
No início do século passado, John Maynard Keynes, querendo acentuar a urgência das reformas econômicas nos EUA, disse: “A longo prazo estaremos mortos”. Sugerimos agora outro prognóstico: “A médio prazo estaremos velhos”. O grande número de idosos e o pequeno número de jovens estabelecerão os parâmetros econômicos e sociais deste verdadeiro sismo demográfico dentro de 20 anos, mas os tremores premonitórios já estão repercutindo em toda a economia global. Sacudirão todos os aspectos das nossas vidas, desde o panorama dos mercados de valores até o preço das moradias, a obtenção de empregos, a assistência social, seguros-saúde, as aposentadorias, enfim, nossa forma de viver, de adoecer e de morrer.
Nos países ricos, já está a se produzir uma transformação extraordinária, à medida que, pela primeira vez na história da humanidade, as pessoas de idade avançada superarão em número as mais jovens. Paralelamente, já se iniciou um decréscimo populacional, uma reversão acelerada do crescimento demográfico. Trata-se de um fenômeno global em que o Ocidente está na frente, mas o resto do mundo o segue.
Nos últimos anos, os demógrafos assinalam uma redução sem precedentes das taxas de natalidade, fato que poderá estabilizar a população mundial dentro de 50 anos… Um triunfo da humanidade, dizem alguns, tendo-se em conta a perspectiva de um mundo superpovoado. Porém, o decréscimo demográfico está sendo acompanhado pari passu pelo envelhecimento das populações e diminuição do número de jovens. Um dos aspectos negativos deste fenômeno é o fato de que os governos têm reduzido os gastos em educação e saúde preventiva para poder enfrentar os custos que geram as aposentadorias, pensões e despesas em medicina curativa para o crescente número de idosos. Atualmente, este fato demográfico está ocorrendo também nos países subdesenvolvidos. Estima-se que, em 2030, mais 28 nações emergentes atinjam taxas de crescimento populacional estáveis e um rápido envelhecimento de seus habitantes.
As decrescentes taxas de fertilidade estão atingindo os níveis de substituição (2,2 filhos por mulher) e alguns países, como a China e a Tailândia, já estão abaixo deles. Prevê-se que o Brasil, em dez anos, chegue a estes níveis e a população se estabilize, mesmo sem interferências governamentais.
Segundo a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada pelo IBGE) de 2006, as mulheres mais ricas têm em média 1,4 filhos e as mais pobres, 3,2, e esta diferença vem baixando celeremente. Para melhor avaliação desses dados, informa-se que a França levou 150 anos para baixar em 50% as taxas de fertilidade, ao passo que o Brasil levou apenas 50. Com estas perspectivas, a demógrafa Ana Camarano, do IPEA, prevê que, a partir de 2030, a população brasileira começará a diminuir.
Assim, o insistente tom alarmista de certa mídia e especialmente de certos cronistas mal informados pode ser enfocado para o fenômeno inamovível da atual e nacional distribuição de renda de nível subsaariano que sucessivos governos, seja de militares autoritários, de sociólogos de “capelo” e de ex-operários, com políticas distributivistas, quiseram, mas não conseguiram resolver.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras