
No início de O Senhor dos Anéis, clássico de fantasia de J.R.R. Tolkien, Bilbo Bolseiro, protagonista do livro anterior O Hobbit, após anos em posse de um anel misterioso que encontrou décadas antes, passa suas posses para seu sobrinho Frodo (incluindo a joia) e decide abandonar sua casa e viajar pelo mundo. Uma das explicações que dá para isso é que se sente velho e cansado, algo que ele define com uma imagem que se tornaria uma das citações mais famosas da obra: “Sei que não parece, mas começo a sentir a velhice em meu coração, estou me sentindo fino, como se estivesse esticado, como manteiga que foi espalhada num pedaço muito grande de pão“.
Saber que esta semana tem eleição e acompanhar ainda as notícias a respeito me faz sentir um pouco assim. Sei que a alternativa é pior, mas uma das consequências mais nefastas da polarização brasileira entre uma esquerda espalhada para todos os lados como pouca manteiga para um pão adormecido muito grande e uma extrema direita incansável me parece ser justamente o cansaço que percebo não apenas em mim, mas em outros, com relação ao ritual periódico das eleições.
Talvez uma das experiências mais desgastantes para quem se identifica com o campo progressista nas últimas décadas tenha sido uma sensação inglória de estar travando a mesma discussão repetidamente, mudando-se apenas as datas e alguns dos personagens. Em muitos momentos, a impressão não é a de um embate entre opiniões distintas sobre uma realidade compartilhada, mas entre pessoas que não têm apenas visões de mundo diversas, mas parecem habitar realidades completamente diferentes.
Não à toa, conflitos políticos contemporâneos assumiram caráter de discussão sobre futebol. Porque, contrariando os mais bem-intencionados, a impossibilidade de uma verdadeira e amigável discussão sobre futebol é real. Colorado, eu preservo minhas amizades evitando a discussão – e aceitando a conclusão inevitável de que não há gremista sensato, não há gremista racional. Tenho amigos gremistas que estão entre as melhores pessoas que conheço, mas, qualquer ensaio de um comentário pretensamente desinteressado quando o assunto é futebol, eu já saio de perto, física ou metaforicamente falando. Sei que essa “neutralidade” é apenas um uso cínico de uma pátina de civilização para esconder corneta em tom de argumentação ponderada. Nesse sentido, acho mais honestos os fanáticos oligofrênicos das organizadas. São mais fáceis de lidar porque são legíveis de modo mais fácil e imediato (o que considero importante, como escrevi aqui).
Pois um dos efeitos da desestabilização provocada pelas manifestações de junho, pelo sequestro da pauta pela direita, que se metamorfoseou em extrema direita, com a emergência do bolsonarismo e seu longo cortejo de malucos ou oportunistas, foi transformar a pauta política em uma discussão de futebol. A emoção domina tudo, não se discute mais política pública ou administração, porque o desacordo surge antes mesmo dessas questões. Diverge-se sobre fatos básicos, sobre a própria legitimidade social e institucional do país, sobre qual a ordem dos fatos. Sobre a própria pertinência dos fatos – não é mais uma disputa de interpretações, e sim um choque de realidades.
Causas e efeitos
Nisso tudo, uma das coisas que mais me cansam é a noção, que vejo ser jogada cinicamente aqui e ali, de que o Bolsonarismo é um produto da esquerda. Quem gosta de dizer isso é isentão procurando distribuir responsabilidades de forma artificial. Porque no atual momento, uma das grandes dificuldades do campo progressista é justamente apresentar qualquer proposta ou tomar qualquer iniciativa que não seja distorcida e vilipendiada.
