
A ocupação das ruas nunca é só sobre estar lá em corpo presente. É sobre memória, garra e senso de urgência. Quem viu Porto Alegre de perto na última segunda-feira sentiu na pele aquilo que a história só mostra de tempos em tempos — uma energia que não se via desde as Diretas Já. Mas tem um detalhe fundamental e visceral no que está acontecendo agora: são as mulheres a maioria.
Mulheres de todos os cantos, idades, tons de pele e realidades não saíram de casa por mero apoio político de ocasião. Elas saíram porque sentem na pele, de forma muito concreta, o tamanho do perigo. Para nós, política não é tese acadêmica ou papo furado de gabinete. É sobre a nossa vida, nosso corpo e a nossa segurança no dia a dia.
Defender direitos iguais — na lei e na prática — é um trabalho diário de olhar para o futuro sem tirar os olhos do passado. O progresso custa muito a vir, mas o retrocesso pode atropelar tudo num piscar de olhos.
Para quem se diz aliado ou para quem ainda quer entender o tamanho do risco que um governo de Flávio Bolsonaro representa para nós, vale olhar para os fatos sem filtro:
· Igualdade no bolso: A lei que garante salário igual para homens e mulheres na mesma função passou no governo Lula. Na comissão do Senado, o voto de Flávio Bolsonaro foi abertamente contra.
· Proteção real: A Lei Maria da Penha nasceu em 2006, e as penas de até 40 anos para o feminicídio vieram com o pacote antifeminicídio em 2024. Ambos em governos do Lula. Proteger a vida das mulheres exige leis firmes, não discurso oportunista.
· Saúde feminina no SUS: O tratamento da endometriose ganhou remédio gratuito, protocolo nacional e R$ 300 milhões por ano no SUS, no governo Lula 3. Isso é saúde pública levada a sério.
· Licença-maternidade: Na Assembleia do Rio, quando se votou a ampliação da licença para as servidoras, de 55 deputados, adivinha quem deu o único voto contra? Flávio Bolsonaro.
· Dignidade de verdade: A distribuição de absorventes gratuitos foi vetada no governo anterior, Bolsonaro. No atual, já chegou a mais de 2 milhões de mulheres que antes não tinham o básico.
· Acolhimento a vítimas: Na Casa da Mulher Brasileira, que atende mulheres vítimas de violência, o governo Bolsonaro liberou só R$ 1 milhão dos R$ 21,8 milhões previstos. Enquanto isso, em um único hotel no Guarujá, gastou R$ 1,46 milhão do cartão corporativo.
· Ataque aos direitos reprodutivos: O partido do candidato apoia um projeto que quer mandar para a cadeia, por até 20 anos, meninas e mulheres estupradas que fizerem aborto legal após 22 semanas. A vítima vira criminosa.
· A bússola do candidato: Flávio faz questão de dizer que seu pai é seu “Norte e bússola”. Estamos falando do homem que disse que ter uma filha mulher foi uma “fraquejada” e que atrasou vacinas na pandemia. Esse é o Norte.
· Hipocrisia estampada: dizer que se importa com as mulheres e, ao mesmo tempo, colocar na chapa como vice um homem investigado por estupro não é contradição — é o escancaramento de uma postura.
O recado que vem da rua
No meio disso tudo, a melhor síntese do que vivemos não veio de um comício, mas de uma conversa na calçada.
Foi o encontro com a dona Izaura: 88 anos, maquiada, elegante, carregando suas sacolas de compras. Ela parou para conversar e contou sobre o tempo da Ditadura, quando ela e o marido foram avisados por um amigo militar para não abrirem a boca, porque qualquer palavra podia custar caro.
Dona Izaura viveu esses tempos sombrios. E hoje, aos 88 anos, ela faz questão de conversar com vizinhos, família e nas redes para barrar o autoritarismo. Ela não faz isso por teoria; faz porque reconhece o mesmo tipo de discurso do passado no candidato de oposição.
Honrar o futuro das nossas filhas é ouvir a memória de quem já viveu o pior. É recusar, com todas as letras, qualquer passo atrás.