
A família de Simon Mousquet havia chegado ao Brasil em meados do século passado, escapavam da perseguição nazista, que tinha vitimado os camaradas comunistas de seus avós. Atravessando a Espanha, deixam a França de Vechy e conseguem embarcar para a América do Sul por Lisboa. Simon cresceu ouvindo as histórias das maldades dos despóticos: assassinatos, perseguições, torturas. Porém, das vilanias escabrosas, as que mais o impressionavam foram os confinamentos arbitrários, não só os campos de concentração, porém, as internações em manicômios (que já ocorriam antes da invasão alemã na II Guerra) e os tratamentos forçados de lobotomia, aquela amputação cerebral que conferiu um Prêmio Nobel de Medicina ao médico português que a inventou. O menino foi daquela geração que, de camisa branca, bermuda e Conga azuis, desfilou enaltecendo a disciplina e a obediência, enquanto a ditadura no país desferia seus últimos golpes.
Crescido, se via anti qualquer forma de autoritarismo e de vigilância punitiva, em especial aquelas mascaradas em práticos disciplinamentos. Concluiu ainda jovem cursos médicos e de humanidades, sem nunca se desviar da herança doméstica de sensibilidade para com o povo. Estudou com afinco (em língua original) os últimos DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) e toda a obra de Michel Foucault. Acompanhou a evolução diagnostical das desordens mentais e a involução da condição do espírito humano, ao examinar as cento e seis definições de distúrbios listadas no primeiro DSM (lançado pelos anos 1950), as quase duzentas do segundo e as quase trezentas do quarto DSM. Constatou que todos os prognósticos foucaultianos se confirmaram: os poderes e dispositivos se fortaleceram em sua capacidade de adoecer as pessoas.
Engajou-se no justo fechamento de hospícios e de qualquer forma de discriminar pessoas com a pecha de louca.
Porém, sua vida começou a mudar de rumo quando se encantou tanto com o quinto DSM (criado em 2013) e suas mais de trezentas definições de distúrbios mentais, quanto pelo progresso da tecnologia farmacológica, que não apenas surpreendia o mercado com novas descobertas, mas inovava redirecionando, para o uso psiquiátrico, medicamentos que não estavam servindo, tanto assim, para curar o mal para o qual originariamente tinham sido fabricados.
Convicto de que os rumos da ciência psicológica e da tecnologia medicamentosa iriam, enfim, dar a solução para a higiene e saúde cerebral que os antigos métodos prometeram, mas não cumpriram, se filia a coletivos que encaram a tarefa de curar a grande epidemia disruptiva mental que acreditava vir assolando o mundo. Conscientizou-se de que praticamente ninguém está imune a ser identificado (em qualquer altura da vida) como um acometido por desordens de atenção, de ansiedades, de melancolia, de alguma compulsão, de estresse traumático, de crise de identidade, de apetite, de antissociabilidade, de espectros e disfunções.
Era também assíduo participante dos principais congressos internacionais que disseminavam e fortaleciam as investigações científicas sobre as enfermidades da lucidez e os investimentos financeiros na oferta das novas pílulas sanadoras.
E foi num desses que se deu conta de que, talvez, os únicos seres humanos psiquicamente saudáveis do planeta sejam exatamente aqueles poucos a ele irmanados pelos crachás de conferencistas. Esta constatação iluminou sua alma de pesquisador especialista. Pois tinha descoberto o grupo focal ideal para, a partir de análises discursivas e observações comportamentais, traçar o padrão da mais exata normalidade e, assim, contribuir ainda mais para que se tipifique, sem sombra de dúvidas, por contraste, o que seja o mínimo traço de anormalidade cognitivo-emocional.
Depois do terceiro congresso, no qual desenvolvia suas teorizações, já havia se formado uma grande expectativa entre os doutos sobre o verdadeiro perfil do salubre de razão. Pois, no íntimo, todos queriam dissipar qualquer dúvida ou insegurança que tinham sobre si mesmos, se realmente era a normal racionalidade que guiava suas emoções na vida.
