
“O que a memória amou, ficou eterno” (Adélia Prado)
Espero ter um que outro leitor fiel, como eu ficaria honrado. Se assim é, essa pessoa se lembrará que na semana passada comecei o texto assim: “Tenho enormes dificuldades para escrever esta coluna semanal, e o motivo é o oposto do que você deve estar pensando. Não é a falta de assunto e do que dizer, mas o excesso. Se as minhas colunas fossem diárias, eu ficaria muito mais confortável.”
Assunto do qual eu já teria me ocupado é a linda cerimônia de despedida do extraterrestre Messi, que depois de duas décadas deixou de jogar pela seleção alviceleste.
O Messi não é do meu time, mas merece que eu seja seu fã. No desenvolvimento deste texto, vou contar por que ele tem as características ideais de um ídolo.
E escreverei sobre isso num momento de profundo desapontamento com episódios recentes envolvendo a minha paixão, que é muito intensa e, por isso, irredutível.
Futebol é como vício. Tu dorme com a cabeça inchada, por eventos de dentro e de fora do campo, e no dia seguinte está pronto pra agarrar a bandeira e ir à cancha.
E é na cancha que sempre estarei, para o que der e vier.
São sentimentos de paixão e pertencimento inculcados no mais profundo rincão da nossa alma. Aliás, é uma bela lição a de varrer a poeira do corpo e reiniciar.
Talvez seja a mais precisa tradução da palavra “resiliência”, que uso com muita parcimônia, porque toda resiliência é perseverança, mas nem toda perseverança é resiliência. O senso comum usa esses vocábulos como sinônimos, e não são.
No caso do torcedor de futebol que escova a poeira do corpo e desamassa o rosto no dia seguinte, é 100% resiliência, porque o cara dorme de cabeça inchada e acorda pronto pra vestir novamente a camiseta em nome do amor incondicional.
É bom? Não sei, juro, tenho dúvidas. Mas é assim. E haja terapia pra tirar isso do sujeito! Creio que é impossível.
Enfim, andei muito desapontado, verdadeiramente triste, com eventos de dentro e de fora do campo, alguns deles que me tocam fundo como autor dos livros que escrevi justamente sobre diversidade, respeito ao diferente e outros valores essenciais, sadios, edificantes.
Meu clube é grande e plural e jamais deve servir a ignorâncias criminosas, interesses pessoais ou política partidária! Ok?! O ótimo Eduardo Dorneles fez post no Instagram citando meu livro “Somos azuis, pretos e bracos”, e lá está o primeiríssimo estatuto do clube já com esses princípios escritos.
Não usem a minha paixão! Não se adonem dela! Não a maltratem!
E, no Gre-Nal, novamente um lance crucial em que a arbitragem errou, e a CBF fez nota se desculpando.
!!!!!!!!!!! Repito: !!!!!!!!!!!!!!!!!
Que show der horrores!
Pensando bem, pra quem teve recentemente o próprio gol, gol consolidado, misteriosamente anulado com posterior PEDIDO DE DESCULPAS INÚTIL DA CBF, o que é um simples pênalti? Pênalti geralmente vira gol, mas o gol já é o gol. De novo: !!!!!!!
Se você está atento ao noticiário, entenderá que ali em cima eu digo tudo. Ponto! Sigamos, com perseverança e, se necessário, resiliência.
Pelo menos aquele racista inqualificável, asqueroso e inadmissível, como todo racista, foi localizado e punido prontamente pelo clube, sem meias palavras.
Ufa, já é um alento!
Sobre o Messi e sua emocionante despedida, quero abordar o mundo ideal, servindo como contraponto aos tristes episódios que venho testemunhando.
Messi é o futebol em alto nível, e, ao dizer isso, não comparo e desqualifico ninguém em especial. Comparo ao próprio futebol, que apodrece e definha pelos motivos difusos arrolados acima. Messi é a luz que salva a beleza do jogo e que ainda lhe dá algum sentido em meio às trevas do descaso, do cinismo e do oportunismo.
