
É a primeira vez, desde que virei empreendedora, que participo de um grande evento sem aquela sensação de ansiedade diante da quantidade de palestras, palcos e atrações acontecendo ao mesmo tempo. Estive no Empreender 40+ e, quando vi a programação, tive uma grande surpresa: todas as palestras foram realizadas em um único palco, no Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre. Isso significava não precisar correr ou escolher entre duas palestras interessantes no mesmo horário. Mas, principalmente, significava não carregar aquela sensação permanente de que existe algo melhor acontecendo na sala ao lado. Pode parecer bobagem, mas aquilo me deu uma paz.
Até brinquei no almoço com alguns colegas que eu realmente estava me sentindo 40+ naquele momento. Porque, normalmente, saímos desses eventos com a sensação de que não demos conta de tudo. São muitos temas, muitos estímulos, muitas pessoas para conhecer, contatos para fazer. E, no fim, parece que sempre ficou alguma coisa importante para trás.
Mas acho que não foi só o formato do evento que mexeu comigo. Foram as falas, os cases e a percepção muito clara de que, nesta fase da vida, já não queremos, e talvez nem possamos, estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Empreender também tem muito disso: entender onde vale a pena colocar energia. Porque empreender virou uma palavra bonita, estimulada, quase romantizada. Mas ela carrega inseguranças, medos e noites sem dormir. Desorganiza certezas. Faz a gente sair da rodinha dos amigos para puxar conversa com desconhecidos, porque relacionamento também faz parte do trabalho.
E tudo aquilo que nos desacomoda, quase sempre, também nos transforma. Existe um movimento interno importante quando deixamos de ser apenas quem assiste para ocupar outros espaços: conduzir uma conversa, facilitar um grupo, subir num palco ou compartilhar conhecimento. Tive inúmeros insights durante o evento, mas talvez o principal deles tenha sido perceber como a fala tem poder. Quem consegue se comunicar bem ocupa os espaços de outra forma. Não porque fala mais alto. Mas porque cria conexão, desperta interesse sobre si e gera confiança.
Na maioria das vezes, temos poucos minutos. Mas eles podem ser decisivos. Em tempos de Copa, talvez seja como ser dono da bola. Quem está com ela ajuda a organizar o jogo, movimenta o time e chama responsabilidade para si. E comunicar bem, no fim das contas, talvez tenha mais relação com verdade do que com performance. É algo singular.
Acho que foi isso que mais ficou comigo naquele dia. Reforçar minha certeza de que comunicação não se resume às redes sociais. Comunicação também é presença. É conseguir ocupar os espaços que fazem sentido para o momento que estamos vivendo. Sentar na cadeira, subir no palco ou permanecer nos bastidores, mas estar inteiro ali, presente de verdade, desfrutando daquele instante e de tudo o que ele pode oferecer.
Paula Martins é jornalista, estrategista de comunicação, especialista em diversidade e inclusão e associada da Odabá Afroempreendedorismo, com mais de 20 anos de atuação em comunicação, terceiro setor e em iniciativas de impacto. À frente da Mkt de Causas, trabalha para fortalecer organizações e empreendedores por meio da comunicação e do marketing digital, gerando visibilidade e negócios. Redes sociais: @mktdecausas @soupaulamartins (Foto: Cíntia Lentilha / Divulgação)
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