
Minha mãe adorava contar que eu era o maior bebê da maternidade. Eu, ao contrário, só conseguia pensar que nem ali tinha tido o prazer de ser pequena.
Talvez por isso um dos países onde, estranhamente, me senti em casa tenha sido a Dinamarca. Não sei se é a água local, mas lá todo mundo é alto. Pela primeira vez, senti que era tamanho M. E ainda descobri que os dinamarqueses amam andar de bicicleta, como eu.
Copenhague já era conhecida pelo uso intenso da bicicleta quando estive lá, há mais de uma década. Na época, havia bicicletas públicas que podiam ser retiradas gratuitamente: colocava-se uma moeda para liberá-las e ela era devolvida quando a bicicleta retornava a um dos pontos de estacionamento.
Não lembro de ver muitos espaços destinados aos carros. Lembro de um verdadeiro mar de bicicletas ocupando as ruas.
Não sei se existe alguma relação entre uma coisa e outra, mas havia uma sensação de felicidade no ar. Pessoas gentis, sorrisos fáceis, uma cidade onde era prazeroso simplesmente estar.
Em uma dessas caminhadas, parei diante de um edifício que me pareceu incrível, projetado por um arquiteto de quem gosto muito. Fiquei ali, olhando por alguns minutos; isso chamou a atenção de um funcionário da empresa. Ele percebeu meu interesse e acabou me convidando para conhecer o interior do prédio.
Dias depois, ainda turistando pela cidade, escutei uma buzina insistente enquanto caminhava. Era ele. Tinha me reconhecido e fazia questão de acenar enquanto passava de bicicleta. O retrato de uma pessoa feliz. São essas pequenas histórias que ficam das viagens. São as relações entre as pessoas que marcam nossa estadia nos lugares.
Viajar é uma das experiências mais enriquecedoras que conheço, porque desorganiza nossas certezas. Mostra que aquilo que parecia ser a única maneira de fazer alguma coisa é apenas uma das maneiras possíveis.
E nem é preciso ir muito longe.
Uma ida à praia, uma trilha, uma cidade vizinha já pode ser suficiente para entrar em contato com outra paisagem, outro ritmo, outras pessoas. Às vezes, basta mudar de lugar para conseguir olhar para o nosso próprio lugar de outra maneira.
Mas existe algo triste nisso tudo.
Para muitos brasileiros, viajar ainda é um privilégio distante.
Certa vez ouvi de uma mãe trabalhadora a alegria de ter conseguido passar um domingo na praia com a filha adolescente. Foram e voltaram no mesmo dia. Era uma pequena viagem, quase nada para quem pode fazê-la sempre. Mas fazia quase três anos que elas não tinham condições financeiras para viver aquele momento juntas.
Histórias assim, mais do que me fazer lembrar o quanto sou privilegiada, esfregam na cara o tamanho da nossa desigualdade.
Isso me envergonha. E me entristece.
Não quero que continue sendo assim.
Mas também acho importante olhar para a realidade com alguma franqueza. Esta é a cidade, a sociedade e a economia que construímos até aqui. Mas isso não significa que precisamos continuar construindo da mesma maneira.
Não precisamos reinventar tudo.
Precisamos, talvez, reformar algumas coisas que há muito tempo estamos adiando.
E fazer isso sem deixar que debates excessivamente ideologizados nos impeçam de olhar para aquilo que está diante dos nossos olhos.
Precisamos amadurecer.
Não vejo outro caminho senão buscar algum nível de equidade.
Gosto muito daquela imagem que circula pela internet, mostrando três pessoas tentando assistir a um jogo atrás de um muro. Elas têm alturas diferentes. Sem nenhum auxílio, apenas a mais alta consegue enxergar.
No segundo quadro, cada uma recebe a mesma caixa para subir.
Parece justo.
Mas não é.
A pessoa mais alta passa a enxergar ainda melhor. A de altura média consegue ver um pouco. A menor continua sem enxergar.
Só no terceiro quadro cada uma recebe aquilo de que realmente precisa: a pessoa mais alta não precisa de caixa; a média precisa de uma; a menor precisa de duas.
Isso é equidade.
Não oferecer exatamente a mesma coisa para todos, mas reconhecer que as pessoas partem de lugares diferentes.
E há uma versão ainda mais incômoda dessa imagem.
Aquela em que o chão também não é igual. Uma pessoa está em terreno plano. Outra está em um nível mais baixo. A terceira está praticamente dentro de um buraco.
É uma representação muito mais próxima da nossa realidade.
Porque algumas pessoas não precisam apenas de uma caixa para enxergar.
Precisam primeiro sair do buraco.
Essa imagem me fez lembrar de Economia Donut, livro publicado em 2017 pela economista Kate Raworth.
A ideia é poderosa justamente pela simplicidade.
Para que a sociedade possa prosperar, precisamos cuidar de duas fronteiras.
Uma é o piso social: aquilo que ninguém deveria estar abaixo. Alimentação, moradia, educação, saúde, saneamento, mobilidade, segurança e condições dignas de vida.
A outra é o teto ecológico: os limites ambientais que não deveríamos ultrapassar. Mudanças climáticas, poluição da água e do ar, perda da biodiversidade, desmatamento e tantos outros sinais de que o planeta também tem limites.
Entre o piso e o teto existe um espaço onde a humanidade pode viver bem.
A ideia parece simples, mas questiona uma das crenças mais arraigadas da nossa economia: a possibilidade de crescer infinitamente em um planeta finito.
Não fecha a conta.
E quem paga essa conta somos nós.
A Terra provavelmente continuará existindo. A questão é saber em que condições conseguiremos continuar vivendo nela.
Minha paixão pelo urbanismo me levou, aos poucos, a estudar economia. E quanto mais estudo, mais gosto.
Talvez porque tenha descoberto que economia não é apenas uma ciência dos números. É, antes de tudo, uma ciência social. Fala sobre pessoas, escolhas, recursos e sobre a maneira como organizamos a vida coletiva.
Para quem sonha com cidades melhores, isso importa muito.
Como imaginar uma cidade mais bonita, mais caminhável, mais viva, cheia de pessoas nas ruas, se, ao mesmo tempo, convivemos com pessoas que não têm sequer condições mínimas para escolher onde morar, o que comer ou como se deslocar?
É muito fácil culpar quem está vulnerável.
Mas será mesmo que a culpa é dele?
A desigualdade não é um problema exclusivamente brasileiro. Ela também cresce em países ricos, inclusive nos Estados Unidos. O problema está menos na incapacidade individual de algumas pessoas e mais nas estruturas que distribuem oportunidades de maneira tão desigual.
Talvez nossa grande tarefa seja justamente essa: construir uma sociedade onde mais pessoas possam escolher.
Escolher viajar.
Escolher onde morar.
Escolher o que comer.
Escolher como se deslocar.
Escolher como viver.
E, ao mesmo tempo, cuidar do único planeta que temos.
No fundo, talvez seja isso que viajar tenha me ensinado. Quando conhecemos outras cidades, percebemos que quase tudo pode ser diferente.
E, se pode ser diferente, também pode ser reformado.
Inclusive nós mesmos.