
Desde que me tenho deparado com o assunto em apreço, tento ponderar, devidamente, que tipo de contribuição posso trazer para ajudar o debate sobre a relação entre sexualidade e poder, considerando que tal empreendimento é parte de um contexto reflexivo mais amplo em que o foco principal se volta para o corpo, analisado desde diferentes olhares. Pretendo articular minhas considerações, desde o ponto de vista da Filosofia. Outrossim, devo asseverar que não irei adentrar em questões de gênero na diversidade de sua compreensão. Trago esse tema à baila com o intento de fortalecer a defesa intransigente dos direitos das mulheres.
Tenho a compreensão de não esgotar a temática. Essa seria uma pretensão descabida. Contudo, como a extensão do tema é grande, naquilo que eu consegui refletir, acabei por produzir um texto longo. Por isso, você encontrará nessa semana a parte 1 (primeira mirada) do mesmo; e, na próxima, sua finalização (segunda mirada).
A Filosofia esteve sempre ocupada na busca de desvendar os mistérios profundos presentes no universo. Inicialmente, preocupou-se com a ordem cosmológica, ponderando a necessidade de encontrar um elemento primordial que a fundasse, assegurando permanência e unidade. Posteriormente, buscou adentrar os arcanos, os segredos mais profundos do ser. Descobre, enfim, que o próprio ser humano não é apenas mais um ser entre tantos; porém é, ele mesmo, um problema. Assim, podemos dizer que toda a História do pensamento humano é um dizer do homem e sobre o homem, e a pergunta acerca de sua essência coloca-o na condição de sujeito e objeto de seu próprio pensamento. Nessa perspectiva, poderíamos afirmar que toda a Filosofia desdobra-se como movimento da razão que busca compreender o ser humano, na sua totalidade, isto é, unidade de corpo e alma, ora predominando o enfoque da alma sobre o do corpo ou, ao contrário, o do corpo sobre o da alma, ou ainda, suprimindo um ou outro.
O questionamento sobre o ser humano torna-se tema dominante na época da Sofística antiga (século V a. C.) e, a partir daí, estará presente em todo o desenvolvimento da Filosofia ocidental. A busca do conhecimento de si havia entretido o velho Sócrates, seduzido pelo famoso oráculo: “conhece-te a ti mesmo”. Entretanto, ela foi cerceada em virtude de sua conclusão, aparentemente, óbvia, contudo, perigosa: “só sei que nada sei”. Enquanto isso, os Sofistas bradam, em terras helênicas, que “o homem é a medida de todas as coisas”. Platão e Aristóteles enveredaram na questão da melhor organização social, porém, ainda que privilegiando aspectos distintos do saber filosófico, marcam uma posição “definitiva” quanto ao problema do homem. Doravante o homem será “animal racional”, estará definido por sua Razão . No Medievo, encontrará aconchego seguro na sagrada Instituição da Igreja, fora da qual não haverá possibilidade de salvação. Crises e guerras marcarão a história; reis e governantes passam faixas, entregam tronos, mas a pergunta permanece sem resposta: o que é o homem?
A trindade Marx, Freud e Nietzsche irá mudar o rumo em que esse problema é posto. Com o advento da Modernidade, o velho conceito da Razão como guia havia retomado seu lugar. Tudo parecia navegar tranquilo, não fosse Freud chamar a atenção para o dado de impulsos inconscientes que podem reger a pessoa humana, ou Marx advogar que a miséria massacrante da humanidade não tinha outro fundamento que não a luta de classe, mola propulsora da História; ou ainda, Nietzsche desmantelar todo o sistema da Metafísica clássica, revelando ao homem sua potencialidade criadora e denunciando a razão como algoz. Estamos vivendo a crise da Modernidade; as mazelas e limitações da pessoa humana são postas à luz do dia, à espera da aurora de um amanhã que não chega. A pergunta, porém, permanece sem resposta. Nenhuma época elaborou conceitos em abundância e variedade tão sentidos: contudo, nenhuma soube menos que a nossa como responder ao problema.
Estou falando de uma mudança radical na história. Entramos numa época cujo escopo é, ao que tudo indica, a busca de conter as forças da natureza bruta pelo uso dos inúmeros recursos presentes na natureza humana. O ser humano volta a ser, progressivamente, o centro da História, e a Razão, como disse, sua guia suprema. Porém, se, de um lado, assistimos a um autocentramento que preconiza a autonomia humana, de outro, não demoraremos a ver uma frustração generalizada com os produtos tão efusivamente construídos pelo “saber” humano. Podemos falar do ser humano desenraizado. Aquele que viu, de repente, questionadas suas mais óbvias certezas: especula-se a propósito de uma nova ordem cosmológica, arrancando-lhe a certeza secular de habitar o centro do universo — a Terra. O fenômeno das grandes cidades levará ao anonimato aquele que se perdeu na multidão, perdendo não só a segurança sociológica, mas também o próprio poder de controle de suas criações. Assiste-se ao desmoronamento dos dogmas religiosos que lhe asseguravam a certeza do além-túmulo e o reconforto no sofrimento. O freudismo especula acerca das profundezas do psiquismo humano, revelando as motivações secretas do comportamento. Nietzsche vaticina que a sociedade, assassina de Deus, pretendia continuar apoiando N’Ele os valores recebidos: “urge encontrar uma nova fundamentação para os valores”, apregoa. Temos, assim, uma crise generalizada na História da Humanidade. Essa crise levou, necessariamente, a repensar a ideia de que o mundo, até então, ensinava sobre o ser humano.
Ora, a mim parece que a nossa era se deu conta de que a pessoa humana não cabe num conceito. Que não é possível delimitar, de forma precisa e definitiva, “o homem e a mulher são isto ou aquilo”. E se tal não é possível, não o é, porque somos projetos, porque estamos nos construindo. Na verdade, somos seres inconclusos. “Recusamo-nos a ser aquilo que, à semelhança dos animais, o passado nos propunha.” Tornamo-nos inventores de mundo. Quisemos traçar, nós mesmos, o nosso retrato. Sabemos, somos animais racionais, mas não somente. Somos lúcidos, “sapiens”, religiosos, sociais, políticos, culturais, sexuados… Somos tudo isso e nada disso, isoladamente. Somos uma totalidade que se articula, um todo que se constrói, que se projeta. Por isso não cabe uma resposta definitiva para a questão “o que é ser homem? A realidade extrapola o conceito e a vida ultrapassa a mais bem intencionada empresa de prendê-la em definições.
Ocorre que a estrutura de dominação da sociedade de classes hierarquizou homem e mulher, determinando-lhes valores e indicando-lhes o mais adequado comportamento. Assim, temos o predomínio cartesiano do “cogito”, que coloca a Razão acima de qualquer dimensão do ser. Vale ecoar Dussel, quando afirma: “a falocracia, o império constituinte do falo, é um sucedâneo ou um determinante da plutocracia. No processo da conquista da América, o europeu não só dominou o índio, mas também violou a índia… “o ego cogito” funda ontologicamente o eu conquisto e o ego fálico, duas dimensões da denominação do homem sobre o homem, de uma nação sobre outra, de uma classe sobre outra. A sexualidade é, assim, uma dominação política, econômica, cultural. (DUSSEL, 1998:89).
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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