
“O próprio Tancredo Neves comandou a ausência de tantos deputados na sessão, que foi o fator decisivo para a derrota das Diretas Já. (…) O governador de Minas Gerais já tinha as cartas na manga para o jogo da sucessão presidencial do ano seguinte, que ele efetivamente venceria, na ilegítima eleição indireta imposta pela ditadura e votada apenas por congressistas. (…) Mesmo participando da campanha das Diretas Já, mesmo sendo um dos seus expoentes, Tancredo levava o pragmatismo às últimas consequências. Até o limite da traição. (…) Encenava-se no país um gigantesco teatro, enquanto, atrás do palco, uma velha raposa política, o cruzado da moderação, aceitava ser presidente sem o povo, em mais um pacto com a elite. “
O trecho acima foi extraído de “Lula lá e outras histórias”, livro em que Paulo de Tarso Cunha dos Santos relembra sua trajetória como publicitário e as campanhas políticas que coordenou. Ao longo de suas 440 páginas, a obra expõe os bastidores dessas e de outras disputas, trazendo à tona acordos e conchavos firmados longe dos olhos do público. Aborda também a influência da mídia na projeção de candidatos que, apesar de pouco conhecidos ou inicialmente desacreditados, conseguiram conquistar espaço e vencer eleições.
Um exemplo dessa influência foi a ascensão de Fernando Collor de Mello, eleito presidente em 1989, na primeira eleição direta para o cargo após 29 anos. Até então, sua carreira política estava concentrada em Alagoas, onde havia sido governador. Filho de uma família proprietária da TV Gazeta, afiliada da Rede Globo, Collor contou com o apoio público de Roberto Marinho.
A proximidade entre o candidato e o grupo de comunicação ganhou contornos ainda mais evidentes na reta final da campanha. Na véspera da eleição, o Jornal Nacional exibiu uma edição do debate entre Collor e Luiz Inácio Lula da Silva que privilegiou os momentos favoráveis ao primeiro e lhe concedeu mais tempo de exposição. A edição provocou críticas e se tornou um dos casos mais debatidos sobre a influência da mídia nas disputas eleitorais brasileiras.
A influência da grande mídia nos rumos políticos do Brasil, contudo, não começou na eleição de Collor. Em 1964, jornais como O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo apoiaram a deposição do presidente João Goulart e a instituição do golpe militar. A TV Globo só seria inaugurada no ano seguinte, mas as Organizações Globo, por meio de seu jornal, já haviam tomado posição naquele episódio que deu início à ditadura no país.
Voltando ao trecho do livro citado no início do texto, vale refletir sobre a construção da imagem de Tancredo Neves como herói nacional, embora ele tenha morrido antes de tomar posse. Naquele momento, o povo brasileiro ansiava pelo direito de escolher diretamente seu presidente, e a aprovação da Emenda Dante de Oliveira poderia ter atendido a essa reivindicação caso não tivesse sido rejeitada na Câmara dos Deputados. As ausências de 113 parlamentares foram decisivas para a derrota da proposta, que recebeu 298 votos favoráveis quando necessitava de 320 para ser aprovada, restando ao Colégio Eleitoral a escolha do novo presidente. Favorito da elite brasileira e defensor das eleições diretas, o homem que, meses depois, se transformaria no presidente que “deveria ter sido, mas não foi”, era o nome ideal para o cargo.
O que Paulo de Tarso, porém, revela aos leitores é a premeditação de Tancredo e seus apoiadores em relação à eleição indireta que o levaria à Presidência. Segundo o publicitário, Tancredo não apenas aceitava a possibilidade de chegar ao poder por meio do Colégio Eleitoral, como também teria incentivado deputados de seu partido a não comparecerem à votação da Emenda Dante de Oliveira, contribuindo para a derrota da proposta que restabeleceria as eleições diretas.
Não por acaso, lembrei dessa passagem do livro quando um senador que concorre à Presidência da República na eleição deste ano votou a favor do fim da escala 6×1, depois de ter criticado a proposta em diversas ocasiões. O voto foi registrado remotamente, enquanto ele fazia campanha política. Na mesma semana, o candidato seria sabatinado pela Rede Globo. Curiosamente, no dia da entrevista, almoçou com um dos representantes e herdeiros da família Marinho, encontro que não foi estendido ao adversário quando este participou da sabatina.
Diante disso, fica a pergunta: a história se repete? Estaríamos assistindo à construção de um novo herói nacional que se diz defensor de causas populares, enquanto articula pelas costas do povo? A poucos dias de uma eleição que poderá definir os rumos do Brasil pelos próximos anos, vale a pena olhar para além dos discursos e das aparências. Afinal, quando os interesses políticos e midiáticos se encontram nos bastidores, quem realmente sai ganhando? E, principalmente, quem paga a conta desses acordos?