
Começo por um esclarecimento necessário: ao contrário do que muita gente diz, o feminismo não olha primeiramente para a estrutura de classes. Seu foco principal recai sobre a estrutura de sexo enquanto gênero e para a relação pela qual as mulheres são constituídas pelos homens e sexualmente apropriadas por eles.
Ou seja, o feminismo se volta para o combate e eliminação do sentimento de que as mulheres, como escreve a filósofa norte-americana Donna Haraway, em seu ensaio Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX, das mais ricas às mais empobrecidas, pertencem aos homens e não existem a não ser como produto de seus desejos. Se fossem, se fôssemos suas mercadorias, eu não estaria aqui escrevendo sem ter de pedir a autorização a alguém, em um imóvel registrado em meu nome e em que eu tomo decisões, arco com as despesas e faço tudo de acordo com os meus pontos de vista.
Levando em consideração a minha idade, sem os progressos conquistados pelo feminismo, eu até poderia dizer que este lugar é meu, esta casa é minha, mas diria por estar casada ou, talvez, viúva. Se fosse solteira, estaria sendo acusada de encalhada por ninguém até os meus vinte anos ter pedido a minha mão ao meu pai ou tutor, caso eu fosse órfã. Divorciada não seria hipótese e, é claro, diante dessas últimas circunstâncias, seria impossível estar morando sozinha. Com minhas irmãs ou primas, eu poderia. Todas as tias, sabe-se lá de quem.
Não faz muitas semanas, mais um homem, entre os machistas e inconvenientes que insistem em conversar comigo, me escreveu curioso a respeito da minha condição de desacompanhada. Segundo ele, uma mulher com as minhas características físicas, educação e inteligência não deveria viver como as que o Chico Buarque colocou em sua música Sob Medida.
Aí, fui dar uma olhada na letra e nos adjetivos escolhidos: “traiçoeira, vulgar, bandida, filha da rua”. A uma profissional do sexo ele me comparou mesmo sabendo que sobre o meu corpo não há nenhuma tabela de preço, o que me fez pensar que, acima de tudo, o que mais o incomoda é a relação positiva e generosa que tenho com o meu corpo e seu erotismo e a minha liberdade emocional para escolher um parceiro sem ter de amá-lo, como o patriarcado autoriza aos homens sem o mínimo conflito ou ressalva. Que o afeto é um poderoso afrodisíaco, não tenho dúvida! Mas daí a dizer que ele é o suficiente beira a ingenuidade.