
Eu juro que achava bonito usar aquele vestido cheio de babados e rodopiar com ele sobre os pisos dos salões. Achava tão lindo que, na infância, quis muito ter um deles, desejo realizado apenas na adolescência, quando me aventurei novamente em um curso de danças. Alguns anos antes, já havia abandonado outro pela metade; dessa vez, consegui chegar ao fim, ainda que aos trancos e barrancos. Eu queria muito ser chamada de prenda e, ao lado de um peão, frequentar os bailes de um CTG, como faziam algumas de minhas amigas daquela época. No entanto, essa vontade foi se dissipando à medida que eu adentrava aquele universo e percebia o quanto aquela realidade era diferente do que havia imaginado.
Não bastava aprender os passos, vestir a indumentária e acompanhar o ritmo da música. Para fazer parte daquele universo, eu precisava seguir regras. Havia uma maneira específica de me comportar e de me vestir, a ponto de até a cor do meu vestido ser considerada inadequada. Para a minha idade, o correto seria usar tons pastéis, claros e delicados, e não o azul-marinho do vestido de segunda mão que eu havia comprado de uma tia. Certa vez, um amigo comentou que os vestidos cor-de-rosa e floridos eram os mais bonitos, e a comparação me deixou extremamente irritada. Apesar de pequena, magrinha e aparentemente frágil, eu não me identificava com os tons pastéis. Gostava das cores fortes e marcantes e, se fosse para usar rosa, que fosse pink ou rosa-choque.
Naquela época, eu pensava que a minha teimosia dizia respeito apenas à preferência por certos tons em detrimento de outros. Com o passar do tempo, porém, percebi que a minha falta de identificação com aqueles costumes vinha de algo mais profundo. Eu simplesmente não era uma prenda, nem troféu de ninguém, muito menos cabia em um ideal de delicadeza e submissão no qual eu não me reconhecia. Foi, sobretudo, o machismo que acabou me afastando do tradicionalismo.
Durante muito tempo, porém, eu havia aprendido a confundir tradicionalismo com cultura gaúcha. Se aquele universo não me representava, onde, então, eu deveria procurar aquilo que me fazia pertencer a esta terra? Foi a partir daí que comecei a me perguntar o que, afinal, significava ser gaúcha, já que eu não cabia nos moldes da tradição que haviam me apresentado como a expressão da nossa cultura. Descobri, então, que a resposta estava muito além do tradicionalismo. Estava no rock do Nenhum de Nós e dos Engenheiros do Havaí, das canções de Kleiton & Kledir e da poesia de Mário Quintana. Estava também no fascínio pela história rio-grandense recriada na obra de Érico Veríssimo e na literatura regionalista que me inspirou a começar a escrever.
Percebi que a minha relação com a cultura gaúcha estava muito mais no cotidiano do que nos salões de um CTG. Estava no chimarrão que meu pai me ensinou a gostar e que hoje tomo todos os dias, nas bergamotas que descasco enquanto lagarteio ao sol e no meu cusco de estimação. Estava na fumaça que escapa do fogão a lenha, no cheiro da carne assando aos domingos, no sotaque cantado e nos tantos ‘bah’, ‘capaz’ e ‘tri’ que escapam naturalmente no meio de uma conversa.
Enfim, o tradicionalismo é apenas uma das muitas formas de expressar a identidade gaúcha, não a única. Há quem se encontre nos CTGs e em suas festividades; outros, no rock, na literatura, na arte ou simplesmente nos hábitos que atravessam gerações. Há quem aceite a história da forma como ela foi contada e quem prefira questionar seus heróis e contradições. O que importa é compreender que podemos escolher o que preservar e que nenhuma dessas escolhas nos torna mais ou menos pertencentes a esta terra.