
No final de semana, vi um filme em que o pai fala para o filho, um jovem autoritário e com complexo de superioridade: “Somos responsáveis pela própria alma. Tome cuidado”. No contexto da trama, já é tarde. O filho cruzou o limite, passou para o ponto das coisas irreversíveis. E, dali para frente, por mais conquistas que o filho faça, fica claro que ele perderá o controle sobre elas e terá de arcar com as consequências. Que toda ação gera uma reação não é novidade para ninguém, mas de que tipo, penso que sim. O mundo das respostas é criativo para o bem e para o mal.
O escritor Imre Kertész, sobrevivente de dois campos de concentração, Auschwitz e Buchenwald, escreveu que “o mal é a regra e o bem é a exceção”. Não sei. É provável que ele esteja certo. Sua tragédia, como se fala na região em que nasci, dá de relho em qualquer sofrimento que eu tenha enfrentado, o que, de maneira alguma, diminui o impacto das dores que senti, algumas dores mesmo do mundo, como na música do Hyldon:
“E eu vou esquecer de tudo/Das dores do mundo/ Não quero saber quem fui/ Mas sim o que sou/ E vou esquecer de tudo/ Das dores do mundo/ Só quero saber do seu/ Do nosso amor”, ele canta desde 1975. Bastante tempo. Uma música cinquentona que não envelhece.
A velhice, assim como a morte, é uma invenção humana. William Butler Yeats, em seu poema Morte, fala que o homem a inventou. É claro que não me refiro a aspectos orgânicos. Falo da morte enquanto conceito trágico, do pavor e da angústia existencial que ela promove em nós. Meus quadrúpedes, por exemplo, duas fêmeas idosas e um macho jovem, levam a mesma pacata vidinha, ainda que uma delas dispute território e poder como ele, sem considerar suas diferenças de idade. Lila não sabe que é velha. Não sabe que, em tese, morrerá muito antes que o Nino. E, para ela, está tudo bem. Para Lupa, tudo ainda melhor porque, por alguma razão, confia que nada lhe faltará. Os três foram resgatados a um passo da finitude e, no entanto, a nenhum deles ela atormenta. Não sofrem também por amor, pela fantasia do amor e por ego.
Doguinhos não têm ego da mesma forma complexa que nós. Entre os pesquisadores, seja em psicologia ou em neurociência canina, o consenso é de que eles possuem autoconsciência e uma identidade básica, mas insuficientes para reflexões. À noite, não se deitam, em suas caminhas ou nas nossas, pensando: “eu sou um fracasso” ou “fulano não gosta mais de mim” ou “fulana vai ver quem tem a última palavra”.
E o que é ótimo: nunca se acham feios ou bonitos. Vivem no tempo presente. De sapatinhos cirúrgicos, com roupas, sem roupas, sujos, limpos, tosados, estão sempre de bem com o espelho e uns com os outros. Não fazem escolhas narcisistas. Ignoram faixas etárias. São incapazes de catalogar uma possível parceira dentro de rótulos, como o de novinha, fala que, de vez em quando, a gente escuta de quem menos espera.
Eu desconfio da integridade moral dos homens que se referem às mulheres desse jeito objetificado. Para usar esse vocabulário, é óbvio, que o homem em questão deve ter idade para ser, pelo menos, pai da jovem; possuir total falta de noção sobre a passagem do tempo em sua própria aparência; e apresentar um grau bem alto de baixa autoestima, porque uma coisa é ver em uma mulher, independentemente de sua idade, as suas virtudes e se interessar por ela. Outra, bem diferente, é enxergar a sua juventude e cobiçá-la como a um pedaço de carne.