
Isto pode chocar a alguns, mas, apesar de ser psicanalista e escritora, eu não coloco todas as minhas fichinhas nas palavras. Aliás, é por esses mesmos ofícios que sei que elas têm lá seus limites. No caso da análise, ir e se manter em uma passa pela disposição de se desconhecer. Jogar o jogo do inconsciente, entrar nessa outra racionalidade que torce e retira o sentido das colunas que falsamente nos sustentam.
Lacan dizia que o Eu tem função de desconhecimento. Então, a experiência de análise vai mais tomar distância do que nos aliançar com o nosso eu. E, se tudo vai bem, vamos encontrando também os limites das palavras, mas também outras potências nelas. A poesia, nesse sentido, dá um passo a mais, mas, às vezes, nem ela. Aí é que vem o barato de poéticas visuais ou a necessidade visceral do gesto, como na poesia chinesa.
É que há algo chamado corpo que nem sempre se deixa assenhorar pelas palavras, por mais belas e cativantes que sejam. Outro dia escutei que uma pessoa queria um pouco de paz e, naquele contexto, paz incluía conversar menos e dançar mais. Ela queria se conectar com as pessoas dançando sua dança de salão, na noite, sem as preliminares da conversa social. Na ética do clube de dança, as conexões passam pelos corpos bailantes, dispensando as palavras, como um verdadeiro descanso delas.
Rapidamente entendi a potência desse gesto. A dança sempre foi algo presente na minha vida, de um jeito ou de outro. Penso em quantas vezes não sabia dar jeito nas coisas e a solução era deixá-las de lado e ir dançar. A libertação das neuras em “5, 6, 7 e 8”. A música, o gesto e a criação levada por esse tempo circular que suspende, momentaneamente, essa ficção torpe da reta, da timeline.
A dança salvou minha vida, nas coisas mais grandes às mais corriqueiras. Passei no vestibular que queria, por exemplo, no ano em que decidi que não deixaria de dançar. E hoje, quando não sei mais o que fazer pra acalmar a minha bebê, eu deixo de embalar para simplesmente dançar com ela. Até agora nunca falhou.
Estamos em época de eleições e de conversas difíceis, vira-voto etc. Muito difíceis e que nem sempre resolvem muito. E se antes dançarmos um pouco?
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