Pra começar, ressalvo que já escrevi muito sobre a aversão que tenho a listas e ranqueamentos. No futebol, um goleiro, um meia e um atacante parecem disputar esportes diferentes dentro do mesmo esporte. Como você vai dizer qual é o melhor?
Esporte coletivo, por definição, contém diferentes valências, variadas vocações. Mesmo que falemos de Messi, Pelé, Maradona, Zico, Romário e Ronaldos, assim é.
Qual o melhor deles? Mesmo que de posições parecidas, são diferentes.
Acho essas classificações entediantes na mesma proporção em que admiro diversidades. As pessoas são diferentes! E isso tem muito a ver com o futebol.
É “muy lindo”, como dizia o Rodrigo Cambará.
Aliás, sim, ao Messi.
Começo recorrendo a outro craque, o Tostão, que poderia perfeitamente ter sido citado na lista acima, com Rivellino, Suárez, Falcão.
Futebol, uma lição de vida por retratá-la e reproduzir suas belezas, dramas e impasses.
Tostão, craque eterno, disse: “A festa de despedida de Lionel Messi da seleção argentina foi belíssima e emocionante. Em 1971, eu estava presente no Maracanã quando houve a despedida de Pelé da seleção brasileira. Vi jogar os maiores craques da história do futebol mundial, como Pelé, Messi, Maradona, Cruyff, Didi, Beckenbauer, Gerson, Garrincha, Nilton Santos, Zico, Ronaldo, Romário, Zidane, Cristiano Ronaldo, Eusébio e tantos outros. Não vi Di Stéfano jogar, mas meu pai dizia que ele era o único jogador que brilhava de uma área à outra. Não citei outros craques atuais, brasileiros e de todo o mundo, pois só serão mais bem avaliados no final de suas carreiras. Todos os grandes craques, além de exuberantes talentos, são ambiciosos, querem ultrapassar os limites, embora alguns se percam pelo caminho. Pelé foi o melhor de todos porque foi o único que possuía no mais alto nível todas as qualidades técnicas, físicas e emocionais necessárias para a posição. Quando me tornei analista de futebol, tentei achar nele uma limitação e não consegui. Era perfeito —ou a perfeição não existe?”
Existe, digo eu agora, até pra tornar imperfeito um mundo perfeitamente imperfeito. Sacou?
Mas segue o Tostão:
“Os melhores momentos de Maradona foram mais encantadores que os melhores momentos de Messi, porém Messi foi muito mais regular, além de ter uma brilhante carreira por um tempo muito maior. Maradona foi mais artista, pois utilizava muito os efeitos especiais, como Ronaldinho. Messi foi mais craque. Outra grande qualidade de Messi é saber esperar o momento certo de brilhar. Não faz tentativas inúteis. Às vezes, anda em campo, observando tudo, até explodir o talento. Vi os últimos momentos de Garrincha na preparação e nos jogos da Copa de 1966. Ele driblava várias vezes sem sair do lugar, pois não tinha mais explosão muscular para avançar com a bola e dar passes e lançamentos precisos. Não sei se Nilton Santos foi mais craque como lateral, posição em que jogou nas Copas de 1958 e 1962, ou se foi melhor ainda como zagueiro, como atuou no Botafogo no final de carreira. Ele antevia os lances e saía com a bola, com passes precisos. Didi foi o primeiro craque que vi dar passes de curva com o lado externo do pé, de trivela. A bola contornava o corpo do adversário e chegava ao companheiro. Gerson, seu sucessor, era mais prático com seus passes precisos, curtos e longos. Os dois jogavam como se estivessem vendo a partida de cima, com megacomputadores instalados no corpo.”
E continua Tostão, pra nosso deleite:
“Beckenbauer foi o maior líbero da história. Posicionava-se atrás dos defensores para fazer a cobertura e quando o time recuperava a bola avançava e se tornava um excepcional meio-campista. Beckenbauer foi campeão do mundo como jogador e técnico da Alemanha. Mas nenhum outro craque foi tão magistral nas funções de jogador, treinador, analista e pensador como foi o holandês Cruyff. Quem foi melhor, Ronaldo ou Romário? Há dúvidas. Romário foi mais genial dentro da área, porém Ronaldo foi mais completo, pelos dribles, velocidade e finalizações precisas. Viajei no tempo. As lembranças de minha infância e adolescência, das épocas de jogador, médico, professor de medicina, comentarista de televisão e colunista esportivo, estão presentes na minha memória e nos pensamentos.”
