
Na esquina da minha casa abriu um bar.
Um único bar que se propôs a ficar aberto até as 22h, de segunda a quinta, ampliando o horário nas sextas e sábados até meia-noite. Para mim, que chego tarde, o bar, a farmácia na esquina da frente e o porteiro da portaria envidraçada funcionam, juntos, como uma pequena rede de proteção.
E não só para mim.
A parada de ônibus em frente à portaria está sempre cheia de gente. Não porque ali seja um ponto especialmente movimentado, mas porque trabalhadores das proximidades — especialmente do hospital e do shopping, que ficam a algumas quadras — preferem caminhar até ali. Sentem-se mais seguros esperando o ônibus de volta para casa.
Perceberão, como eu, essa rede invisível de segurança que se cria quando uma rua tem gente?
O bar da esquina apostou em música ao vivo nas sextas-feiras, das 20h às 23h. Mudou a dinâmica do lugar. Outro bar próximo, que fechava às seis, ampliou o horário nas sextas. Na galeria ao lado, abriram novos restaurantes e cafés.
A rua ganhou vida.
Mas, no Instagram do bar da esquina, alguns vizinhos reclamavam.
Imagino que tenha ficado difícil ouvir a novela nas sextas-feiras.
Chatinho, mesmo.
Já o prédio do outro lado da rua ocupou parte do recuo com uma cancela de vidro opaca, automatizada, sem vida. Provavelmente preocupados com a segurança dos próprios moradores. E só deles. Não com a segurança da rua.
Fica difícil compreender a lógica. Afinal, para chegar à porta do prédio, os moradores que chegam a pé precisam passar pela rua. Caminham pela calçada, cuja segurança não buscaram contribuir para melhorar.
Não julgo. Vivemos as contradições do mundo que construímos.
Queremos shopping e supermercado abertos até tarde, hospitais funcionando 24 horas, restaurantes, farmácias, serviços e entretenimento disponíveis a qualquer hora. Mas nem sempre pensamos em como os trabalhadores que mantêm tudo isso funcionando voltam para casa.
Em uma reunião de condomínio, um vizinho se empenhava em retirar a parada de ônibus da frente da portaria. Afinal, ficam paradas diante do prédio pessoas que não conhecemos.
Queremos a nossa comodidade. Nem sempre lembramos da segurança de todos.
Chatinho isso.
Em um movimento cidadão diferente, na última quinta-feira, jovens universitários mostraram seu poder de organização. Na festa chamada Bar em Bar, que existe desde 2017, reuniram um número impressionante de jovens ocupando as ruas do centro de Porto Alegre.
Não havia drone fazendo a contagem, mas, pelas imagens, eram certamente milhares.
Como a organização é espontânea e não está no calendário oficial de eventos da cidade, houve impacto no trânsito, lixo nas ruas e, pela falta de banheiros, algum que outro ponto com cheiro de xixi.
Bem chato isso.
Mas tudo depende do ponto de onde se olha.
Uma geração que reivindica estar na rua é para ser celebrada.
Uma geração que, sem suporte institucional, organiza trajeto, equipes de apoio, regras e orientações para que a experiência seja a melhor possível para todos também merece ser apoiada.
Na chamada para participar, aparecem referências ao direito à cidade, com autores como Henri Lefebvre e Milton Santos. Descrevem a importância dos espaços públicos e de se reconhecerem para reforçar a própria cidadania. Há, inclusive, um manual do evento orientando sobre o respeito aos monumentos urbanos, o respeito mútuo, o direito de dizer não, o cuidado e a responsabilidade entre amigos.
Um verdadeiro “ninguém solta a mão de ninguém”.
Há ainda um grupo da organização, identificado por lenços, preparado para auxiliar em situações de assédio, desentendimento ou constrangimento.
Ver tanta gente jovem na rua, não por uma Copa do Mundo, mas simplesmente porque quer ocupar a cidade, me emociona.
Como achar isso chato?
É claro que dá para organizar melhor. Sempre dá.
E, quando penso na organização de grandes eventos de rua, lembro de uma palestra sobre a gestão do Carnaval de Olinda, em Pernambuco, em que a diretora de Turismo do município, Aiane Siqueira, apresentou o que fizeram por lá e que vou contar aqui.
Mais do que uma festa popular, tinham um enorme desafio de logística.
Uma cidade de pouco mais de 400 mil habitantes que, durante os dias de Carnaval, recebe mais de três milhões de pessoas concentradas em seu pequeno centro histórico. Para além da festa, que movimenta a economia local, a gestão dos resíduos gerados é uma história à parte.
Só de latinhas, eram toneladas de resíduos produzidos nos sete dias de festa.
Mas o interessante é que grandes desafios também revelam a nossa capacidade de resolver problemas.
Em uma parceria entre secretarias municipais e outros agentes envolvidos na gestão do Carnaval, foi organizado um projeto que procurou olhar para o problema de forma integral, reunindo diferentes atores que poderiam contribuir para sua solução.
Foi montada uma Central de Apoio à Reciclagem, pensando em tudo: do armazenamento do material ao apoio às famílias dos catadores cadastrados no projeto.
Para as crianças, filhos dos catadores, foi reservado um espaço de atendimento com alimentação — café da manhã, almoço e jantar —, lazer e cuidadores.
Os recursos financeiros vieram de acordos prévios para a compra das latinhas usadas, um dos materiais de maior reciclabilidade, já que pode ser integralmente reaproveitado como matéria-prima.
Com a organização da prefeitura, os catadores cadastrados foram distribuídos estrategicamente por quadrantes do centro histórico, onde havia imóveis de apoio para o armazenamento do material.
O impacto foi surpreendente.
Não apenas na limpeza urbana, já que as lixeiras passaram a ser esvaziadas rapidamente. Se em 2019, antes do programa, foram coletadas 53 toneladas de latinhas, em 2020 chegaram a 120 toneladas. Resultado de muita organização.
Ganharam todos: os catadores, o meio ambiente e a prefeitura, que também reduziu a necessidade de contratação de empresas para a limpeza urbana.
Pesquisadores acompanharam o processo para avaliar o projeto e seus resultados. Entre os dados levantados, um chama atenção: uma latinha não permanecia mais do que alguns segundos no chão.
A percepção da limpeza urbana passou, então, a ser um dos aspectos mais destacados pelos entrevistados.
A gestão do evento mostrou que é possível melhorar processos urbanos quando deixamos de enxergar os problemas isoladamente e começamos a construir soluções coletivas.
Gente demais não é chato.
Esse não é o problema.
Como cidadãos afetados, temos, talvez, dois caminhos: descer e entrar na festa, apoiar os negócios que ajudam a vitalizar nossas ruas, ou ficar indignados e incomodados durante algumas horas.
Nos dois casos, porém, precisamos entender que a cidade também é uma experiência comunitária.
E conviver exige responsabilidade.
Mas exige também alguma paciência.
Sobretudo, exige-se cobrar de nossos gestores — independentemente do partido — que façam aquilo que lhes cabe: planejar melhor, organizar melhor, antecipar problemas e encontrar soluções inteligentes.
Porque uma cidade viva faz barulho.
Tem gente na rua.
Tem comércio aberto.
Tem jovens ocupando espaços.
Tem trabalhador esperando ônibus.
Tem música.
Tem conversa.
Tem, eventualmente, uma latinha no chão e alguém reclamando que não consegue ouvir a novela.
Pode ser chato.
Mas talvez o verdadeiro problema seja uma cidade tão silenciosa, tão vazia e tão controlada que ninguém mais tenha vontade de ficar nela.
E essa, definitivamente, seria uma cidade muito mais chata.