Depois dos atentados terroristas do 11 de Setembro de 2001, houve uma grande e intensa produção acadêmica para entender os mecanismos de radicalização que levavam indivíduos marcados pela raiva, pela frustração e pelo ressentimento a se tornarem alvo fácil para recrutadores de grupos extremistas. Um dos principais modelos apresentados para dar um sentido a esse tema foi o da “escadaria para o Terrorismo”, postulado em 2005 pelo psicólogo iraniano-americano Fathali M. Moghaddam, que, em um artigo acadêmico de mesmo nome, criou essa imagem de uma escadaria em direção à radicalização, na qual a população ocupa a base e, a cada degrau percorrido, um número menor mas ainda mais decidido de pessoas avança em direção ao radicalismo e à violência. Moghadam imaginou “cinco níveis” que levavam até o extremismo, em um processo gradual pelo qual indivíduos são expostos sucessivamente a conteúdos cada vez mais extremos, normalmente por meio de redes de influência, recomendações algorítmicas, grupos fechados e comunidades ideológicas. Poucos entram diretamente em posições radicais, a escalada é gradativa, cada nível parecendo razoável quando observado isoladamente, mas que desembocam ao longo do tempo em visões cada vez mais polarizadas.
Posteriormente, autores como Clark McCauley e Sophia Moskalenko (em Understanding political radicalization: The two-pyramids model – “Compreendendo a radicalização: o modelo das duas pirâmides”) refinaram essa abordagem ao distinguir radicalização de opiniões e radicalização para a ação. Embora distintos, os modelos de Moghadam e McCauler/Moskalenko compartilham a ideia de que existe um estreitamento progressivo entre populações amplas e grupos cada vez mais comprometidos com posições radicais. O conceito também se ampliou e deixou de ser um modelo para entender apenas o terrorismo islâmico, mas o próprio processo de radicalização de extrema direita e os mecanismos algorítmicos das redes sociais que conduzem usuários de conteúdos moderados para posições cada vez mais extremas.
Falo disso porque esse foi um processo que todos viram nos últimos anos, incluindo a transformação política de parentes e amigos. Em diversos casos, a radicalização parece seguir o mesmo roteiro identificável pelos modelos acadêmicos: consumo crescente de conteúdo político, fechamento em bolhas de confirmação e crescente hostilidade a fontes divergentes.
Cordialidade
Aqui no Brasil, me parece que o contexto bagunça um pouco esse modelo, embora não o invalide. Minha hipótese é que o funil de radicalização no cenário brasileiro pode ser complementado por uma dimensão personalista e patrimonial, em que a radicalização se estrutura menos pela coerência ideológica e mais pela fidelidade afetiva a lideranças e comunidades de pertencimento. O resultado continua semelhante ao descrito pelos modelos clássicos: redução da pluralidade, demonização do adversário e aceitação de medidas cada vez mais extremas. O caminho, porém, passa com maior intensidade pelas relações pessoais e identitárias do que pela doutrinação ideológica formal. Ou seja, podemos até chegar em Moghadam, mas precisamos passar primeiro por Sergio Buarque de Holanda.
O Brasil, como Buarque descreveu em boa parte de sua obra a partir de Raízes do Brasil (1932), possui uma tradição de fragilidade histórica da distinção entre esfera pública e esfera privada. O “homem cordial” de Buarque de Holanda não é “gentil”, como o sentido moderno da palavra poderia dar a entender, mas alguém que interpreta as relações sociais a partir da lógica afetiva da família, da amizade e da proximidade pessoal. É um cidadão que não se vincula primordialmente a instituições abstratas, mas a pessoas concretas.
A partir dessa perspectiva, seria possível sustentar que o processo de radicalização brasileiro frequentemente não ocorre por adesão inicial a uma doutrina sistemática, mas por meio da personalização da política. O indivíduo não ingressa primeiro numa ideologia para depois aderir a um líder; ele adere ao líder, ao grupo de pertencimento ou à comunidade afetiva e, só então, incorpora os conteúdos ideológicos que circulam naquele meio. Logo, o “funil” brasileiro poderia ser descrito menos como um estreitamento ideológico e mais como um estreitamento relacional. O eixo principal não seria apenas a crescente adoção de crenças radicais, mas a redução progressiva do círculo de confiança. Familiares, amigos, influenciadores e lideranças carismáticas passam a formar uma comunidade moral considerada legítima, enquanto todos os demais são percebidos como estranhos, inimigos ou simplesmente irrelevantes.
