
Em poucos dias vivenciaremos mais um momento decisivo nas disputas eleitorais de 2026. O segundo turno se aproxima e dois projetos com profundas distinções se apresentam como opções aos eleitores. É certo que as candidaturas representadas por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam limitações na formulação de propostas e na compreensão das demandas sociais do Brasil real. O primeiro demonstra dificuldades em dialogar com as ruas e estabelecer interlocuções com diferentes setores da sociedade. O segundo mantém aproximações com grupos autoritários e antidemocráticos, cujas posições representam riscos de retrocessos em conquistas sociais, especialmente para as populações mais vulneráveis.
No entanto, estamos diante de projetos substancialmente distintos quanto às garantias democráticas e às possibilidades de avanços nas políticas públicas. As posições defendidas por Flávio Bolsonaro suscitam preocupações para uma nação cuja democracia ainda enfrenta fragilidades e questionamentos por parte de representantes políticos. Não faz muito tempo que, em uma triste tarde de domingo, assistimos, atônitos, aos ataques às sedes dos Três Poderes, constituindo-se em uma ofensiva contra a ordem democrática. A memória desses acontecimentos exige atenção às alianças políticas, aos discursos e aos compromissos assumidos por aqueles que pretendem governar o país. Do mesmo modo, propostas de redução de direitos e de enfraquecimento das políticas públicas devem ser examinadas a partir de impactos sobre as conquistas trabalhistas, a ciência e a tecnologia, a liberdade religiosa, a educação, a demarcação das terras indígenas, os direitos das mulheres, da população LGBTQIAPN+, das comunidades quilombolas, do combate à fome e à pobreza.
Diante do momento que se aproxima, estudantes, representantes políticos, artistas, intelectuais, organizações sociais e a comunidade científica precisam assumir responsabilidades na defesa intransigente da democracia, do diálogo, dos direitos humanos e das garantias constitucionais. Em diferentes momentos, a mobilização contribuiu para transformações nos rumos da história, a exemplo do Maio de 1968, das Diretas Já, do processo constituinte de 1987–1988 e do movimento dos caras-pintadas. As decisões políticas produzem efeitos sobre a vida coletiva e o funcionamento das instituições, como demonstraram as experiências da pandemia, marcadas pelo questionamento da eficácia das vacinas, pelos ataques às universidades, à comunidade científica, a redução no financiamento da educação e do Sistema Único de Saúde. Diante da possibilidade de um governo que desqualifique as instituições e comprometa direitos, precisamos ultrapassar os limites de nossos gabinetes, ocupar os espaços públicos e não restringir nossa atuação às notas de repúdio.
As reflexões de Martin Luther King Jr. (1929–1968), pastor batista e uma liderança na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, permanecem atuais ao nos recordarem das consequências do silêncio diante das injustiças e das opressões. A apatia de indivíduos, instituições e organizações pode produzir consequências profundas para a vida coletiva. No entanto, a participação política precisa ser acompanhada da autonomia intelectual, do pluralismo e da liberdade de expressão, sem a construção de rótulos ou a reprodução de estereótipos. Defender a democracia também significa reconhecer as divergências existentes na sociedade e respeitar a legitimidade da participação de todos, dentro dos limites constitucionais. Em momentos decisivos, o silêncio não representa necessariamente neutralidade: pode contribuir para a permanência das injustiças que afirmamos combater.
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Carlos André Silva de Moura é professor associado/livre-docente da Universidade de Pernambuco (UPE). Docente da graduação e pós-graduação em História da UPE. Conselheiro da Associação Nacional de História – Seção Pernambuco.