As histórias dos nossos cãezinhos são todo um roteiro definidor da família que construímos: somos unidos e amorosos. Antes de o Pedro e a Paula nascerem, quando eu e a Dione ainda éramos só um casal sem herdeiros e muitas preocupações, tivemos a Alth, uma filhotinha que encontramos atropelada no acostamento da saída de Capão e ficou 14 anos conosco. Depois que nasceram os nossos filhos, primeiro, foi o Paul, um yorkshire cuja inspiração beatle do nome talvez dispensasse explicações, especialmente pra quem me conhece. O Paul lia comigo. Juro! Tenho fotos! Batia insistentemente à porta (bam! bam! bam!) do quarto da Paula, até ela abrir e ele entrar zunindo. Juro! Tenho um vídeo, e é hilário! Quando faleceu por uma desgraçada e silenciosa insuficiência renal, esperou até o Pedro chegar de uma temporada morando em Israel pra se despedir dos manos com quem cresceu junto. Quando a Dione pegava uma cenourinha daquelas pequenas na geladeira, ele ficava vidrado nela, ansioso, rabo abanando e olhar fixo na provedora, porque era um cão vegetariano raiz. Uma vez, quando nos reunimos os quatro pra ver “sessão de cinema” na sala, o Paul foi até a caminha dele, pegou o paninho onde dormia, o trouxe entre os dentes e se aconchegou na bunda da Paula. São muitas histórias, mas eu não disse o essencial: ele era um anjo que olhava nos nossos olhos com uma ternura inexplicável, absurda.
O Paul faleceu num momento difícil, quando a Paula superava uma doença grave da qual hoje, quase cinco anos depois, está curada, graças a Deus e aos médicos divinos que a atenderam. A morte dele ocorreu com os meus filhos o acarinhando no hospital veterinário. Fiquei olhando a algo como um metro de distância os meus filhos passarem a mão pelo seu pelo enquanto ele desfalecia e ia se despedindo dignamente, depois de uma vida amorosa.
Como teve umas complicações na saúde do Paulzinho que são resultantes da mistura de raças em laboratório que fazem por aí pra criar “marcas”, decidi que iria adotar o nosso próximo mascote canino (também tivemos a Aiko, uma ratinha esperta que comia na mão da gente e passeava no ombro da Paula, e o hamster Levy, que era meio sem noção, mas, muito amado, ganhou fama de boêmio e “má companhia” no nosso anedotário interno). Fui até a feirinha da Deise Falci e peguei o cusco pretinho assustado que depois denominamos de Jake e tinha exatos dois meses (sei a data de nascimento da ninhada).
O Jake, cujo nome remete a um personagem de desenho animado, ao Jake Peralta da série Brooklin 99 e até ao Jacó que virou Israel e é o pai das 12 tribos, é diferente do Paul, mas tão dócil quanto. Como ele tem uma gravatinha branca destoando do pelo todo preto (um preto reluzente), pus nele uma coleira azul pra que ficasse com as três cores do nosso time. A evolução emocional de bichinho rejeitado a mascotinho acolhido pode ser constatada quando pegamos a Freeway. No início, ele precisava tomar calmante. Em seguida, passou a pular pra dentro do carro faceiro, sabendo que viriam as caminhadas pela Beira-Mar, em Capão. E, pra não magoar ninguém, reveza os colos, metade da viagem com a cabecinha apoiada no Pedro e a outra metade apoiada na Paula. Ninguém fica excluído!
Recentemente, a Paula se deu conta do motivo de uma característica do Jake, a de se agarrar na gente como quem nos abraça (foto). Enreda as nossas pernas com as duas patas num movimento de pinça e nos solta só quando insistimos muito. Por ele, ficaria ali, justificando aquela música do J Quest que diz que o melhor lugar do mundo fica dentro de um abraço. E não é? Mas qual foi a constatação da Paulinha, imediatamente corroborada por todos? O Jake nos emula. Vê a gente se abraçar tanto, o tempo todo, que imita o gesto. Somos os Gruderchmanns. Vejo um filho na frente, e é como um imã. Corro em direção a ele ou ela e me grudo. Vergonha? Vergonha é roubar e matar. E isso jamais faríamos, nem o Jake, com aquele olhar guaipeca de carência atávida, nutrida por gerações. Tornou-se um bichinho carinhoso como somos entre nós e, evidentemente, também em relação a ele. Como dizem os Beatles, “the love you take is equal to the love you make”.
Mas por que estou falando nos nossos bichinhos?
