
Sim. O título é esse mesmo que você leu. O corretor, aqui do meu teclado, também achou estranho. Três vezes tentou colocar a palavra louça no lugar. Faria mais sentido em um mundo menos doentio e sem pessoas com transtorno de personalidade narcisista. No que temos, não faz nenhum. Ou, pensando bem, metaforicamente, um pouco. Não é por nada que existe a expressão “quebrar os pratos”.
Há alguns anos, fui testemunha ocular de um episódio em que vários voaram. Na hora, lembrei-me da cena do filme Elis, em que ela joga os vinis do marido infiel pelos ares. Se não estou enganada, a coleção Frank Sinatra. Voando, pratos e discos se parecem. O lugar em que eles rodam se chama prato. Ou chamava.
Hoje, quase todo mundo escuta músicas no streaming. Eu tenho uma conta com 1519 curtidas e umas poucas playlists. Tudo fechado. Não a uso como rede social. Nem é. Não faço a mínima questão que saibam o que estou ouvindo e não tenho curiosidade em saber o que os outros ouvem. Envio e recebo poucas músicas com pouquíssimas pessoas, gente com um senso de privacidade parecido com o meu, que sabe que não deve macular a magia do lugar com conversas triviais e, muito menos, com assuntos pendentes de outros ambientes de contato ou convivência.
Logo, como é de se imaginar, se alguém adentra esse território, de forma intempestiva, ignorando sua função e com o propósito de continuar, por exemplo, uma discussão virtual sobre algo encerrado, a primeira coisa que se percebe é a falta de bom senso e, a segunda, o elevado egocentrismo. Egocentrismo é um traço dominante nas personalidades narcisistas. E é sobre esse pessoal cheio de si e sem limites que quero falar.
De acordo com o manual de diagnóstico DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), cerca de 75% das pessoas diagnosticadas com Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) são homens. E como eles agem? De diversos jeitos, mas há padrões. Desses 75%, quase todos projetam nas mulheres as próprias culpas, chamando de loucas, surtadas etc. as que reagem às suas manipulações ou que já os deixaram. Quem não conhece um fulano que tem uma ex desequilibrada? Talvez essa adjetivação seja o mais gritante sinal do que vem pela frente e de como será chamada a próxima escolhida se o enfrentar e o rejeitar também.
Narcisistas lidam muito mal com rejeições. Como se não tivessem passado pela adolescência, mesmo que já tenham chegado aos quarenta, cinquenta, sessenta anos, não aceitam ser dispensados e não sabem seguir adiante sem rancor. Aliás, não sabem uma série de coisas necessárias para se relacionar saudavelmente. E, em parte, esse despreparo se dá por uma série de motivos e por uma espécie de auto-hipnose. Pessoas com transtorno de personalidade narcisista recusam-se a examinar seus atos ou falas, não admitem que possam estar equivocadas e agindo mal. Narcisista acredita que não erra e, sendo assim, não pede desculpas.
Na psicologia, esse movimento é conhecido como Proteção do Falso Eu (Falso Self). Nele, o narcisista cria uma personagem perfeita, em geral na infância, com uma fachada virtuosa e cheia de superioridade e de grandiosidade, ou seja, começa enganando a si mesmo, fazendo vida afora, dessa dinâmica, um escudo que lhe permite alterar o passado e construir um presente que valide sua identidade fictícia. Ficção bastante perigosa para suas vítimas e para o próprio ser. Não que eu lamente pelo tipo. Gente que só enxerga até a ponta do próprio nariz tem mais é de cair da própria altura.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1 em cada 3 mulheres no mundo sofre violência física ou psicológica em seus relacionamentos, sendo associada uma parcela significativa dessas agressões a abusos psicológicos e ao controle coercitivo por parte de parceiros com traços de TPN. Narcisistas precisam controlar. Sofrem de algum delírio de liderança, de santificação e de poder e, para manter-se nesse contexto, manipulam o mundo ao redor. São simpáticos, atentos, sedutores, bons ouvintes e disponíveis com as mulheres com quem não estão envolvidos, com deus, o diabo e a terra toda em transe, mas experimenta estabelecer um vínculo íntimo com um deles. Experimenta dividir a rotina, a cama, a mesa, o banho. Se você permitir, ele fará com que tudo o que você é e sabe sobre si escorra pelo ralo.
Este é um ponto e um objetivo definitivo na mente de um narcisista. Ele tem de fazer com que a parceria duvide da própria memória, de sua percepção da realidade e da própria sanidade, tática conhecida como gaslighting. Criando confusão, fica mais fácil ele manter o controle dos abusos e a outra pessoa em um estado de submissão e de sofrimento.
É tão grave o problema que, em 2016, foi criado o Dia Mundial da Conscientização sobre o Abuso Narcisista (World Narcissistic Abuse Awareness Day). A idealizadora é a psicoterapeuta norte-americana Bree Bonchay. A violência psicológica bem como seus agentes têm de sair das sombras. Precisamos todos nos educar para reconhecer os sinais de manipulação e oferecer uma rede de apoio e validação para, no caso das mulheres, as “loucas” sobreviventes. E, quando digo todos, incluo as mulheres que se dizem feministas, que passaram por experiências péssimas nas mãos de homens com TPN e, ainda assim, em uma espécie de cegueira, os defendem.
A campanha é celebrada globalmente todos os anos no dia 1º de junho. Anota para divulgar no ano que vem e não esquece que quem vê cordeiro não vê lobo, e que eles são como as bruxas: você pode até não acreditar no que está vendo, mas que eles existem, existem.