Ansiedade climática, guerras, capitalismo agonizando e fazendo agonizar. São as pautas de hoje, de ontem e, provavelmente, as de amanhã, em timelines cada vez mais nauseantes.
Ao mesmo tempo, respirar e dar um tempo de tudo isso parece um exercício culposo e injusto. Coisa de coração ímpio e capacidade intelectual duvidosa. Será?
Essas intercorrências moralizantes surgem com força também na clínica psicanalítica, gerando curiosas desculpas antecipadas. Tipo assim, o mundo está ruindo, mas até que estou bem essa semana… Desculpe!
Para os mais engajades digitalmente, não há sossego possível: outra bomba, outra indecência do congresso, outro povo dizimado, outra diretriz ambiental sendo atacada, e mais e mais e mais.
Nunca achei que infelicidade contribuísse para a felicidade geral da nação e do planeta. Faço uma conta bem boba de que pessoas saudáveis estão mais próximas de colaborar para um mundo mais saudável. Talvez eu me iluda… Em todo o caso, entendo o ponto de desassossego e, inclusive, partilho dele.
Parece desumano não se deixar levar, ao menos em parte, pelas tragédias diárias. O problema é que se supõe que nós, o grupo engajado, possamos fazer algo pela redução das mazelas do mundo. É para isso que nos sobreinformamos? Não sei, não. No fim das contas, fazer o quê e como? Dando likes, comentando e compartilhando? Pouco provável.
Não é que despreze essa forma de ativismo digital. Aliás, também conto com ela, mas, convenhamos: apoiamos as causas com o nosso like com o mesmo dedo que as prejudicamos fazendo uso de velhos e novos hábitos de consumo.
Os exemplos estão à mão. É fácil ser contra o desmatamento, difícil é reduzir o consumo de carne. É fácil ser contra o racismo e o machismo, difícil mesmo é contratar mulheres negras pagando o mesmo que a um homem branco. É fácil lotar a Paulista cheios de orgulho LGBT, difícil é lutar pela vida digna da mulher trans preta, pobre e periférica. É fácil assinar petição. Agora, botar o corpitcho na manifestação não é bem assim, né? E um longo e monótono etc.
Colocar o corpo inteiro e não só a ponta dos dedos faria toda a diferença. Entendo a preocupação da esquerda com as milícias digitais, mas a articulação entre os movimentos e as ruas – sobretudo nas periferias – está vergonhosa, se não inexistente. Essa esquerda branca e acadêmica não consegue ser absorvida pela maior parte da população, cujos movimentos vão na direção da sobrevivência e do acesso a direitos mínimos, sem tempo para piruetas retóricas marxistas. A extrema-direita tem o mérito de botar corpo, além das milícias digitais. E nisso as igrejas neopentecostais ajudam e muito. Não é que em 2026 a extrema-direita vá voltar, a verdade é que ela nunca se foi.
Enfim, a culpa por ser feliz nas frestas acomete o ativista digital e o persegue, porque, no fundo, ele sabe – nós sabemos – que os dedos não movem as estruturas de poder. Enfim, como dizem, Roma não foi construída em um dia. Deve ser por isso que ainda está lá.
Todos os textos de Priscilla Machado de Souza estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

