
1 – Comecei a ler um livro com uma premissa interessante, mas que, ao menos para mim, se revelou um tanto desconcertante. Gratidão, publicado pela Casa de Asterion, é um romance escrito por Domingos Barroso da Costa, no qual começamos acompanhando a vida em pedaços do escritor Mariano Scarpelli. Mariano fuma, bebe demais e se tortura pelo fim da relação com uma mulher, Anna, que o largou e se mudou “abruptamente” para Paris. Ah, sim, Mariano, o protagonista, também se despreza por ser, ao contrário da maioria dos escritores em atividade neste país, obscenamente rico.
2 – Mariano é autor de um livro de autoajuda escrito sob pseudônimo como uma brincadeira intelectual entre ele e sua ex-parceira Anna: “O sucesso não é para os fracos: dez passos para você se tornar um vencedor”. Como o próprio Mariano confessa, na narrativa em primeira pessoa: “Para além das delícias do jogo que estabeleci com Anna, a brincadeira serviria como exercício de escrita e, de quebra, uma espécie de vingança íntima – e inútil – contra os autores de autoajuda que vendiam livros aos milhões, enquanto os meus nem eram publicados. // Caprichei nos clichês e na ironia, assinando a obra com o pseudônimo de Brendon Bastiat, discreta – e irônica – alusão a um economista francês que serviu de referência ao neoliberalismo”.
3 – Pelos mesmos critérios estabelecidos com Anna no “jogo de escrever um livro de autoajuda”, Mariano também escolhe a editora mais fuleira que aparece numa pesquisa no Google, envia os originais e é surpreendido com uma mensagem confirmando o interesse na publicação. O livro é publicado e aí Mariano é esmagado por uma segunda surpresa: o livro vende e é um sucesso tão amplo que logo o personagem, um escritor ressentido com o estado do mundo e com a falta de reconhecimento de seu trabalho, está rico com a única coisa que escreveu por total desprezo (não estou dando nenhum spoiler, aliás, essas informações estão nas primeiras 15 páginas do livro).
4 – Um pouco para ajudar o leitor a ir formando por si mesmo a ideia de quantos livros Mariano já vendeu, acho eu, o protagonista diz que o acordo de publicação do livro concedeu a ele um real por exemplar vendido. A narrativa começa seis meses depois da publicação do livro, que já rendeu nesse tempo dois milhões de reais ao relutante autor. E confesso que, já nesse ponto, eu, que acompanhei o mercado editorial ao longo de vinte anos, fiquei com uma pulga ligeira atrás da orelha.
5 – O romance, esqueci de mencionar, se passa em 2019, logo após a eleição do Oligofrênico Número 1, pai desse outro Oligofrênico Número 2 que vocês aí ameaçam eleger. Em 2019, o preço médio de um livro de umas 150 a 200 páginas andava na casa de R$ 30 a R$ 35. Um autor iniciante costuma receber entre 5% e 10% do preço de capa de um livro. Façamos uma conta pelo valor mínimo de 5% e veremos que, para que o “um real por exemplar vendido” fosse válido, o livro de Mariano deveria ter sido publicado ao preço de R$ 20, meio baixo para aqueles tempos. Digamos (a narrativa não diz) que, se o acordo destinasse ao escritor dinheiro saído do percentual sobre o valor recebido pela editora, que costuma ser uns 50% do preço de capa, ainda assim seriam R$ 1,50 por livro vendido. Claro que o pouco interesse do autor em pensar detalhadamente no contrato é uma justificativa plausível para esse ponto, mas outro me deixou pensando mais ainda, e aí confesso que é uma simples impressão. Acho, e apenas acho, opinião minha, que a ideia de alguém escrever um desses best-sellers de autoajuda “por acidente” e ele ser um sucesso é quase tão fantástica quanto qualquer coisa já imaginada na Ficção Científica.
6 – Conversando com um amigo sobre este ponto, ficamos um tanto confusos com a ideia de alguém vender dois milhões de livros em seis meses, mas nos rendemos ao fato de que não sabemos muito do ritmo de vendas desse tipo de subliteratura de autoajuda. O que realmente me pareceu um tanto fantasioso nem é esse ritmo absolutamente insano de consagração para um livro novo de um autor que ninguém conhecia antes, e sim o fato de que esse autor escreveu um livro que odeia e no qual não acredita, mas ele ainda assim caiu no gosto do público.
7 – A ideia do autor que escreve coisas que detesta para um público que despreza não é nova. Kilgore Trout, escritor fictício que aparece em vários romances de Kurt Vonnegut, não desdenha exatamente de seus leitores; seu caso é um pouco diferente porque ele quase não tem leitores e considera seus livros obscuros de ficção científica mal executados – embora se orgulhe da originalidade de seus conceitos, ele sabe que é um esteta desleixado. Recentemente, ganhou alguma notoriedade com uma adaptação cinematográfica do romance Erasure, de Percival Everett, no qual um escritor negro, Thelonious “Monk” Ellison, cansado das cobranças e expectativas estereotipadas sobre o que “um negro deve escrever”, cria a narrativa mais clichê possível sobre a vida de um jovem negro no gueto, e o livro se torna um sucesso de vendas muito maior do que qualquer outra das obras sofisticadas que o autor lançou antes. Infelizmente, Erasure não tem tradução no Brasil.