Contudo, o que era expectativa se avolumou para anseios quando Mousquet, no idioma de Pinel, apresentou a seus pares os primeiros resultados, desagradavelmente surpreendentes. Encontrou em todos, até então consultados, algum vulto de desatenção, de certo desânimo recorrente, de obsessão por alguma coisa, de desalento mediante um baque na existência, de incertezas sobre si mesmos, de vontade de comer pouco ou comer muito, de não estar a fim de socializar com quem quer que seja… Tal conclusão, mesmo que preliminar, colocou todo o universo de psiquiatras, psicólogos e psicopedagogos em polvorosa. Posto que não eram apenas suas realidades profissionais que estavam em jogo, porém, a validade prática de todos os DSM e a legitimidade de toda indústria da tarja preta. Pois, se quem denomina, prescreve e receita também é um enfermo do desconcerto das ideias, que poder terá para preceituar os remédios para a saúde da psique alheia?
Preocupados com o andar da pesquisa e seu efeito nefasto para o ecossistema dos curadores da subjetividade, a comunidade planta um espião dentre a equipe de Simon. Este não precisou de muito tempo para revelar os avanços dos remates do pesquisador. Segredou que ele estava prestes a defender a tese de que, à exceção dos casos clinicamente comprovados, diagnosticados via exames e junta médica, ninguém poderia sacramentar a condição da subjetividade de uma pessoa; o olhar (e a canetada) de um único profissional não estaria habilitado a estipular a personalidade de ninguém; que o léxico formulado pela American Psychiatric Association (a associação dos psiquiatras dos Estados Unidos) e exposto no DSM não é a escrita do verbo que se faz carne (e nervo) ao redor das culturas dos povos. E que as empresas que fabricam as drogas não podem ser as mesmas que possuem os laboratórios de onde sai o que se tem por conhecimento sobre as emoções humanas.
Aterrorizados com os desdobramentos da divulgação do relatório final de Mousquet, os demais organizam um evento internacional extraordinário (com despesas financiadas por cerca de cinco grandes multinacionais) para que apresentasse os tão esperados, e supostamente desconhecidos, achados. Em silêncio sepulcral, assistem à exposição da metodologia, dos relatórios de dados, das análises e, principalmente, do conjunto conclusivo elaborado por aquele que acreditava ser o emérito convidado. Findada a comunicação, Simon é surpreendido por uma saraivada de críticas e contestações, nas quais a maioria delas já fazia referência direta ao que deveriam estar tomando ciência pela primeira vez.
Assim, percebendo o ardil e a traição, nosso cientista se rebela veementemente contra a galáxia dos seus pares. Rapidamente, também se dá conta de que, por óbvio, havia dedos (e mãos inteiras) da indústria da tarja preta nessa artimanha.
Revolta-se.
Afirma que vai denunciar à sociedade em geral o que se passa com toda área que se arvora saber o ponto certo do equilíbrio do espírito. Todavia, já era tarde demais; a plateia já estava presente, a tourada já estava na arena e o touro era ele.
Por unanimidade, o simpósio rejeita suas teses, defendendo em réplica um novo conceito, que ampliará a abrangência do próximo manual: o Transtorno de Espectro de Normalidade, TEN. A ser descrito no DSM, meia dúzia como o pior e o mais sombrio dos transtornos e espectros. Se configurando quando o normal se recusa a aceitar que existe normalidade e que ele é um normal. Abandonar a pretensão de prescrever o que é normal num mundo de loucuras é o mais profundo dos desalinhos. Por conseguinte, a maior das desordens mentais é divergir da ideia de desordem mental.
Ali mesmo, Simon Mousquet é diagnosticado como o mais emblemático e severo caso de TEN, para o qual, também sumariamente, se reconhece a ineficácia de qualquer agente químico a ser introduzido em seu organismo, restando apenas a possibilidade de cura por uma incisão mais direta. Mediante o galopante progresso da tecnologia, que se mede desde os tempos do primeiro DSM, a tal incisão prescrita não fere a dignidade do paciente e cumpre todos os pré-requisitos da ética científica. Pois não se vale dos famigerados bisturis e serras da lobotomia. Agora, o ponto disfuncional do cerebelo, ao qual se atribui a causa de tão grave manifestação do TEN, é alvejado pela descarga de um cirúrgico raio laser da Philips Medical.
Após esses acontecimentos fora da programação usual, a comunidade de doutos informa que o DSM 6 será publicado em breve, logo após se concluírem ajustes na redação da mais nova desordem e, em especial, depois de se analisarem os resultados do tratamento via laser aos quais foram submetidos os suspeitos de caso de TEN que vêm sendo paulatinamente identificados.