
Eu nasci em João Pessoa e vivemos numa grande casa na Rua João Machado (Trincheiras) até 1961, quando meus pais voltaram para o Recife. Lembro o dia da mudança: eu tinha um relógio de plástico com um desenho dos ponteiros que não marcava nenhuma hora. Ele desaparecera e, minutos antes do ônibus da Companhia Gaivota passar em frente à nossa casa para nos trazer para o Recife, fui procurá-lo. Chorei bastante até que minha irmã o encontrou dentro de um fogareiro, todo sujo de cinzas! Não queria chegar no Recife sem as minhas horas, mesmo que apenas desenhadas num relógio inútil…
Era uma casa escura e amedrontadora, com um porão onde morava um gato (o Gato Minhoto); havia um galinheiro onde minha galinha preferida um dia foi bater no almoço do domingo, para meu desespero: ali eu recebi o primeiro aceno de filosofia cartesiana, alertando-me sobre o que os homens são capazes de fazer da Natureza, quando dela se tornam “Senhores e Mestres”; lembro um Bumba-Meu-Boi que entrou em minha casa para fazer uma “função”: fui esconder-me dentro de um armário e levaram horas para me descobrirem e tirarem de lá. Muitos anos depois, eu mesmo fundei e participei de um Bumba Meu Boi, numa clara demonstração de que Marx acertou em seu julgamento sobre a História, em que afirma que ela se repete duas vezes, uma como tragédia, outra como comédia! Pelo menos em meu caso, posso afirmar que aquele Bumba Meu Boi medonho de minha infância pessoense provou a validade das teses marxistas: quando li o “18 Brumário”, fiquei me perguntando se Marx teria visto um Bumba Meu Boi em sua infância em Trieste!
Houve um tempo, pois, em que meu relógio não avançava nem atrasava, e eu tinha todo o tempo do mundo. Hoje tenho uma coleção de relógios que funcionam e sempre escolho aquele que me promete prorrogar o tempo que me resta! Mas sei que terminarei nas “cinzas” de um outro fogareiro…