
A liberdade, quando pensada dentro dos moldes do mercado, corre o risco de tornar-se justamente aquilo que pretende negar: um mecanismo de reprodução e manutenção da própria estrutura que aprisiona o sujeito. A dita liberdade, que sequer ousa arranhar os grilhões que a aprisionam, não pode ser considerada liberdade em seu sentido efetivo, mas apenas uma representação ideal dela, a sua ilusão.
Dentro da lógica capitalista, o sujeito é convocado a experimentar-se como livre ao mesmo tempo em que permanece submetido às condições materiais, econômicas e ideológicas que delimitam suas possibilidades de existência. Sua liberdade passa, então, a ser exercida no interior de um campo previamente determinado. Ele pode escolher, consumir, circular, produzir, expor-se e até mesmo construir uma narrativa de individualidade; entretanto, essas escolhas frequentemente permanecem subordinadas à lógica que organiza o próprio sistema. A liberdade, nesse sentido, não rompe necessariamente com a dominação: pode tornar-se uma de suas formas mais sofisticadas de funcionamento.
Para que o sistema capitalista se mantenha, não é suficiente a existência de estruturas econômicas de exploração. É necessário também que os sujeitos reproduzam, em sua vida cotidiana, comportamentos, valores e formas de percepção que contribuam para sua continuidade. A dominação não se sustenta apenas pela força externa; ela também se reproduz quando é incorporada como modo de vida, como desejo e, sobretudo, como aquilo que o indivíduo passa a compreender como escolha pessoal.
É nesse ponto que a adaptação crescente ao mundo digital e ao estilo de vida “instagramável” adquire particular importância. A promessa de individualidade parece constituir uma das grandes marcas do nosso tempo: cada indivíduo é convocado a construir sua própria imagem, diferenciar-se, apresentar sua singularidade e tornar pública a narrativa de sua existência. Entretanto, o resultado parece paradoxal. Na busca incessante pela afirmação da individualidade, os sujeitos tornam-se cada vez mais semelhantes entre si.
A singularidade passa a ser produzida segundo modelos previamente estabelecidos. O sujeito acredita estar construindo uma identidade própria, quando, muitas vezes, apenas reproduz formas socialmente disponíveis de apresentação de si. A experiência individual converte-se em imagem, a imagem em mercadoria e a mercadoria em signo de pertencimento. Assim, aquilo que aparece como expressão da diferença pode funcionar, simultaneamente, como profunda mimese. Deseja-se ser singular, original, mas aprende-se a sê-lo de maneira padronizada – é uma forma de ser sem “alma” e sem maior significado, nada representa essencialmente, a não ser uma expressão vazia de si. É curioso, portanto, pensar que, quanto mais a sociedade proclama a necessidade de sermos diferentes, mais semelhantes nos tornamos.
Há ainda outro aspecto que precisa ser considerado: o desenvolvimento tecnológico não corresponde necessariamente ao desenvolvimento da maturidade subjetiva. Somos capazes, enquanto humanidade, de produzir dispositivos extremamente sofisticados, redes digitais de alcance planetário e sistemas tecnológicos de elevada complexidade, mas isso não significa que tenhamos desenvolvido, na mesma proporção, recursos internos para lidar com nossa própria existência.
Talvez permaneçamos, nesse sentido, profundamente “primitivos”. Não no sentido de uma inferioridade evolutiva, mas no sentido de ainda sermos sujeitos atravessados por medos, angústias, impotências e necessidades de proteção que encontram formas bastante arcaicas de expressão. O avanço tecnológico não eliminou nossa dificuldade diante da finitude, da incerteza, da impotência e da ausência de controle sobre a própria vida.
Diante dessa dificuldade, recorremos frequentemente a mecanismos capazes de reduzir o contato com aquilo que nos causa angústia, de rebaixarmos o nosso nível de consciência. Peter Zapffe já discorreu bem sobre isso no seu ensaio “O Último Messias” (1933). É possível que algum rebaixamento da consciência seja necessário para a própria manutenção da vida psíquica. Freud afirmou que não é possível existir e enfrentar a realidade o tempo todo sem algum mecanismo de defesa; ou seja, não somos capazes de permanecer permanentemente diante da totalidade daquilo que nos constitui. O problema surge quando esse movimento deixa de ser uma estratégia momentânea de proteção e transforma-se em uma condição permanente de existência.
Nesse cenário, proliferam narrativas mágicas, soluções imediatas e explicações simplificadoras para problemas que exigiriam elaboração. O sujeito passa a buscar respostas que não necessariamente correspondem à verdade de sua experiência, mas que oferecem alívio diante daquilo que não consegue suportar. A questão não está simplesmente na existência dessas narrativas, mas na distância que pode surgir entre elas, o desejo e a realidade. O indivíduo pode passar a habitar uma narrativa sobre si mesmo que pouco corresponde àquilo que efetivamente deseja ou vive.
A lógica capitalista encontra, nesse terreno, uma possibilidade particularmente poderosa de reprodução. Ela não precisa apenas vender produtos; pode vender formas de existência. Não precisa somente organizar o trabalho; pode organizar o desejo. Não precisa apenas ocupar o espaço econômico; pode avançar sobre a subjetividade, estabelecendo modelos acerca de como devemos viver, parecer, desejar e nos apresentar.
