
Em um de meus textos anteriores, pontuei que a cultura da exibição contribui para dissipar a consciência da luta de classes. Como o ato de se exibir orbita em torno de bens de consumo, serviços e mercadorias, ele acaba por supervalorizar os mecanismos de manutenção do capital.
Ao reler Um Ensaio sobre a Libertação (1969), de Herbert Marcuse, percebi que um de seus fragmentos elucida ainda melhor essa questão. Na obra, o autor aborda como a verdadeira solidariedade é mascarada pelo caráter obsceno da sociedade contemporânea. Essa obscenidade se traduz na produção massiva de uma miríade de produtos e serviços cujo acesso é sumariamente vetado a milhões de indivíduos. Marcuse argumenta que a solidariedade genuína é impossível em uma estrutura dividida por classes e por antagonismos geopolíticos.
Transportando essa lógica para uma esfera mais individual, percebe-se que a exibição constante – movida pelo desejo de validação e pertencimento – sabota os laços solidários ao deflagrar sentimentos de inadequação e insatisfação alheia. Há, portanto, um paralelo claro: se o capitalismo é obsceno por ostentar um universo de mercadorias inacessíveis à maioria, o indivíduo que se exibe reproduz esse mesmo gesto. Ao ostentar vivências e bens que muitos jamais alcançarão, a exibição torna-se, ela própria, um gesto obsceno sob a ótica marcusiana.
Convém notar que esta análise não visa condenar o compartilhamento de conteúdos de forma absoluta. Compartilhar pode ser legítimo e saudável; afinal, somos seres sociais e sociáveis, constituídos originalmente pelo olhar do outro. O problema reside no excesso e na intenção que orienta esse comportamento. Quando a exibição se torna hiperbólica ou passa a ser impulsionada por uma necessidade incessante de validação, ela perde sua legitimidade e assume uma função opressora, mimetizando a violência do próprio sistema capitalista. De qualquer forma, sou levado a acreditar que o processo de exibição é marcado mesmo em instâncias menores por uma necessidade de triunfo sobre figuras primárias inconscientes, que findam por deslocar-se para um sobrepujar de outras pessoas a partir de deslocamentos afetivos. O desejo de ser maior, grande, poderoso, ou de aparentar tais atributos, acompanha o sujeito desde a sua mais tenra infância – aqui aponto, de forma bem inicial, um caráter psicológico em termos kleinianos deste fenômeno.
Como antídoto, Marcuse defende a necessidade de uma libertação interior que preceda a emancipação externa. Trata-se de uma emancipação dos sentidos e do pensamento autônomo, sustentada pelo burilamento constante de uma consciência crítica capaz de resistir às ilusões produzidas pelas falsas necessidades.
Chegamos, assim, a um estado de dominação em que apenas uma libertação prévia no âmbito dos sentidos poderá neutralizar os elementos contrarrevolucionários que nos habitam, uma vez que o capitalismo encontra-se entranhado no sujeito contemporâneo em níveis biológico e psicológico. Por “biológico”, Marcuse não se refere a algo estritamente pertencente ao campo da biologia, mas às transformações que a carência e a privação operam sobre o organismo, alterando comportamentos, emoções e afetos.
Nesse sentido, adentramos um espaço em que muitas de nossas ações, ainda que pareçam ingênuas, assumem um caráter contraditório e contrarrevolucionário. São gestos cotidianos que, frequentemente sem que nos demos conta, endossam uma lógica muito mais ampla de dominação e subjugação. Nesse processo, o valor da verdadeira solidariedade é mitigado – e, por vezes, completamente obliterado – por uma falsa ideia de protagonismo individual, de sucesso medido pelos parâmetros do capital e de desempenho orientado por comportamentos superficiais e competitivos.
A consequência é que passamos a reproduzir, em nossa vida cotidiana, a mesma racionalidade que sustenta o sistema que, em tese, desejamos criticar e abolir – por isso, por mais que hoje tenhamos uma retomada de discussões marxistas, elas não terão êxito, sem antes essa libertação mais interna das amarras do Capital. A emancipação, portanto, não pode limitar-se à transformação das estruturas econômicas ou institucionais; ela exige também uma profunda transformação da sensibilidade, dos desejos e da forma como nos relacionamos com os outros. Sem essa revolução interior, toda crítica ao capitalismo corre o risco de permanecer apenas no plano do discurso, enquanto continuamos a reproduzir, em nossos hábitos mais banais, a lógica da dominação que pretendemos superar.
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Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo e professor universitário. Atualmente, é mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar pela ESUDA. Dedica-se ao estudo aprofundado de temáticas concernentes à Psicanálise Kleiniana, Marxismo, Teoria Crítica e Escola de Frankfurt. ralfsouzapsi@gmail.com