Pois é, o Tostão fala sobre diversidade, mas põe Pelé num pedestal. Pode ser! Talvez o Pelé seja como os Beatles. Algo fora do script, acima, incomparável. Aquilo que falamos ali em cima sobre “perfeição”. É a prova de que existe, até como contraponto a uma suposta imperfeição esperável e ironicamente perfeita.
E vou pegar exemplos no meu time. Pra mim, o Mauro Galvão não fica a dever nem ao Beckenbauer. Verzeihung, Kaiser!
Penso nos ídolos Renato e Éder. Temperamentos irreverentes parecidos, um mais incisivo, provocativo e driblador, outro mais cadenciado e articulador com chute de raríssimo efeito; um pela direita, outro pela esquerda. Talvez muitos não se lembrem, mas eu, sim, me lembro: íamos ao Olímpico mais cedo, eu e o meu pai, só pra desfrutar vendo, na preliminar dos juniores, aquele ponta endiabrado com corpo de zagueiro que fazia fila de adversários aos dribles.
O Renato era uma atração à parte desde guri e ainda hoje, com o seu alardeado e comovente amor pelo clube, depois de ter-lhe dado o mundo.
Dias atrás, naquelas conversas de torcedores em que tu é provocado a fazer as tuas listas, mesmo sendo arredio a elas, imaginei meu Grêmio de todos os tempos. Do meio pra frente, veja: Dinho (ou Arthur?), Valdo e Ronaldinho; Renato, Suárez e Éder. Uau! Já pensou? Virtualmente imbatível.
Mas falemos no Messi.
“La Pulga”, além de craque absurdo, com seus dribles em espaço diminuto, raciocínio possivelmente mais rápido que a velocidade da luz e uma lucidez impressionante pra dar o passe preciso no exato instante em que o companheiro estará habilitado pra fazer o gol, é especial em características talvez invisíveis.
Vamos a elas.
Perseverança: Messi tem uma fibra enorme, temperada pela humildade. Diego Simeone (craque no desarme, percebam) lembrou disso recentemente, lacrimejando.
Reconhecimento: repare. Sempre que comemora um gol, Messi procura o eventual companheiro que tenha lhe dado a assistência, apontando-o e se dirigindo a ele.
Resiliência: passou por momentos difíceis desde menino, inclusive na seleção argentina, tendo cogitado largá-la antes das maiores glórias. Mas ficou e venceu.
Equilíbrio: raríssimas vezes respondia grosseiramente a alguma agressão. Teve a história do “bobo”, mas foi exceção. Respondia jogando bola, com serenidade.
Elegância: até nas vestimentas, dando justa solenidade aos eventos em que foi homenageado. E sempre soube dosar no nível certo a exposição da família.
Solidariedade: ajuda entidades mundo afora, usando a sua imagem e a sua condição financeira pra levar algum alento a pessoas vulneráveis, em especial deficientes.
Amizade: é impressionante como a família e os amigos de sempre são unânimes ao dizer que o cara nunca deixou a notória majestade vestir-lhe uma coroa.
Apartidário: essa dica é quente pros dias que correm. Messi evita ser utilizado ou servir aos interesses de grupos políticos. Leiam isso e reflitam, por favor.
Simpatia: é querido, e isso nunca foi forçado. Há registros. Tipo o menino cadeirante que busca sua atenção; enxerga o guri e abre caminho entre o público até ele.
Altivez: numa conduta simples, jamais se deixou levar pelas conveniências de surfar numa onda qualquer. Que linda a foto dele rezando no Muro das Lamentações!
…
Fiz um decálogo aí em cima, de propósito.
São 10 itens do 10, porque ele é 10 na camiseta e na atitude!
O dez que nos diz: é assim que se faz, papito!
…
Shabat shalom!
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