É nesse sentido que a dominação ultrapassa os limites da esfera econômica. Ela penetra na constituição do próprio sujeito. O indivíduo passa a participar de sua própria sujeição, não necessariamente porque desconhece a existência da dominação, mas porque determinadas formas de dominação aparecem revestidas de liberdade, escolha e realização pessoal.
A pretensa liberdade pode, assim, contribuir para ampliar aquilo que o sujeito afirma superar. Ao acreditar que está escolhendo livremente, o sujeito pode reproduzir os mesmos padrões que estruturam sua submissão. A liberdade converte-se, então, em uma espécie de mecanismo autorreferente: o indivíduo escolhe, mas escolhe dentro de possibilidades previamente organizadas; afirma sua individualidade, mas o faz por meio de modelos socialmente produzidos; busca autonomia, mas frequentemente reproduz as condições que limitam sua própria autonomia.
Se a liberdade consiste apenas na possibilidade de movimentar-se dentro de um sistema responsável por seu próprio aprisionamento, em que medida ainda podemos chamá-la de liberdade?
Essa questão nos obriga a desconfiar do uso contemporâneo da própria palavra “liberdade”. Talvez seja necessário distinguir a liberdade efetiva de suas representações. Nem toda escolha é expressão de autonomia. Nem toda possibilidade de consumo constitui liberdade. Nem toda capacidade de construir uma identidade pública significa possuir uma identidade própria. E nem toda possibilidade de dizer “eu escolhi” significa que as condições dessa escolha tenham sido livremente produzidas.
É nesse ponto que a contribuição de Marcuse se torna particularmente importante. Ao formular o conceito de homem unidimensional, ele descreve um sujeito cuja consciência (e também o inconsciente, o desejo inconsciente) se encontra progressivamente integrada às necessidades e aos valores produzidos pela sociedade industrial avançada. O problema não é simplesmente que o indivíduo seja impedido de desejar, mas que seus próprios desejos sejam produzidos, administrados e direcionados por uma estrutura social que se apresenta como natural.
O mercado, nesse sentido, não se limita a responder aos desejos existentes. Ele participa da produção desses desejos. A subjetividade deixa de constituir um território inteiramente exterior à economia e passa a ser progressivamente incorporada à sua lógica. O setor econômico avança sobre o terreno da subjetividade, transformando desejos, afetos, imagens, relações e experiências em elementos potencialmente convertíveis em valor.
O sujeito contemporâneo encontra-se, assim, diante de um paradoxo: quanto mais é convocado a ser livre, mais precisa corresponder às exigências que definem o que significa ser livre. Deve escolher sua aparência, seu estilo de vida, suas experiências, seus produtos, suas relações e até mesmo a maneira como apresenta sua felicidade. A liberdade passa a ser performada.
Talvez seja justamente aí que devamos localizar uma das formas mais sofisticadas da dominação contemporânea: quando o sujeito já não precisa ser obrigado a reproduzir o sistema porque passa a desejar aquilo que o reproduz.
A questão da liberdade, portanto, não pode ser reduzida à quantidade de escolhas disponíveis ao indivíduo. É preciso perguntar pelas condições que produzem essas escolhas, pelos desejos que as orientam e pelas estruturas que determinam aquilo que pode ou não ser desejado. Uma liberdade que não questiona as condições de sua própria constituição corre o risco de ser apenas uma liberdade formal – suficientemente ampla para produzir a sensação de autonomia, mas insuficiente para produzir efetiva emancipação.
Ser livre talvez exija mais do que poder escolher entre alternativas. Exija a capacidade de interrogar as próprias alternativas, reconhecer aquilo que foi produzido como desejo e perguntar de onde vem aquilo que acreditamos querer. Exija, sobretudo, a possibilidade de construir formas de existência que não estejam inteiramente subordinadas à necessidade de converter a própria vida em desempenho, imagem, mercadoria ou valor de troca.
Nesse sentido, a liberdade não deveria ser pensada apenas como possibilidade de movimento dentro das estruturas existentes, mas como possibilidade de transformar as próprias estruturas que determinam nossos movimentos. Caso contrário, corremos o risco de chamar de liberdade aquilo que é apenas uma forma mais sofisticada de adaptação.
A verdadeira questão talvez não seja, portanto, “somos livres para escolher?”, mas “em que medida somos livres para determinar as condições nas quais escolhemos?”. É nessa passagem que a liberdade deixa de ser apenas uma experiência subjetiva de escolha e passa a adquirir uma dimensão efetivamente crítica e emancipatória. E a criticidade atualmente finda por ser uma atitude rara, quase em extinção.
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Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo, psicoterapeuta e docente no ensino superior. Participou do Programa de Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar. Sua produção intelectual e interesses de pesquisa concentram-se no campo da Psicanálise, com ênfase nas contribuições de Melanie Klein e Wilfred Bion, do Marxismo, da Teoria Crítica e da tradição da Escola de Frankfurt.