8 – Desde que comecei a ler Gratidão, um livro, aliás, que nunca foi ostensivamente sobre o logro de Mariano/Bastiat, e sim sobre outra coisa (o editor de Mariano, um sujeito meio mafioso, meio pastor evangélico picareta, coloca ao serviço do desregrado escritor uma moça crente para ser sua empregada e manter a casa minimamente habitável, e o centro da narrativa é essa relação cheia de arestas e com suas próprias armadilhas), tenho tentado explicar minha impressão esquisita a alguns interlocutores, e não sei se me fiz entender (o que talvez seja um indício de que minha opinião não tem fundamento). Para mim, resumindo até o osso, o que parece fantasioso é que um escritor como Mariano, munido de distância intelectual e ironia, consiga passar em seu livro, escrito claramente contra o gênero, e não dentro dele, uma mensagem em que não acredita. Por mais que eu despreze a literatura de autoajuda como gênero – um pouco como o próprio Mariano –, sei que seus leitores a levam a sério, e por isso acho que existe no centro da maioria dessas obras, por mais picaretas que me pareçam, um núcleo comum de sinceridade que faz o leitor identificar no livro algo de que se apropria.
9 – Quando falo em sinceridade, não falo em “verdade”. Partindo do princípio mais básico do que prometem (sucesso, aperfeiçoamento pessoal e maneiras de entrar em sintonia com verdades do universo a ponto de você efetivamente transformá-lo a seu favor), livros de autoajuda são tão fictícios quanto O Senhor dos Anéis. Mas isso não quer dizer que não haja nessa papagaiada toda um núcleo reconhecível por aqueles que leem esse tipo de coisa. Do meu ponto de vista absolutamente pessoal, sinceridade e verdade não são a mesma coisa. A verdade é, digamos, o mais próximo da descrição objetiva dos fatos. Já a sinceridade é a crença real no que se diz ou faz, mesmo que sejam as “mentiras sinceras” de que falava Cazuza. Logo, ainda que livros de autoajuda sejam fraudes socialmente aceitas, o verdadeiro grande picareta não é aquele capaz de fazer suas vítimas acreditarem no que ele diz, e sim dar a impressão de que ele próprio acredita. E fico na dúvida se as tantas camadas de cinismo e ironia de um autor como Mariano conseguiriam produzir um livro que é um sucesso tão estrondoso – ainda mais em um mercado tão saturado (como já comentei aqui).
10 – Penso nesse tipo de coisa e então me deparo com outro cenário que me faz pensar que talvez esteja exigindo mais sentido de um detalhe literário do que da própria realidade (mas, até aí, a máxima diz que a ficção é obrigada a fazer mais sentido que o mundo real). Talvez a ideia de que o sujeito precisa acreditar no seu próprio golpe seja hoje ultrapassada, pensando bem. Peguemos, por exemplo, o famigerado Pablo Marçal, a meu ver uma das figuras mais abjetas já surgidas nos últimos anos. Marçal fala o que for preciso para “causar”; seu objetivo não é nunca passar uma mensagem, mas ser um clickbait ambulante. Durante sua campanha eleitoral, há dois anos, espalhou informações que ele mesmo depois admitiu serem falsas, mas que produziam, no momento, marolas que se impunham na opinião pública e moldavam o pensamento de alguns. É o tipo de truque que não deveria funcionar mais depois da primeira vez que é usado, mas segue funcionando de tal modo que Marçal é agora o “consultor de performance” do candidato Bozo Jr. E as estratégias, aplicadas já no debate da Bandeirantes, não têm a ver com apresentação de ideias, mas com estratégias de propaganda subliminar, provocação barata, o infantilismo definitivo do debate público.
11 – Falei há algum tempo aqui sobre o filme Bob Roberts, de Tim Robbins, lançado nos anos 1990, sobre como um candidato jovem e bem-apessoado, amparado num marketing de “arrojo e renovação”, era, na verdade, a ascensão de um pensamento messiânico e reacionário pronto para virar uma ameaça à democracia. Disse naquele texto (aqui) que o filme era presciente em um nível algo assustador, mas faço hoje o reparo de que uma coisa apenas o filme não soube prever. Uma situação em que esse tipo de candidato sequer precisaria se apresentar com o revestimento de uma imagem “atraente e arrojada”, já que quem lidera essa onda internacionalmente é uma bolha laranja de carne senil e mãos minúsculas, enquanto aqui no Brasil o candidato do mesmo campo é um herdeiro mequetrefe cujo carisma pessoal se resume a ser filho de seu truculento papai e se deixado sozinho em situações de estresse, já demonstrou que literalmente se caga nas calças.
12 – Que esse tipo de personagem tenha viabilidade eleitoral talvez seja a resposta definitiva à minha inquietação. Quem compra esse tipo de discurso compraria um livro de autoajuda escrito para satirizar o gênero sem perceber? Não sei. A própria ideia de bolsonaristas comprando livros me parece absurda, mas sei que isso sou eu e minhas preconcepções. E, provando que essa aproximação não é só minha, mas do livro, é assim que, a certa altura, logo no começo, o protagonista de Gratidão, Mariano, relembra a partida de sua ex: “A esperança foi-se embora para Paris, enfiada num jeans casual, deixando para trás invencível amargura e crescente sensação de estranhamento diante de um mundo cada vez mais plúmbeo. Aliás, um mundo capaz de comprar dois milhões de exemplares de um livro de merda que escrevi por causa de uma aposta e, em seguida, eleger um demente oligofrênico para o cargo de presidente do país. // E o pior: era coerente”.
13 – Logo, ficam aqui, nestes 13 tópicos, minhas parcas e cada vez mais voláteis esperanças em vocês, meus contemporâneos/conterrâneos, de que haja ainda alguma ínfima chama emocional que permita reconhecer quando um discurso não só não é verdadeiro como também não é sincero. Bom voto.