O que Buarque de Holanda descreveu com um viés sociológico, alguém como Joshua Greene, em Tribos morais: A tragédia da moralidade do senso comum, uma obra escrita 80 anos depois, vai analisar incorporando os avanços da pesquisa neurológica. Ressalvando que Buarque faz sociologia histórica e Greene faz psicologia moral e neurociência cognitiva, ou seja, ambos operam em níveis de análise diferentes e não dialogam em seus argumentos, a aproximação é minha. Tribos morais é uma ampla e minuciosa compilação das tensões entre a necessidade de negociação imposta pela sociedade com a programação cerebral que a evolução entalhou no ser humano: a necessidade de conviver com indivíduos de mesmas crenças, hábitos e valores leva os sujeitos a abraçarem os valores do grupo e a identificar, portanto, como adversários, ameaças e, em último caso, inimigos aqueles que estão fora dele.
Isso produziria uma dinâmica particular: a política deixa de ser uma disputa entre projetos de sociedade para se transformar numa disputa entre comunidades afetivas rivais. A defesa das instituições democráticas, dos direitos ou das regras comuns perde apelo porque essas abstrações têm menos peso emocional do que a lealdade ao grupo.
Tem culpa eu?
Só que no processo de radicalização do “funil”, muitos apontam que o caminho da radicalização também se faz do isolamento e da repulsa produzidos pelo confronto, principalmente aquele com indivíduos que antes faziam parte de uma mesma comunidade, familiar ou afetiva. Em outras palavras: a radicalização precisa que os indivíduos cortem laços anteriores, mas muitas vezes os próprios indivíduos se apressam a cortar esses laços porque sentem que a desaprovação de pais, filhos, companheiros, amizades de longa data pelas suas convicções os empurram cada vez mais na direção daquela convicção.
A lógica é conhecida. Se um familiar questiona determinada posição, isso seria interpretado como perseguição. Se um amigo rebate uma informação falsa, isso reforçaria o sentimento de rejeição e até de conspiração. Se alguém aponta contradições ou excessos, acabaria fortalecendo justamente aquilo que pretendia combater.
Embora exista alguma plausibilidade psicológica nessa preocupação, transformá-la em regra geral impõe um peso excessivo sobre quem discorda. Afinal, ela sugere que os críticos passam a ser parcialmente responsáveis pela radicalização alheia. Do meu ponto de vista bem menos sofisticado do que o das outras pessoas que citei neste texto, a coisa parece se desenvolver assim: você mergulha na bosta, eu aponto que isso é impróprio e até mesmo idiota, e você então vai lá e decide não mergulhar, mas comer a bosta e depois diz que a culpa é minha…
Essa ginástica retórica transfere para adversários e interlocutores uma responsabilidade que pertence ao processo de radicalização. Ninguém é levado a posições extremas exclusivamente porque ouviu críticas. O que costuma produzir esse deslocamento é a combinação de predisposições individuais, incentivos sociais, lideranças políticas, ambientes informacionais, rancores, ressentimentos, frustrações, derrotas que antecedem qualquer discussão específica.
Em segundo lugar, a lógica do “se criticar, piora” produz um efeito paradoxal. Ela transforma o debate público em uma espécie de campo minado moral, no qual determinadas ideias deixam de ser confrontadas por receio das consequências. O resultado não é necessariamente mais diálogo. Muitas vezes é apenas mais silêncio. E não à toa essa tem sido uma estratégia clara da direita, não apenas neste ano de eleição.