Porque tem que ser muito cínico e essencialmente mau pra não entender o pavor de que nós, seres humanos empáticos e com valores, fomos tomados ao sabermos do que fizeram com o cãozinho Orelha em Santa Catarina. Já vi tudo que é abordagem sobre o caso, do suposto acobertamento ao nível de maldade a que alguns dos nossos jovens assustadoramente chegaram neste mundo cruel, cheio de horrores desumanos exasperantemente exemplares do que há de pior em termos de civilidade, empatia e afeto. Fazer o que aqueles monstros fizeram com um anjinho inocente que só nos pede carinho e devolve com amor incondicional é a prova maior de uma maldade extremada.
Você sabia que podemos constatar a psicopatia diante de situações como essa? Estarrecido diante do episódio abominável, pesquisei sobre o relação entre a crueldade contra animais e a psicopatia (Transtorno de Personalidade Antissocial – TPAS). Fornida documentação mostra que essa crueldade gratuita tende a indicar um padrão precoce de violência mais amplo. Existe um troço chamado “Teoria do Link” (The Link), segundo a qual há uma relação direta entre os maus-tratos a animais e a violência interpessoal. Pessoas que maltratam animais na infância ou adolescência têm maior probabilidade de cometer atos de violência contra semelhantes quando adultos. Agências de segurança como o FBI já catalogam a crueldade com os animais no mesmo nível que outros crimes graves, por serem um horror em si e um alerta.
O que mostra a monstruosidade feita com o anjinho Orelha? Falta de empatia (característica central da psicopatia, por levar o indivíduo a ignorar o sofrimento da vítima, seja ela animal ou humana); controle e poder (atos de crueldade contra seres vulneráveis podem ser uma forma de expressar poder e controle); dessensibilização à violência (a violência contra animais pode dessensibilizar o indivíduo ao sofrimento e à morte, facilitando a progressão para crimes mais graves). Repito: é um horror em si e um alerta.
Monstros não entendem
Sabem algo sobre o que não me poupo de manifestar orgulho? A minha vocação. Já adolescente eu sabia que queria ser jornalista. Entrei na UFRGS aos 17 anos e, desde a formatura em 1986, foram 40 anos (e aí, turma da Fabico? Vamos festejar?!). Por isso, digo tranquilamente que ter uma coluna semanal, pra mim, é um problema, não pela falta de assuntos, mas pelo excesso. Eu poderia escrever diariamente, é a única atividade que faço com desenvoltura. Sempre tenho assuntos e sempre elaboro mentalmente textos sobre eles! E essa fartura de opções é o motivo pra eu entrar meio atrasado nesse caso do anjinho Orelha, mesmo sendo um amante dos bichinhos, sejam eles caninos, felinos ou outros menos votados pelo senso comum.
Mas volto agora, no fim da coluna, a um tema recorrente, que me assombra e persegue. Quando os facínoras do Hamas executaram deliberadamente 1,2 mil pessoas no pogrom pra muitos invisível do 7/10, com mortes crudelíssimas a sangue frio, estupros, infanticídios e os sequestros que se estenderam por mais de dois anos, os falsos humanistas que gritam o slogan genocida “Palestina do rio ao mar” fizeram troça do choque que tivemos ao comentar que os psicopatas atiraram até nos bichinhos de estimação, como mostram vídeos devastadores produzidos aos risos pelos próprios protagonistas. Releia o texto acima e entenda o nosso estupor. É puro e real humanismo o que nos move, algo de que, infelizmente, monstros não estão equipados pra entender.
Tempos modernos
Num 5 de fevereiro (dia em que entreguei a coluna para a publicação), há 90 anos, estreava Tempos Modernos, do Chaplin. Como clássico que é, não perde a atualidade. Carlitos desmaia no trabalho industrial desumano, é preso por entrar de gaiato numa manifestação, é solto por apaziguar um motim na cadeia e, por fim, vai lutar pela vida com uma menininha órfã. Mundo maluco, que gira e nem sempre se move.
Sobre o cãozinho Orelha, o querido colega de SLER Fernando Neubarth, na sua mais recente e brilhante coluna, escreveu assim: “’Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.’ (Graciliano Ramos, Vidas Secas, 1938). Um dos trechos mais lembrados da nossa literatura: a morte da cadela Baleia. Suspeitando de hidrofobia (raiva), Fabiano decide sacrificá-la, enquanto Sinhá Vitória leva os dois meninos para dentro de casa, tentando tapar-lhes os ouvidos e poupá-los da tragédia. Numa situação bem diferente, outro cão foi sacrificado. Em Santa Catarina, um grupo de adolescentes é investigado pela morte de Orelha, animal vítima de maus-tratos na Praia Brava, em Florianópolis. (…)”.
De Tempos Modernos a Vidas Secas, o apelo à sensibilidade se mantém num mundo que gira, mas nem sempre anda.
E muitos ainda não o entendem (nem o mundo, nem o apelo).
Shabat shalom!
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Foto: Arquivo Pessoal

