosamente apurar. E como trabalhamos mal! Em tantos e inúmeros domínios! Por outro lado, não é condição do bom trabalho a pantomima do pó-de-arroz branqueador sobre nossa natureza morena, não é finalmente a condição de boneco de ventríloquo no colo de europeu que nos viabilizará.
Voltando ao domínio do futebol, que ensejou esta reflexão – como ficamos? Qual a lição? A lição é que a origem nacional-cultural nos apetrecha com um conjunto de características que, em si e por si, não nos levam a nada: nem para o bem, nem para o mal, nem para o bom, nem para o ruim. Apenas nos dão identidade, história, filiação, afinidades. O que cada um, cada grupo, cada período histórico vai fazer com sua herança identitária é sempre tarefa em aberto, sujeita ao sucesso e ao fracasso. Nesse contexto, está esgotada a ideia de que “nascemos com futebol no sangue”, o que nos habilita ao sucesso: os alemães trituraram esse mito. Nosso jeito de tratar a bola, que efetivamente existe, não é o fim, é somente o começo: tal como os alemães trabalharam eficazmente o jeito germânico deles de tratarem a bola, cabe-nos fazer o mesmo tanto com nosso jeito brasileiro de jogar. Acredito piamente e ardentemente que nosso jeito é melhor e mais bonito, porque afinal, não sou uma partícula achadora desconectada da história e da cultura: sou brasileiro! Mas agradeço de coração aos alemães por terem mostrado com tanta eficácia que a brasilidade, ou qualquer outra condição, não garante o paraíso.
Não perdemos porque somos brasileiros vira-latas, assim como eles não ganharam por serem pastores-alemães. Não se vive, em alemão, uma forma superior de vida: vive-se apenas uma forma de vida tão boa quanto si própria.
Corte para 2025, evento na Câmara dos Deputados, reunindo grupelho de apoio ao clã Bolsonaro, evento durante o qual surge bandeira laudatória ao presidente Trump, com nome em letras imensas, e subtítulo de agradecimento à agressão do cowboy pedófilo contra o Brasil. Subserviência vira-lata rediviva. Pois convém repetir: não se vive em alemão, ou inglês, ou outro branquês uma forma superior de vida. Revive-se tão somente a postura colonial secular que, esta sim, fundamenta uma forma de vida cultural subalterna e infame.
![]()
“Se você tem uma ideia incrível, é melhor fazer uma canção / Está provado que só é possível filosofar em alemão.” Caetano Veloso, Língua. Mas segue incontornável fazer o Brasil em português brasileiro.
Todos os textos de Jorge Falcão estão AQUI.
Foto da Capa: Derrota dos 7x1 / Reprodução do Youtube

