
Hoje quero falar da emoção e da alegria de ser patrona da 26ª Feira do Livro de São Francisco de Paula, uma realização da Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura, que aconteceu nos dias 16 e 17 de outubro, no Centro de Eventos da cidade. Quando recebi o convite, em uma ligação inesperada, já faz algum tempo, a surpresa foi tanta que não consegui falar. Só chorei! Eu teria que ir a São Chico para um encontro com os organizadores, mas não pude ir. Já estava comprometida com a 70ª Feira do Livro de Porto Alegre porque fui convidada para mediar uma conversa com as escritoras Midiã Noelle e Lilian Guerra, com um tema instigante: Preta Sou – Escrevivências Negras.
O objetivo era fazer um retrato genuíno e triste do Brasil dos invisíveis – das entradas de serviço, do elevador de serviço, do quarto dos fundos, da parte da residência reservada para os serviçais, do racismo. O Brasil daquela que é apresentada muitas vezes como parte da família, mas não é convidada para sentar à mesa. As lutas, as insinuações, as falas e as palavras que ficam no ar. A cultura, a arte, a riqueza de origens africanas tão negadas. A literatura traz um grito de alerta consistente, forte e urgente. Um meio de mostrar a força e a beleza da cultura ancestral de um povo que atravessou mares nos porões de navios e aqui ancorou para ser escravizado. Um povo afastado das suas origens, que seguiu forte, valorizando seus saberes e que luta até hoje contra a discriminação.
Li vários livros de escritoras negras para me preparar, mas a conversa marcada para as 17h na Feira do Livro não aconteceu por conta das fortes chuvas previstas para o final do dia. A Defesa Civil emitiu um alerta e recomendou que todas as barracas fossem fechadas e protegidas. E todos os eventos cancelados. Vivíamos as terríveis chuvas que devastaram o Rio Grande do Sul!
As experiências frustram, mas também ensinam e fortalecem.
Pois então! Aquele convite inesperado que me fez chorar se concretizou, acendendo luzes no horizonte. Os tempos não estão fáceis e, para fortalecer o nosso cotidiano, é importante brindar a vida, a educação, os livros, as leituras, a criação, os encontros, o coletivo e a resistência. Nos dias 16, 17 e 18 estive em São Chico, minha terra, e vivi momentos muito especiais de alegria e orgulho. E no dia 17 ainda participei do lançamento do livro “Mulheres Serranas 3 – Legados”. Faço parte do grupo e tenho um texto no livro. Reconhecer a nossa ancestralidade é um ato político e social, fundamental para o resgate das nossas origens e para o fortalecimento da nossa memória e da nossa identidade – um legado para as futuras gerações.
É a nossa cultura, a nossa arte e a escrita que dizem muito de nós e nos fortalecem para viver a vida com dignidade, respeito e soberania.