
No antepenúltimo lugar em que morei até hoje, pouco antes de sair de lá, as redes sociais estavam recém começando. Eu já escrevia e publicava. À época não tão distante, os vizinhos se conheciam e até se encontravam mais, dando vazão a essa memória que agora conto. Duas casas adiante morava uma vizinha, digamos assim, já bastante impulsiva nas nascentes redes sociais.
Quando eu fazia um texto de cunho mais político, em geral criticando um fascismo que começava a mostrar a sua casca de ovo da serpente, ela publicava um comentário extremamente ofensivo, violento, referindo-se a mim como o “vizinho” que, de fato, era. Isso, por razões de uma ignorância minha na matéria, e que precisava ser muito provocada para reagir, não era muito frequente. Mas, de vez em quando, rolava aquela sequência de eu tentar alertar sei lá quem para o que me parecia um perigo, e a vizinha me descascar com a mesma violência que eu tentava denunciar. Eu pensava em bloqueá-la, mas, sempre que a encontrava presencialmente, em companhia de meu cachorro, ela era querida, terna, delicada, e eu acabava mudando de ideia.
Mas o cachorro, não. Bob, meu antepenúltimo cachorro até o momento, foi o mais dócil de que cuidei. Por mais que fosse um vira-lata esperto, ele era incapaz de qualquer reação beligerante, nem quando, com medo de alguma parte pontiaguda de roída, pegávamos o seu osso. Mas era ver a vizinha, que ele rosnava para ela, mostrando os dentes até então escondidos, sem jamais mudar de ideia, nem quando ela o chamava de meu bebê. Eu fingia algum constrangimento, com um pseudo-esporro, tendo chegado até mesmo a chamá-lo, na frente dela, de Bob bobão babão. Puro teatro linguístico. Era como se eu transmitisse o meu desgosto para ele, autorizando-o a latir, literalmente, em meu nome.
Só não era como se, mas de verdade. Eu transmitia o que estava sentindo, ainda que não tenha como provar que o fizesse. Já a psicanálise do bebê, com todos os seus progressos nas décadas recentes, tem como provar. Inúmeras e confiáveis pesquisas mostram o quanto o cuidador transmite, através do olhar, do toque, do gesto ou do timbre de sua voz, o que ele pensa, sente e até mesmo espera do seu rebento.
Sempre é delicado aproximar pesquisas de animais e gente, mas isso pode funcionar, muitas vezes, especialmente com bebês, que são infantes como os animais e, como eles, estão no mesmo barco de serem verdadeiras esponjas que captam fidedignamente mensagens alheias, em especial dos seus cuidadores.
Talvez, por isso, um dos maiores atos de empatia seja, no momento em que nos tornamos cuidadores, decidir tratar o próprio corpo e espírito, depois de muitos anos refratário a isso. A ideia aqui é simples e bela: não desejo repassar ao outro o mal que venho, há tanto tempo, fazendo para mim mesmo, ainda que, no caso da vizinha, esse mal viesse dela.
Eis um cuidado pessoal que cães, gatos e bebês agradecem, sem proferir uma palavra.