
Viajar é uma das poucas atividades em que a gente paga caro para sair da rotina, enfrentar aeroportos, perder horas em filas e dormir em camas que não conhece e ainda voltar para casa dizendo que foi maravilhoso. Talvez porque viajar não seja exatamente sobre descansar. É sobre ter histórias para contar.
Semana passada fui a um congresso de Administração em Fortaleza e fiquei mais dois dias de bônus: praia, amigos. Já estive algumas vezes em Fortaleza, mas há uma coisa que aprendi: uma cidade nunca é a mesma quando você volta para ela. E, dessa vez, percebi mais claramente como os cearenses, além de bons humoristas, são ótimos vendedores.
No sábado, fomos à praia do Cumbuco, na barraca do Chico do Caranguejo. Nas primeiras vezes que fui a Fortaleza, “barraca” era um quiosque com meia dúzia de guarda-sóis em volta e algumas cadeiras de plástico. O tio da barraca usava uma camiseta sem mangas de propaganda de alguma loja; o cardápio começava com pastel e terminava com peixe frito e cerveja, que era servida numa proteção de isopor. Os tempos mudaram. Hoje me deparei com uma barraca que ocupa um quarteirão inteiro e tem duas áreas de piscinas, espaço kids, música ao vivo, restaurante, sala de massagem e banheiro mais limpo que muito shopping center. O garçom usa uniforme e um chapéu Panamá.
Mas o verdadeiro espetáculo são os vendedores ambulantes. Passeio de buggy, jangada, burro, quadriciclo, aula de kitesurf e um exército de ambulantes que querem te convencer a comprar o que você não deseja. Percebi uma mudança interessante no comércio de praia: a história triste está perdendo espaço para a história engraçada. E acho isso uma evolução. O vendedor já não precisa convencer você de que está passando necessidade. Ele precisa convencer você de que a sua vida será melhor depois que você comprar aqueles óculos que ele anuncia como “testados pela NASA”. Tem outros que identificam o seu sotaque e já querem saber para qual time você torce, te enchem de elogios, contam algo engraçado deles e, se você não cortar logo, vai acabar comprando o que eles vendem. O produto escasso no local é o silêncio; teve momentos em que estávamos ouvindo três músicas ao mesmo tempo e mais as conversas altas dos vizinhos de mesa.
De repente, apareceu um homem de jaleco branco, estetoscópio no pescoço e uma pequena maleta de médico. Logo pensei que alguém estava precisando de socorro médico. Nada disso! Ele se apresentou como a pessoa que estava ali para cuidar de nós e se ofereceu para medir minha pressão arterial. Queria me convencer de que aquilo era tão indispensável quanto usar o protetor solar. É muita criatividade. Sempre achei os comerciantes chineses e árabes muito habilidosos na arte de vender. Depois dessa viagem, os cearenses entraram no meu pódio.
Cedemos à conversa convincente da moça da massagem. No meio da sessão, eu quase dormindo, e ela sussurra no meu ouvido: “O senhor tem algumas contraturas aqui. Acho que ficaria melhor se usássemos o óleo de peixe elétrico. São só mais dez reais”. Eu sabia que era golpe, mas imaginei que os meus amigos iriam usar o tal óleo milagreiro e eu seria o único a sair sem essa história para contar. Claro que paguei. É assim que funciona o comércio de praia: você nunca sabe exatamente porque comprou, mas sempre descobre um “plus” de dez reais no caminho.
Nos trajetos, os motoristas de aplicativo também entregam roteiro de novela de graça. Um deles, baiano, morando em Fortaleza, perguntei o que o levou para lá. Ele me deu duas opções: “Queres a história curta ou a longa?” Optei pela curta, que ainda assim se estendeu pela meia hora restante. Se casou com uma cearense e foram morar em São Paulo, mas ele não era fiel e ela voltou com os filhos para Fortaleza. Algum tempo depois ela o chamou de volta, mas logo depois que ele voltou, ela o deixou cuidando dos filhos e foi trabalhar de cabeleireira na África do Sul. Naquele momento pensei que a Globo deveria fazer a captação de roteiros dentro dos Ubers de Fortaleza.
Na Avenida Beira-Mar, encontrei outra novidade: dois garotos vendiam frutas temperadas: melancia, manga e abacaxi com páprica, lemon pepper, sal e limão. Nunca imaginei comer melancia com sal. Escolhi a manga temperada, uma delícia. Eles me contaram que isso não é uma excentricidade cearense, que fruta temperada é muito comum na Ásia, México e Colômbia. Viajar serve para isso, descobrir que aquilo que consideramos normal é apenas o nosso jeito de fazer as coisas.
No fim, os melhores guias turísticos não são placas nem aplicativos: são os amigos locais, que te contam onde comer, onde não ir de noite e quem é favorito na eleição, informação que nenhum guia de viagem imprime. Viajar é isso: é aceitar ser ligeiramente enganado, ligeiramente surpreendido e completamente desarmado pelo desconhecido. Voltei para casa sem fazer compras, sem muitas fotos, mas com essas histórias que vou guardar na memória por muitos anos, que são o meu souvenir.