
Não sei se isso é falta de educação ou mera curiosidade. A questão é que dificilmente consigo passar por duas pessoas conversando sobre um livro sem me interessar pelo que dizem. Isso acontece no trem, no ônibus ou em qualquer outro lugar público. Basta que um dos interlocutores tenha uma obra nas mãos e eu perceba que ela é o assunto para os meus ouvidos ficarem atentos.
Nem sempre me intrometo. Na maioria das vezes, acompanho o debate apenas como ouvinte e guardo para mim as impressões sobre a obra ou a sugestão de leitura para outro momento. Foi assim que a conversa entre uma leitora e um vendedor chegou aos meus ouvidos durante uma visita à Feira do Livro da minha cidade. Naquele caso, eu já conhecia a obra. Ela dizia que, se já não tivesse um exemplar em casa, certamente compraria aquele, por considerá-lo muito pertinente aos dias em que vivemos. O livro era A Revolução dos Bichos, publicado por George Orwell em 1945.
Quase perguntei o que ela queria dizer com aquela afirmação. O que teria reconhecido do Brasil de 2026 em uma fábula política escrita há mais de oitenta anos, justamente às vésperas de outra eleição presidencial? Que país ela teria enxergado naquela fazenda?
Para quem ainda não conhece, A Revolução dos Bichos narra a história dos animais de uma fazenda que se rebelam contra o proprietário e assumem o controle do lugar. A liberdade conquistada, porém, desaparece quando os porcos concentram o poder e Napoleão expulsa seu principal adversário, transformando-o no culpado por todos os problemas. Enquanto os demais animais trabalham e passam fome, os porcos acumulam privilégios, alteram as regras e passam a controlar até mesmo a verdade.
Orwell, que se definia como socialista democrático, não dirigia a sua crítica à busca por igualdade, mas à transformação de uma revolução feita em nome do povo em um regime no qual o próprio povo já não possuía voz alguma. Mesmo assim, ao longo do tempo, a sua obra tem sido frequentemente distorcida e transformada em uma condenação a qualquer pensamento de esquerda.
No Brasil dos últimos anos, adversários políticos são transformados em inimigos, as instituições são desacreditadas e os acontecimentos, reescritos por meio de mentiras repetidas tantas vezes que parte da população começa a duvidar daquilo que viu e viveu. Foi assim também na fazenda. Quanto maior o fracasso de Napoleão, mais perigoso Bola de Neve precisava parecer. Enquanto os animais se ocupavam em temer o inimigo escolhido, deixavam de observar quem alterava as regras, acumulava privilégios e se apropriava daquilo que pertencia a todos.
Concordo com aquela leitora entusiasmada diante da banca: A Revolução dos Bichos é uma leitura necessária nos dias de hoje e deveria, inclusive, ser trabalhada nas escolas. O livro de Orwell é uma advertência sobre como um povo pode ser convencido a abrir mão da liberdade que já possui em nome de uma liberdade que lhe dizem ainda precisar conquistar.
Não sei o que a mulher reconheceu do Brasil na fazenda de Orwell. Diante da mesma história, há quem tema a revolução dos animais. Eu, no entanto, me preocupo mais com os porcos que tomaram conta dela.