Apontar, por exemplo, que um indivíduo da pior qualidade, como Charlie Kirk, infelizmente encontrou seu fim de modo bem parecido aos efeitos colaterais nefastos que ele considera aceitáveis na sua visão de mundo, detonou há algum tempo uma orgia de perseguições e acusações de “ódio do bem”. Não entendo, aliás, por que, entre os religiosos, pessoas que estão sempre tão acomodadas a aceitar o conceito de “ira santa” manifestado pelas suas escrituras, “ódio do bem” seria ofensa, mas isso é uma digressão e o assunto é sério, então estou tentando evitá-las.
Há também um componente cínico e assimétrico nessa papagaiada de que o confronto leva à radicalização. Raramente se exige dos grupos radicalizados o mesmo cuidado com o impacto de suas palavras sobre os demais. A responsabilidade pela manutenção da convivência recai quase sempre sobre aqueles percebidos como mais moderados. Se os progressistas defendem, nominalmente, valores de empatia e inclusão, espera-se que sejam compreensivos, pacientes, estratégicos e permanentemente cautelosos. Enquanto isso, o outro lado pode expressar posições cada vez mais agressivas sem que sua responsabilidade individual seja colocada no mesmo nível de escrutínio.
Isso não significa que não haja críticas arrogantes ou contraproducentes. Ou afirmar que o progressismo é isento de críticas. A esquerda não ter conseguido renovar quadros a ponto de precisar outra vez do Lula é um fato, mas isso não autoriza nenhum imbecil a achar que o candidato nepobaby do outro lado se equivale a Lula de alguma maneira. A esquerda, quando perdeu em 2018, entregou o poder e deixou Bolsonaro até solto demais para transformar o país na tragédia que se viu. Que achem que a continuidade dessa política por um personagem literalmente criado para substituir o anterior é de um delírio tão incompreensível que duvido que faça diferença qualquer crítica e qualquer silêncio. Se uma pessoa é suficientemente inclinada a dar esse voto, dificilmente a ausência de crítica a impediria. No máximo, pode fornecer uma justificativa narrativa posterior: a explicação conveniente de que foram os ataques dos adversários que a empurraram para posições mais extremas.
Mas a acusação de perseguição funciona em muitos casos porque o movimento de radicalização já estava em curso. As críticas aparecem como evidência retrospectiva de uma história que o indivíduo deseja contar sobre si mesmo. Não são o motor da transformação, mas um elemento incorporado ao discurso que a legitima.
Por isso, considero um erro exigir do campo liberal ou progressista uma autocensura permanente em nome da prevenção da radicalização alheia. O debate democrático pressupõe a possibilidade de discordar, contestar argumentos e apontar inconsistências. Sem isso, resta apenas uma convivência silenciosa e ressentida. É a isso que os bolsonaristas querem reduzir o nosso campo – aliás, eles não medem palavras em dizer que querem exterminar o nosso campo. Confrontados com a violência dessa proposição, dizem que se trata apenas de retórica política normal – porque é isso que a radicalização também faz com seus inúmeros apitos de cachorro: testa e, por fim, expande até o grotesco, os limites do que é “normal”.
Lula é um conciliador. Fez um governo buscando uma conciliação impossível. Sem sucesso. Talvez seja essa uma ideia radical em si mesma, mas começo a pensar que, se radicalização do lado de lá, cada vez mais ampla, tiver sucesso em trazer de volta o culto anticivilizatório que governou o país nos quatro anos de Bolsonaro, talvez seja uma boa ideia começar a aproveitar as poucas brechas à nossa frente para radicalizar também.
Escolham votar em quem quiserem nesta semana, eu respeito seu direito de voto. Mas também me resguardo o direito de afirmar com todas as letras que algumas proposições na mesa são a barbárie e que talvez não seja tão fácil nos livramos uma segunda vez se você acha razoável eleger uma corja golpista da qual nos salvamos por pouco.
Em suma, você tem todo o direito de ser idiota, mas não venha dizer que a culpa é minha.